1. Introdução
Ao longo da história, é possível observar um contraste marcante: algumas nações conseguem criar riqueza, estabilidade e qualidade de vida para sua população, enquanto outras permanecem presas à estagnação, à pobreza e a crises recorrentes.
A resposta não é simples — envolve fatores econômicos, políticos, sociais, culturais e até geográficos. Mas existe um conjunto de fundamentos que, quando bem aplicados, favorecem o sucesso, e, quando negligenciados, empurram países para o fracasso.
2. Fundamentos dos acertos
2.1. Instituições inclusivas e eficientes
Um dos pilares para a prosperidade é a existência de instituições políticas e econômicas inclusivas — aquelas que distribuem oportunidades, protegem direitos e incentivam a participação ampla da população na economia e na vida política.
Instituições sólidas garantem:
•Estado de direito (leis aplicadas igualmente a todos);
•Proteção à propriedade privada;
•Justiça independente;
•Regras claras para negócios e contratos.
Exemplo positivo:
•Noruega: combina democracia estável, sistema judicial independente e economia de mercado com políticas sociais abrangentes. Resultado: alto PIB per capita e baixos índices de corrupção.
2.2. Educação e capital humano
Investir na formação da população é essencial para gerar inovação, produtividade e capacidade de adaptação tecnológica.
Uma nação com cidadãos instruídos cria mão de obra qualificada, empreendedores e líderes preparados para tomar decisões complexas.
Exemplo positivo:
•Coreia do Sul: após a Guerra da Coreia (1950–1953), investiu pesadamente em educação básica e técnica. Hoje, é referência global em tecnologia e exportação de produtos de alto valor agregado.
2.3. Diversificação econômica e inovação
Depender de um único produto ou setor deixa a economia vulnerável a crises externas. Economias diversificadas resistem melhor a choques e oferecem mais oportunidades internas.
Exemplo positivo:
•Alemanha: combina indústria de ponta, serviços, agricultura moderna e tecnologia. Essa diversidade garante resiliência frente a crises globais.
2.4. Governança e combate à corrupção
Governos transparentes e responsáveis alocam recursos de forma eficiente, atraem investimentos e criam confiança interna e externa.
Exemplo positivo:
•Singapura: conhecida pela política de “tolerância zero” à corrupção, transformou-se, em poucas décadas, de um porto modesto em um dos centros financeiros e logísticos mais eficientes do mundo.
2.5. Infraestrutura e integração ao comércio global
Estradas, portos, energia estável, internet de qualidade — esses elementos reduzem custos, aumentam a competitividade e permitem que empresas locais alcancem mercados externos.
Exemplo positivo:
•Emirados Árabes Unidos: além do petróleo, investiram em logística, turismo e aviação, criando Dubai como hub internacional.
3. Fundamentos dos erros
3.1. Instituições extrativistas e instabilidade política
Quando o poder e a economia ficam concentrados em um pequeno grupo, surgem instituições extrativistas, que exploram recursos e população para benefício próprio.
Essa estrutura desestimula o investimento e a produtividade.
Exemplo negativo:
•República Democrática do Congo: rica em minerais, mas com instituições fracas, corrupção endêmica e violência, permanece com baixo desenvolvimento humano.
3.2. Corrupção sistêmica
A corrupção drena recursos, distorce prioridades e afasta investidores. Ela corrói a confiança na política e desvia fundos essenciais de áreas como educação e saúde.
Exemplo negativo:
•Venezuela: além de má gestão econômica e dependência extrema do petróleo, a corrupção em larga escala agravou a crise social e econômica.
3.3. Dependência excessiva de um recurso
A “doença holandesa” descreve o efeito de depender de um único recurso (como petróleo ou minerais), o que pode enfraquecer outros setores e tornar a economia vulnerável a oscilações de preço.
Exemplo negativo:
•Nigéria: grande produtora de petróleo, mas sem diversificação econômica significativa; enfrenta altos índices de pobreza e desemprego.
3.4. Educação negligenciada
Sem capital humano, a economia não inova e não se adapta a mudanças. A baixa escolaridade perpetua desigualdades e limita o crescimento.
Exemplo negativo:
•Haiti: além de desastres naturais e instabilidade política, enfrenta um déficit educacional crônico que dificulta qualquer avanço sustentável.
3.5. Isolamento econômico e políticas protecionistas extremas
Políticas que fecham a economia ao comércio e ao investimento estrangeiro reduzem a competitividade e limitam o acesso a tecnologia.
Exemplo negativo:
•Coreia do Norte: optou por isolamento e controle estatal extremo, resultando em economia estagnada e pobreza generalizada.
4. Lições cruzadas: o papel da escolha e do tempo
O sucesso ou fracasso de uma nação raramente é determinado apenas por sua geografia ou recursos naturais. Países com poucos recursos prosperaram por meio de boa governança (ex.: Japão, Singapura), enquanto outros ricos em recursos fracassaram por má gestão (ex.: Venezuela, Congo).
Além disso, decisões estratégicas levam tempo para mostrar resultados. Investir em educação hoje significa colher frutos em décadas. Reformar instituições exige persistência política e pressão social constante.
5. O fator cultural e social
A cultura influencia comportamentos econômicos e políticos:
•Valorização da meritocracia e inovação favorece ambientes competitivos e produtivos.
•Tolerância à corrupção e ao clientelismo perpetua sistemas ineficientes.
Exemplo de virada cultural:
•Chile (décadas de 1980–2000): reformas institucionais e políticas macroeconômicas consistentes criaram estabilidade que sustentou crescimento por décadas, apesar de desafios recentes.
6. Conclusão: prosperidade como construção coletiva
Prosperar é resultado de uma combinação de escolhas certas, instituições sólidas, visão de longo prazo e participação social.
Fracassar, por outro lado, é muitas vezes consequência de:
•Governos que governam apenas para uma base restrita;
•Instituições capturadas por interesses privados;
•Falta de planejamento e de investimento em pessoas.
A história mostra que é possível reverter trajetórias ruins — mas isso exige liderança comprometida com governar para todos e não apenas para quem já está próximo do poder.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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