A linha que separa o apoio legítimo de um político a um empresário e o apoio ilegítimo que alimenta a corrupção pode ser muito tênue. No plano abstrato, ela parece simples: apoio justo é aquele que busca corrigir distorções, evitar injustiças ou garantir a aplicação correta da lei; apoio injusto é aquele que concede privilégios indevidos, que cria exceções à margem da lei ou que instrumentaliza o Estado para beneficiar interesses particulares. Contudo, no dia a dia das relações entre economia e política, essa distinção exige atenção, pois os mesmos canais de acesso podem ser usados tanto para corrigir injustiças quanto para fomentar privilégios. É justamente nessa ambiguidade que a corrupção costuma nascer e se multiplicar.
O apoio justo: um recurso legítimo
É absolutamente natural que empresários, agricultores, trabalhadores ou qualquer cidadão procurem representantes políticos quando se sentem injustiçados ou ameaçados por uma decisão administrativa, tributária ou judicial. Esse movimento não é apenas legítimo, mas é também um dos pilares da democracia representativa: ter a quem recorrer quando o aparato burocrático se torna cego, lento ou arbitrário.
Exemplos desse apoio justo são abundantes:
•Pequenos agricultores que recorrem a deputados estaduais ou federais para impedir a desapropriação injusta de suas terras.
•Empresários de ramos inovadores que, por lacunas da legislação, não conseguem enquadrar seus produtos em categorias tributárias existentes e buscam, legitimamente, atualização legal.
•Comerciantes que sofrem com fiscalização arbitrária ou multas desproporcionais e pedem intervenção para que a lei seja aplicada com equilíbrio.
Nesses casos, o político atua como mediador entre Estado e sociedade, corrigindo falhas do sistema e garantindo que a legalidade prevaleça. O apoio é limitado pelo interesse público e pela aderência às regras democráticas.
O apoio injusto: terreno fértil da corrupção
O problema nasce quando esse acesso se converte em atalho para conquistas ilegítimas. Empresários que não conseguem competir de forma honesta recorrem a políticos não para corrigir injustiças, mas para obter vantagens que lhes permitam superar concorrentes de forma desleal. É nesse ponto que a ambição sem capacidade — a busca por resultados sem competência técnica, inovação ou esforço — se transforma em motor da corrupção.
Alguns exemplos históricos e contemporâneos ajudam a ilustrar:
1.As empreiteiras brasileiras e a Lava Jato
Muitas construtoras, incapazes de vencer concorrências públicas apenas pela eficiência e preço, recorreram ao pagamento de propinas para assegurar contratos bilionários com estatais. O apoio político não foi usado para corrigir injustiças, mas para burlar processos de licitação e garantir obras superfaturadas. A consequência foi a captura do Estado por interesses privados e um rombo gigantesco no orçamento público.
2.A indústria do tabaco nos EUA
Durante décadas, grandes fabricantes usaram sua influência política para travar regulamentações de saúde pública. Não buscavam apoio para manter justiça competitiva, mas para esconder riscos do cigarro e garantir lucros. Esse apoio injusto retardou políticas de saúde que salvariam milhões de vidas.
3.Subsídios agrícolas distorcidos na Europa e nos EUA
Em vários momentos, grandes corporações do agronegócio receberam subsídios vultosos destinados originalmente a pequenos agricultores. O apoio político, nesse caso, foi desvirtuado para concentrar benefícios em quem já possuía mais poder, criando desigualdades no mercado internacional e injustiças contra agricultores de países pobres.
4.O caso Enron (EUA)
A empresa de energia americana manipulou balanços e usou influência política para esconder fraudes contábeis. Muitos políticos fecharam os olhos diante de irregularidades em troca de financiamento eleitoral. O resultado foi a falência em 2001, que destruiu a poupança de milhares de famílias.
O político: mediador ou cúmplice?
A corrupção não nasce apenas da iniciativa de empresários. Ela também floresce em ambientes onde políticos percebem que podem capitalizar sua função pública em benefício próprio. Alguns se recusam a esse caminho e preservam sua integridade; outros constroem suas carreiras inteiras explorando as brechas e o lamaçal da promiscuidade entre público e privado.
•O político mediador: atua dentro da legalidade, limitando seu apoio a casos em que há interesse coletivo e respeito às regras. Sua credibilidade está ligada à coerência de suas ações, mesmo que isso signifique negar pedidos de empresários que buscam privilégios.
•O político cúmplice: usa o cargo para enriquecer, perpetuar-se no poder ou fortalecer redes de apoio, oferecendo proteção e benefícios a empresários que não têm competência ou mérito. É a engrenagem que transforma ambição em corrupção.
A diferença essencial: ética e capacidade
A diferença entre apoio justo e apoio injusto não está apenas no pedido feito ao político, mas sobretudo na intenção e na ética que o sustentam.
•O empresário capaz e ético busca o apoio para garantir que seu esforço não seja destruído por burocracia, concorrência desleal ou decisões arbitrárias.
•O empresário ambicioso sem capacidade busca o apoio para conseguir o que não poderia alcançar por mérito: contratos superfaturados, monopólios artificiais, perdão de dívidas milionárias ou blindagem contra investigações.
A corrupção nasce exatamente no momento em que a ambição sem capacidade encontra um político disposto a vender sua função pública.
Consequências do apoio injusto
O apoio injusto gera efeitos devastadores na economia e na política:
1.Desigualdade competitiva: empresas competentes perdem espaço para concorrentes que compram favores.
2.Erosão da confiança: cidadãos passam a acreditar que a política é apenas um mercado de favores, o que mina a legitimidade das instituições.
3.Custo social: recursos desviados da saúde, educação e infraestrutura são canalizados para benefícios privados.
4.Cultura de impunidade: quando políticos e empresários corruptos prosperam, cria-se o exemplo de que o crime compensa, incentivando novos agentes a repetir o ciclo.
Exemplos de apoio justo e transformador
Para não ficar apenas no lado negativo, vale citar casos em que o apoio político foi justo e contribuiu para o desenvolvimento:
•Políticas de microcrédito na Índia: líderes políticos deram suporte à criação de sistemas de financiamento para pequenos empreendedores, permitindo que milhões de pessoas saíssem da pobreza.
•Defesa de startups tecnológicas: em diversos países, parlamentares atuaram para simplificar burocracias e criar marcos legais que estimulam inovação, sem conceder privilégios a empresas específicas.
•Proteção de minorias econômicas: medidas para garantir espaço a cooperativas de trabalhadores e agricultores familiares, que não conseguiriam competir sozinhos contra grandes corporações, foram tomadas em vários países com base na ideia de justiça social e equilíbrio de mercado.
Esses exemplos mostram que apoio político não é sinônimo de corrupção: quando pautado pela ética e pela justiça, ele pode ser motor de desenvolvimento.
Conclusão
Apoio justo e apoio injusto caminham lado a lado na história política e econômica. O primeiro nasce da necessidade de corrigir falhas e garantir equidade; o segundo floresce da ambição sem capacidade, da pressa em vencer sem esforço e da cumplicidade de políticos que se alimentam do lamaçal.
A diferença está na ética, na transparência e no respeito às regras. Onde há respeito, nasce a justiça. Onde há cumplicidade, nasce a corrupção. O desafio permanente das sociedades é fortalecer instituições que separem claramente esses caminhos e punam aqueles que insistem em confundir o apoio legítimo com o privilégio corrupto.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”