{"id":32622,"date":"2025-09-19T22:22:56","date_gmt":"2025-09-20T01:22:56","guid":{"rendered":"https:\/\/resumopolitico.com.br\/?p=32622"},"modified":"2025-09-19T22:24:10","modified_gmt":"2025-09-20T01:24:10","slug":"32622","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/resumopolitico.com.br\/?p=32622","title":{"rendered":"A racionalidade invertida: quando o sistema empurra para a irracionalidade."},"content":{"rendered":"<div>O Brasil vive um paradoxo que n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m moral e institucional. De um lado, os bancos s\u00e3o autorizados a cobrar juros equivalentes a 100% da taxa Selic, sustentados pelo argumento de que precisam remunerar o risco de emprestar. De outro, as construtoras que executam obras p\u00fablicas n\u00e3o podem ultrapassar 8% de lucro em seus contratos, sob pena de serem acusadas de sobrepre\u00e7o, processadas pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) e pela Controladoria-Geral da Uni\u00e3o (CGU). Entre esses dois extremos surge a contradi\u00e7\u00e3o: o sistema admite a racionalidade do lucro ilimitado quando se trata de finan\u00e7as, mas imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e at\u00e9 artificiais quando se trata de atividade produtiva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa distor\u00e7\u00e3o cria um efeito perverso: enquanto o setor financeiro \u00e9\u00a0 \u201c protegido \u201c por um discurso de legalidade, transpar\u00eancia e livre mercado, o setor produtivo \u00e9 estrangulado por regras que n\u00e3o refletem a realidade do risco empresarial. A consequ\u00eancia \u00e9 \u00f3bvia: para sobreviver, muitos empres\u00e1rios recorrem a sa\u00eddas subterr\u00e2neas \u2014 superfaturamento, aditivos contratuais sem justificativa real ou at\u00e9 corrup\u00e7\u00e3o direta. O que deveria ser exce\u00e7\u00e3o passa a ser regra. A racionalidade, nesse contexto, n\u00e3o est\u00e1 mais em obedecer \u00e0 lei, mas em encontrar meios de dribl\u00e1-la.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O lucro permitido e o lucro proibido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O ponto central da quest\u00e3o \u00e9 que o lucro permitido varia conforme o setor. No caso dos bancos, n\u00e3o existe teto. Se a Selic est\u00e1 em 15% ao ano, nada impede que a taxa efetiva ao tomador seja o dobro disso, j\u00e1 que os encargos, seguros e taxas adicionais multiplicam o valor final. O argumento \u00e9 sempre o mesmo: o risco precisa ser precificado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas quando a l\u00f3gica \u00e9 aplicada \u00e0s construtoras ou prestadores de servi\u00e7os p\u00fablicos, o racioc\u00ednio desaparece. Um contrato de obra \u00e9 fixado com margem de 8%. Essa cifra, muitas vezes insuficiente para cobrir atrasos, varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os de insumos e riscos de paralisa\u00e7\u00e3o, transforma a execu\u00e7\u00e3o em um exerc\u00edcio de sobreviv\u00eancia. A empresa que tentar jogar limpo e executar a obra exatamente dentro dos limites legais dificilmente ter\u00e1 margem para imprevistos. J\u00e1 aquela que recorre a pr\u00e1ticas duvidosas encontrar\u00e1 espa\u00e7o para \u201ccorrigir\u201d os n\u00fameros.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O paradoxo \u00e9 cruel: o mesmo Estado que autoriza bancos a cobrar juros extorsivos pune empresas que buscam margens realistas de lucro. N\u00e3o se trata apenas de economia \u2014 \u00e9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da irracionalidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O convite ao desvio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A estrutura normativa brasileira, ao inv\u00e9s de premiar a efici\u00eancia, premia a ast\u00facia de quem conhece os atalhos. Isso gera tr\u00eas fen\u00f4menos centrais:<\/div>\n<div>1.Desmoraliza\u00e7\u00e3o da legalidade \u2013 Cumprir a lei vira sin\u00f4nimo de inviabilidade. Empresas que se mant\u00eam estritamente dentro das margens impostas correm o risco de fal\u00eancia.<\/div>\n<div>2.Sele\u00e7\u00e3o adversa \u2013 As empresas mais \u00e9ticas e transparentes s\u00e3o expulsas do mercado, abrindo espa\u00e7o para aquelas que se adaptam ao \u201cjeitinho\u201d ou que contam com prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/div>\n<div>3.Naturaliza\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o \u2013 O il\u00edcito deixa de ser exce\u00e7\u00e3o e passa a ser visto como a regra do jogo, quase uma exig\u00eancia para que o neg\u00f3cio sobreviva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse ambiente, a sociedade perde em todos os sentidos: paga mais caro por servi\u00e7os de qualidade duvidosa, assiste \u00e0 eros\u00e3o da confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e v\u00ea consolidar-se a percep\u00e7\u00e3o de que a honestidade \u00e9 impratic\u00e1vel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O paradoxo dos riscos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O risco empresarial n\u00e3o \u00e9 uniforme. Uma obra p\u00fablica envolve dezenas de vari\u00e1veis fora do controle da empresa: licenciamento ambiental, desapropria\u00e7\u00f5es, mudan\u00e7as no or\u00e7amento p\u00fablico, atrasos de repasse de verba, flutua\u00e7\u00e3o cambial que afeta pre\u00e7os de a\u00e7o, cimento ou equipamentos. Qualquer uma dessas vari\u00e1veis pode comprometer a margem do contrato.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos bancos, a narrativa do risco \u00e9 usada para justificar margens elevadas. \u201cO Brasil \u00e9 arriscado\u201d, dizem, e por isso o tomador precisa pagar juros estratosf\u00e9ricos. Mas nas obras p\u00fablicas, onde o risco \u00e9 igualmente alto ou at\u00e9 maior, o Estado n\u00e3o aceita que o empres\u00e1rio precifique de acordo com a realidade. Essa assimetria n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica, mas pol\u00edtica: os bancos s\u00e3o protegidos por um sistema jur\u00eddico que reconhece sua for\u00e7a; os empres\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil s\u00e3o tratados como suspeitos permanentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa postura cria uma mensagem subliminar: o risco dos bancos \u00e9 leg\u00edtimo, o risco das construtoras \u00e9 \u201cdesculpa para roubo\u201d. Ao reproduzir esse discurso, a sociedade normaliza o lucro financeiro e criminaliza o lucro produtivo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A busca pela racionalidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A racionalidade, nesse contexto, n\u00e3o significa apenas n\u00fameros equilibrados, mas tamb\u00e9m justi\u00e7a no tratamento dado aos diferentes setores. Para que a atividade econ\u00f4mica seja saud\u00e1vel e \u00e9tica, \u00e9 preciso repensar alguns pontos centrais:<\/div>\n<div>\u2022Revis\u00e3o de tetos irreais \u2013 Margens fixas de 8% s\u00e3o incompat\u00edveis com a complexidade das obras p\u00fablicas. \u00c9 necess\u00e1rio criar par\u00e2metros flex\u00edveis que levem em conta riscos espec\u00edficos de cada projeto.<\/div>\n<div>\u2022Simetria regulat\u00f3ria \u2013 O mesmo Estado que aceita que bancos repassem riscos aos clientes deve permitir que construtoras precifiquem seus riscos de maneira realista.<\/div>\n<div>\u2022Fiscaliza\u00e7\u00e3o por resultado \u2013 Mais importante que vigiar margens \u00e9 avaliar se o que foi contratado foi entregue. O foco precisa ser no desempenho e na transpar\u00eancia, e n\u00e3o apenas em n\u00fameros fixos.<\/div>\n<div>\u2022Educa\u00e7\u00e3o para a transpar\u00eancia \u2013 \u00c9 fundamental mudar a percep\u00e7\u00e3o social de que lucro \u00e9 pecado. O lucro leg\u00edtimo \u00e9 a base da sustentabilidade do capitalismo. O inimigo n\u00e3o \u00e9 o lucro, mas o desvio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>At\u00e9 onde iremos?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A pergunta \u201cat\u00e9 onde iremos em busca da racionalidade?\u201d \u00e9, na verdade, um alerta. Se o sistema continuar punindo o lucro leg\u00edtimo e tolerando a extors\u00e3o financeira, estaremos sempre empurrando empres\u00e1rios, gestores e at\u00e9 cidad\u00e3os comuns para a irracionalidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Chegaremos a um ponto em que obedecer \u00e0 lei ser\u00e1 visto como imprud\u00eancia, e desobedec\u00ea-la, como necessidade. Isso \u00e9 corrosivo n\u00e3o apenas para a economia, mas tamb\u00e9m para a democracia. Uma sociedade que normaliza o il\u00edcito n\u00e3o pode esperar que seus l\u00edderes sejam \u00e9ticos; afinal, a base da pir\u00e2mide j\u00e1 foi contaminada pela l\u00f3gica da sobreviv\u00eancia a qualquer pre\u00e7o<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Brasil precisa escolher se quer continuar vivendo no paradoxo da racionalidade invertida ou se ter\u00e1 coragem de reformar as regras do jogo. Enquanto os bancos puderem cobrar juros extorsivos sem questionamento, e as construtoras forem punidas por buscar margens realistas, estaremos presos a um modelo que favorece o desvio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A racionalidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma equa\u00e7\u00e3o financeira: \u00e9 tamb\u00e9m a coer\u00eancia \u00e9tica de um sistema que precisa tratar com justi\u00e7a quem produz, quem empresta e quem fiscaliza. Sem essa coer\u00eancia, a racionalidade ser\u00e1 sempre uma ilus\u00e3o \u2014 e o caminho mais \u201cl\u00f3gico\u201d continuar\u00e1 sendo roubar ou superfaturar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O limite da irracionalidade j\u00e1 foi ultrapassado. A verdadeira quest\u00e3o agora \u00e9: teremos coragem de recuar e reconstruir um sistema que premie a honestidade, ou seguiremos naturalizando a corrup\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo de sobreviv\u00eancia?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><em><strong>RUI GUERRA<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Analista colaborador do Resumo Pol\u00edtica<\/strong><\/em><\/div>\n<div>\u201cas opini\u00f5es emitidas por nossos colaboradores, n\u00e3o refletem, necessariamente, a opini\u00e3o do site\u201d<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil vive um paradoxo que n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m moral e institucional. 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