Ainda que o jornalista Otávio Guedes, da Globo News e o ministro Haddad insistam em criticar e minimizar a corajosa ação do governador Cláudio Castro, é indiscutível que sua iniciativa merece reconhecimento. Pela primeira vez em muito tempo, o governo estadual demonstrou determinação em assumir o papel que lhe cabe: enfrentar o banditismo que há décadas impõe medo, humilhação e insegurança à população do Rio de Janeiro.
A decisão política.
O que diferencia essa operação das inúmeras tentativas anteriores é a decisão política de não se render ao “cálculo da conveniência”. Em outras ocasiões, operações foram anunciadas de forma ruidosa, permitindo que criminosos fossem avisados e escapassem, deixando a polícia apenas com a sensação de ter “cumprido tabela”. Cláudio Castro, ao contrário, optou pela estratégia: manteve o sigilo, centralizou as informações e evitou qualquer contato com o governo federal que pudesse representar risco de vazamentos.
Nesse ponto, a medida foi absolutamente compreensível. Não se trata de um gesto de enfrentamento institucional, mas de prudência diante da realidade: em operações de alto impacto, qualquer alerta antecipado poderia significar armadilhas contra policiais, comprometendo não apenas a eficácia da ação, mas a vida de homens e mulheres que arriscam diariamente a própria segurança em nome do Estado.
O balanço da operação.
Os números divulgados pelos secretários de Estado falam por si: 128 criminosos foram mortos, 113 chefes do tráfico presos e 121 fuzis apreendidos — um golpe contundente contra as facções que se beneficiavam da conivência e da omissão de décadas. O preço pago foi alto, com a perda de 4 policiais, o que reforça o grau de risco e o nível de enfrentamento.
Esses dados não apenas revelam a dimensão da operação, mas também comprovam que ela não foi simbólica, tampouco “teatral”: atingiu o núcleo do comando criminoso, retirando do front lideranças e armas pesadas. Em qualquer país sério, esse resultado seria celebrado como vitória estratégica do Estado sobre o crime.
O contraste com a retórica crítica.
O incômodo de parte da imprensa, em especial de comentaristas como Otávio Guedes, não é novidade. Há uma resistência histórica em reconhecer que o enfrentamento direto ao crime é, em determinadas circunstâncias, inevitável. A crítica recai, muitas vezes, sobre a “forma” da operação, minimizando o resultado alcançado e deslocando a narrativa para o campo político, como se a criminalidade fosse um problema a ser resolvido apenas com discursos e diagnósticos.
Contudo, o balanço final da operação mostrou que o governo do Rio decidiu agir com firmeza. E é justamente isso que incomoda setores que, acostumados a ver o Estado acuado, estranham quando este toma a iniciativa de recuperar território e autoridade.
Um histórico de omissões.
Para compreender a dimensão desse gesto, é preciso lembrar a trajetória de hesitações que marcaram os governos fluminenses. Nos anos 1980, a gestão de Leonel Brizola ficou marcada pela recusa em apoiar operações policiais em favelas, sob o argumento de evitar confrontos e proteger a população. Na prática, essa omissão abriu espaço para que o tráfico consolidasse seu poder territorial.
Na década seguinte, sob governadores como Garotinho e Rosinha, a política oscilou entre operações espetaculares e acordos velados, sem continuidade ou resultados duradouros. Mais tarde, o governo Sérgio Cabral tentou o modelo das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), inicialmente bem-sucedido, mas que se desgastou pela falta de apoio social e pela corrupção que corroeu a credibilidade do projeto.
Já Wilson Witzel, em 2019, adotou um discurso de enfrentamento radical, mas sua gestão foi interrompida por denúncias de corrupção e pela falta de um plano consistente. Assim, a população do Rio acostumou-se a ver o Estado oscilar entre a omissão complacente e o espetáculo sem continuidade.
É nesse contexto que a operação de Cláudio Castro se diferencia: pelo impacto dos resultados e pelo sigilo estratégico que evitou a previsível frustração de iniciativas anteriores.
A defesa da cidadania carioca.
Mais do que números, armas apreendidas ou criminosos neutralizados, a mensagem central dessa operação é simbólica: o poder público não pode continuar refém do crime organizado. A cidadania carioca, tantas vezes esquecida, precisa sentir que o Estado ainda é capaz de defendê-la.
Os moradores das comunidades dominadas pelo tráfico e pelas milícias não pedem discursos sofisticados nem promessas de longo prazo. Pedem o básico: o direito de viver sem medo, de ir e vir sem atravessar barricadas ilegais, de não se tornarem escudos humanos entre quadrilhas rivais e operações policiais.
Quando a população vê chefes do tráfico sendo presos, armas de guerra apreendidas e o Estado retomando a iniciativa, renasce a esperança de que a lei ainda pode prevalecer.
O preço da omissão.
É preciso frisar que o banditismo carioca não cresceu apenas pela força das armas, mas sobretudo pelo abandono histórico do poder público. Cada vez que o Estado recuou, o crime avançou. Cada vez que a lei foi relativizada, o tráfico e a milícia preencheram o vácuo.
Não por acaso, o Rio de Janeiro se transformou em vitrine mundial do crime organizado: facções controlam territórios, impõem regras próprias, cobram taxas ilegais e transformam cidadãos em reféns. A cada ano, vidas se perdem, empresas desistem de investir e a economia fluminense afunda um pouco mais.
Essa situação não é obra do acaso, mas de escolhas políticas: a escolha da omissão, da conveniência e do improviso.
Desafio de permanência.
Entretanto, a história do Rio mostra que ações isoladas, por mais corajosas que sejam, não bastam. O grande desafio é transformar gestos de enfrentamento em políticas permanentes de segurança, combinando inteligência policial, repressão qualificada e políticas sociais que retomem o espaço deixado pelo Estado.
Enfrentar a criminalidade exige não apenas operações pontuais, mas uma política integrada de segurança que articule:
•investimento em tecnologia e inteligência para mapear rotas de armas e drogas;
•cooperação federativa, sem partidarização, para controlar fronteiras e portos;
•políticas sociais de longo prazo que quebrem o ciclo de recrutamento de jovens pelo crime;
•reforma das polícias, valorizando o policial de base e reduzindo a corrupção que corrói a legitimidade da instituição.
Só assim será possível evitar que o sucesso de hoje seja apenas um episódio isolado, engolido amanhã pela rotina da violência.
Conclusão: coragem que não pode parar.
A operação de Cláudio Castro deve ser reconhecida como um marco de coragem em meio a anos de hesitação. As críticas midiáticas podem até relativizar a iniciativa, mas os fatos falam por si: 110 criminosos mortos, 91 líderes do tráfico presos, 94 fuzis apreendidos e a perda dolorosa de 4 policiais. Foi um passo importante para devolver ao Estado a autoridade sobre o território e à população o direito à cidadania.
A dúvida que permanece é se essa coragem será capaz de se transformar em política permanente, rompendo o ciclo de omissões e hesitações que alimentou o banditismo carioca por décadas. Se for apenas um gesto isolado, cairá no esquecimento como tantos outros. Mas se for o início de uma mudança estrutural, poderá representar a virada histórica que o Rio de Janeiro tanto espera.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”