Introdução: a solenidade inesperada.
Neste dia 13 de outubro de 2025, a cidade de Sharm el-Sheikh no Egito, foi palco de uma cena que poucos acreditavam ser possível: líderes mundiais reunidos em torno de uma mesa para assinar o cessar-fogo na Faixa de Gaza. O gesto encerrou — ainda que de forma provisória — um ciclo de violência que se arrastava havia três anos, marcado por deslocamentos em massa, destruição e impasses diplomáticos. O acontecimento, avalizado pela presença de figuras centrais da política global, foi celebrado como um triunfo inesperado da diplomacia e, paradoxalmente, como a maior conquista internacional do presidente Donald Trump em seu segundo mandato.
Trump e suas contradições no Oriente Médio.
A trajetória de Trump em relação ao Oriente Médio sempre foi marcada por ambiguidades. De um lado, ele reforçou o apoio incondicional a Israel, inclusive autorizando operações conjuntas contra o Hamas e, em momentos mais tensos, contra estruturas militares iranianas ligadas ao grupo. De outro, surpreendeu ao condenar ataques excessivos de Israel, como o episódio do bombardeio ao Catar, que se posicionava como mediador do processo de paz.
Essa contradição fez com que analistas internacionais classificassem sua estratégia como errática e de difícil leitura. No entanto, é justamente dessa ambivalência que emergiu a possibilidade de consenso: ao mesmo tempo em que era visto como aliado fiel de Israel, Trump manteve canais de negociação abertos com líderes árabes, sobretudo com Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que desempenharam papel crucial no acordo final.
A solenidade de Sharm el-Sheikh e o simbolismo da assinatura.
A assinatura do cessar-fogo não foi um ato burocrático, mas uma encenação política carregada de símbolos. A escolha do Egito como palco do acordo tinha peso duplo: reafirmava o peso do apoio de nações muçulmanas e a influência do Egito sobre as lideranças do Hamas fortalecendo a narrativa da vitória diplomática de Trump.
Na cerimônia, representantes da ONU, da União Europeia, dos Estados Unidos, de países árabes colocaram suas assinaturas no documento que estabeleceu:
•o fim das operações militares em Gaza;
•a abertura imediata de corredores humanitários;
•a liberação gradual de reféns sob supervisão internacional;
•e a criação de um comitê de monitoramento liderado por países neutros e pelo Conselho de Segurança da ONU.
As imagens da solenidade, transmitidas em tempo real para todo o planeta, reforçaram o caráter histórico do momento: líderes que até então se enfrentavam no campo diplomático, reunidos para chancelar a paz.
O peso humanitário do acordo.
Mais do que uma vitória política, o cessar-fogo tem impacto imediato sobre a vida de milhões de palestinos. Nos últimos três anos, a Faixa de Gaza foi palco de deslocamentos massivos, fome e falta de infraestrutura básica. Hospitais colapsaram, escolas foram destruídas e bairros inteiros desapareceram sob os bombardeios.
O acordo permite a entrada de comboios humanitários, medicamentos, alimentos e água potável em escala inédita. Além disso, cria condições mínimas para que organismos internacionais atuem no processo de reconstrução. Para a comunidade internacional, esse ponto é talvez o mais relevante: a diplomacia só se sustenta se houver efeito visível sobre a vida da população civil.
Os riscos do fracasso.
Nenhum cessar-fogo em Gaza pode ser considerado definitivo. A história da região é marcada por trégua seguidas de novas ondas de violência. O atual acordo não elimina as causas profundas do conflito — a disputa territorial, a situação dos refugiados e a questão de Jerusalém permanecem sem solução.
Por isso, especialistas alertam: a fragilidade do entendimento é grande, e qualquer violação pode reacender a espiral de ataques. O comitê de monitoramento terá o desafio de manter a confiança entre as partes e de reagir com rapidez a potenciais descumprimentos. O risco é que o gesto histórico se dissolva em poucos meses, se não houver comprometimento real.
A vitória política de Trump.
Apesar das incertezas, não há como negar que Trump colhe um triunfo político extraordinário. Ao longo de sua carreira, foi frequentemente acusado de agir de forma intempestiva e de minar o multilateralismo. Hoje, ironicamente, é visto como protagonista de uma articulação global que uniu potências ocidentais, países árabes e Israel em torno de um mesmo objetivo.
O simbolismo é poderoso: um presidente que parecia incapaz de construir pontes diplomáticas se apresenta agora como arquiteto de um dos mais ambiciosos acordos de paz do século XXI. A solenidade em Jerusalém é, ao mesmo tempo, um troféu pessoal e um ativo político que poderá marcar sua trajetória histórica.
O futuro do Oriente Médio.
O cessar-fogo abre uma nova página, mas não encerra o livro. A reconstrução de Gaza exigirá bilhões de dólares e forte engajamento internacional. A retomada de negociações mais amplas — que envolvam a solução de dois Estados, a redefinição de fronteiras e garantias de segurança — será inevitável se a paz quiser se transformar em estabilidade duradoura.
Nesse cenário, o papel dos EUA será decisivo. Trump, apesar de suas contradições, terá de manter coerência para não minar o próprio sucesso. Do lado árabe, há expectativa de que o acordo abra caminho para uma aproximação mais sólida entre Israel e seus vizinhos, consolidando o que alguns já chamam de “novo paradigma de convivência”.
Conclusão: entre a desconfiança e a esperança.
A assinatura do cessar-fogo em Jerusalém é um marco histórico, mas não uma linha de chegada. É um ponto de inflexão que pode determinar se o Oriente Médio continuará prisioneiro de um ciclo de guerras ou se entrará, finalmente, em uma fase de reconstrução.
Para Trump, o evento simboliza a conquista que poucos acreditavam ser possível: transformar uma trajetória política repleta de contradições em um gesto capaz de unificar líderes mundiais em torno da paz. Para o mundo, representa uma oportunidade rara de virar a página de uma tragédia humanitária que já parecia interminável.
Se será o início de uma era de estabilidade ou apenas uma trégua temporária, só o tempo dirá. O certo é que, ao menos por um instante, Jerusalém voltou a ser palco da esperança — e a difícil trajetória de Trump ganhou um capítulo inesperadamente luminoso.