Durante séculos, a imagem do general foi forjada no calor das batalhas: homens rudes, de voz grave, cobertos de poeira, comandando tropas de infantaria — essa tropa composta por “infantes”, jovens quase crianças sacrificadas em nome de causas maiores do que a própria vida. As guerras eram brutais, sangrentas, decididas pelo choque de corpos. A valentia era medida pelo avanço contra a morte. Os generais eram monumentos ambulantes de coragem física, e a força era o idioma universal da vitória.
Mas o mundo mudou — e as guerras mudaram com ele.
Hoje, um general que repita a lógica do passado está condenado ao fracasso. O campo de batalha deixou de ser um território de músculos e passou a ser um território de chips, códigos, satélites e drones. Os soldados não empunham apenas fuzis; operam algoritmos. As batalhas não são travadas com baionetas, mas com geolocalização, criptografia, guerra cibernética e inteligência artificial.
Quando o alvo passa a ser a máquina e não o homem, o general precisa abandonar o coração inflamado e assumir a mente disciplinada. Não há mais lugar para bravatas de peito aberto. Há lugar para quem entende matemática, física, engenharia, meteorologia, sistemas complexos e geopolítica. O novo general é quase um cientista.
E isso tem consequências profundas.
A primeira é evidente:
as emoções deixaram de comandar o campo de batalha.
No lugar da fúria heroica, entrou a lógica fria; no lugar da fantasia da glória, entrou a estatística dos riscos; no lugar da espada, entrou o código binário.
A segunda consequência é sociológica:
o general moderno se tornou mais parecido com o civil moderno. Ambos vivem em sociedades que priorizam estabilidade, renda, saúde, bem-estar, liberdade e paz. A tecnologia nivelou expectativas e comportamentos. Onde antes havia heróis dispostos à imolação, hoje há profissionais preocupados com carreira, reputação, família e sobrevivência institucional.
Esse contraste ficou evidente no julgamento que investiga a atuação de autoridades militares diante das críticas ao pleito presidencial e dos atos de 8 de janeiro. Aquele imaginário que o brasileiro cultivou, de generais indomáveis, altivos, de sobrancelha dura e punho firme, não se confirmou. Em vez de titãs da guerra, surgiram homens comuns, preocupados com seus cargos, suas biografias, sua liberdade e — muito claramente — seus próprios umbigos.
Nada de feras indomáveis.
Nada de heróis mitológicos.
A imagem que emergiu é a da banalidade burocrática: oficiais tensos, calculistas, submissos ao medo do futuro, distantes do imaginário romântico que parte da sociedade insistiu em projetar.
E isso não significa covardia.
Significa mudança histórica.
Os exércitos passaram a refletir a lógica da vida civil:
quanto mais se vive em paz, mais se busca a paz;
quanto mais se vive em instituições, mais se teme o caos;
quanto mais se vive da técnica, menos se aceita a aventura.
A humanidade, quando contrariada, ainda tenta recorrer ao mito primitivo da força. No desespero, procura salvação onde antes a encontrou:
primeiro em Deus,
depois nos generais,
e mais recentemente na Justiça.
Mas a sociedade que aprende ciência, que domina tecnologia e que convive com instituições maduras vai, pouco a pouco, racionalizando seus julgamentos. O impulso dá lugar à regra. A fúria dá lugar ao processo. A espada dá lugar ao parecer.
Essa transição explica a sensação de frustração de parte da população que esperava algo épico, medieval, cinematográfico — como se generais ainda fossem guerreiros de músculos tensos, capazes de decidir o destino da nação num ato teatral. Não são. Hoje, seus limites são constitucionais, suas preocupações são jurídicas, seus riscos são pessoais. São servidores do Estado, não heróis do passado.
O mundo que idolatrava figuras militares como solução absoluta está desaparecendo.
E no vazio deixado por esse declínio, outra instituição cresce: o Judiciário.
É para lá que a sociedade transfere hoje seu último pedido de salvação. Não se pede mais ao general que guie a nação, mas sim ao ministro que a interprete. O “julgador final” — essa figura simbólica que a humanidade sempre buscou — mudou de endereço. Saiu dos templos religiosos, passou pelos quartéis, e agora vive na Praça dos Três Poderes, em gabinete numerado, rodeado de assessores, servidores e jurisprudências.
Não se trata de comemorar nem de lamentar. Trata-se de reconhecer:
o poder moral da força cedeu lugar ao poder institucional da lei.
E a lei, por sua vez, passou a ser tratada como último remédio, último recurso, último porto seguro. Se isso é bom ou ruim é tema para outro ensaio. O importante aqui é notar que esse deslocamento não é brasileiro — é global. Democracias consolidadas e instáveis compartilham essa tendência: o juiz assumiu o espaço simbólico que um dia pertenceu ao general.
No Brasil, essa mudança é ainda mais evidente porque nossa cultura política sempre alternou entre o desejo de ordem e o desejo de rebeldia. O país que venera a liberdade também suspira pela figura do “homem forte”. Agora, esse homem forte usa toga, não farda.
Os generais — antes vistos como gigantes — se tornaram reflexos da sociedade que os produz. Uma sociedade que valoriza conforto, consumo, estabilidade e rotina. Que teme o caos porque finalmente experimentou a vida que existe fora dele.
E assim se explica a docilidade surpreendente dos novos generais: eles não são mais guardiões da guerra, são gestores da paz. Não vivem mais para o sacrifício; vivem para a carreira. Não avançam mais encarando tiros; recuam encarando inquéritos.
É a vitória da racionalidade sobre a bravura, da técnica sobre a coragem física, da burocracia sobre o heroísmo. Para alguns, uma decadência; para outros, a maturidade de um país.
No fim, resta a constatação:
as guerras mudaram, e os generais mudaram com elas.
O mundo não precisa mais de heróis épicos, mas de administradores disciplinados. E o Brasil, com todas as suas contradições, finalmente percebeu que a força não habita mais os quartéis. Habita o processo. Habita a norma. Habita a toga.
O julgador final, esse mito ancestral, mudou de endereço.
Saiu dos quartéis.
Saiu dos altares.
E foi morar, definitivamente, no coração jurídico da República —
na mesma praça, no mesmo eixo, mas em porta diferente do Palácio do Planalto.
Analista colaborador do Resumo Política







