Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), o Brasil aderiu explicitamente à linha geopolítica do ex-presidente Donald Trump, inclusive com esfriamentos simbólicos e diplomáticos com parceiros importantes como China sob o pretexto de alinhamento “ocidental”.
•Bolsonaro apoiou abertamente a reeleição de Trump em 2020, e resistiu por meses a reconhecer a vitória de Joe Biden.
•Essa postura fechou portas na Casa Branca após a posse de Biden, com cortes de cooperação ambiental, bloqueios técnicos em organismos multilaterais e congelamento de agendas bilaterais.
Esse foi o primeiro prejuízo estratégico: o Brasil perdeu protagonismo internacional justo no momento em que a Amazônia voltava ao centro da agenda climática global.
2. O governo Lula e o confronto com as big techs: STF e Estados Unidos em nova rota de colisão
Com a eleição de Lula e a volta da esquerda ao poder, esperava-se uma recomposição diplomática com os EUA sob Biden. E de fato, houve acenos mútuos em temas como meio ambiente, democracia e combate ao extremismo.
Mas um novo ruído surgiu quando Trump ganhou as eleições e assumiu o poder: as ações do STF, em especial de Alexandre de Moraes, contra as plataformas digitais americanas, como Google, X (Twitter), Meta e Telegram.
•O embate foi interpretado por parte do establishment americano — republicano — como um ataque à liberdade de expressão e aos interesses econômicos das big techs, que são hoje um dos maiores instrumentos de soft power dos EUA.
•A ameaça de responsabilizar judicialmente executivos, censurar conteúdos, aplicar sanções e bloquear redes sociais gerou protestos no Congresso americano, inclusive de Donald Trump Jr. e senadores republicanos, que passaram a usar o Brasil como exemplo de “ditadura digital”.
O resultado? Perda de credibilidade democrática, desconfiança de investidores internacionais em setores de tecnologia, e risco de retaliações diplomáticas e comerciais veladas — mesmo sem ruptura formal.
3. O prejuízo invisível: perda de oportunidades, capitais e protagonismo
Esse ziguezague político trouxe ao Brasil um prejuízo que não é facilmente mensurado em reais ou dólares, mas é profundo:
a) Perda de previsibilidade institucional
•Investidores globais, especialmente em setores estratégicos como energia, tecnologia e defesa, prezam por segurança jurídica, estabilidade e previsibilidade.
•O Brasil se mostrou volátil, ideologizado e suscetível a decisões monocráticas, tanto no Executivo quanto no Judiciário.
b) Isolamento estratégico
•Ao confrontar Biden depois Trump, o Brasil desperdiçou capital político com as duas alas da maior potência global — algo raro e preocupante.
c) Custo diplomático e reputacional
•O país deixou de ser “interlocutor confiável” no Sul Global e passou a ser visto como um território instável, onde a alternância de poder não preserva os interesses permanentes da nação.
Conclusão: um país de sorte… desperdiçada
De fato, somos um país de sorte: abundância de recursos, posição geográfica estratégica, diversidade cultural e estabilidade institucional relativa. Mas essa sorte vem sendo sistematicamente desperdiçada por uma elite dirigente que não distingue Estado de governo, interesse público de projeto político, nem soberania de revanche ideológica.
Nos últimos oito anos, o Brasil não teve política externa de Estado. Teve agendas circunstanciais de poder. E isso nos custou influência, investimento, liderança regional e — sobretudo — confiança.
Alinhamentos políticos à parte, Lula e Bolsonaro demonstraram não ser dotados de preparo suficiente para discernir governo de nação e muito menos entender de Geopolítica global e sua importância sobre a economia brasileira.
É hora de recuperar o senso de permanência na diplomacia e a racionalidade estratégica nas relações internacionais. O Brasil precisa voltar a dialogar com todos — e submeter seus litígios internos ao crivo da legalidade e da prudência, não do confronto.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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