Há uma distorção grave no debate político contemporâneo: a ideia de que o Centro seria um espaço confortável, morno, pragmático e desprovido de exigências morais. Nada poderia ser mais falso. O verdadeiro centro não é abrigo para covardes, nem refúgio para oportunistas. O Centro é o lugar mais difícil da política, porque exige aquilo que as extremas dispensam com facilidade: intelectualidade, conteúdo, equilíbrio e moral. Fora disso, não há centralidade — há apenas disfarce.
Os extremos, à esquerda e à direita, compartilham mais semelhanças do que admitem. Ambos partem de uma convicção perigosa: a de que os fins justificam os meios. Quando essa lógica se instala, a ética vira obstáculo, a lei vira instrumento e a corrupção vira método. O gatuno ideológico não se percebe como criminoso; ele se vê como agente histórico. Rouba, mente ou manipula em nome de uma causa que considera superior. É assim que a imoralidade se veste de virtude.
Mas se os extremos assumidos são ruidosos e visíveis, o fenômeno mais corrosivo da política moderna é outro: os extremos disfarçados de centro. São aqueles que se apresentam como moderados, técnicos, responsáveis ou “equilibrados”, mas participam ativamente de esquemas de corrupção, troca de favores, captura do Estado e autopreservação. Trocam o discurso inflado por linguagem burocrática, mas o desprezo pela ética é o mesmo. O crime é idêntico; muda apenas o figurino.
Esses falsos centristas não defendem equilíbrio; defendem impunidade. Não buscam neutralidade; buscam sobrevivência política. Vivem do cálculo permanente, do silêncio cúmplice, do voto envergonhado e da negociação subterrânea. São extremos sem coragem discursiva, mas com igual disposição para violar princípios quando isso lhes garante vantagens. Ao se esconderem no centro, contaminam o próprio conceito de centralidade.
É precisamente aqui que se impõe a distinção essencial. O Centro exige intelectualidade, conteúdo, equilíbrio e moral. Fora disso não há centralidade. Quem não domina ideias, quem não sustenta argumentos, quem não aceita limites éticos não está no centro — está apenas ocupando um espaço intermediário por conveniência. Centralidade não é posição geográfica no espectro político; é postura intelectual e moral.
Intelectualidade significa compreender a complexidade da realidade, resistir a slogans fáceis e rejeitar explicações simplistas. O centro verdadeiro não se satisfaz com respostas prontas, nem com narrativas maniqueístas. Ele exige estudo, comparação, memória histórica e capacidade de revisão. Onde falta intelectualidade, sobra dogma. E dogma é matéria-prima das extremas.
Conteúdo é a consequência natural da intelectualidade. O centro não vive de frases de efeito, nem de indignações performáticas. Vive de propostas, diagnósticos, dados e coerência. Quem não tem conteúdo apela para o barulho ou para o conchavo. Ambos são atalhos. O centro, ao contrário, exige substância — e substância cobra tempo, preparo e responsabilidade.
Equilíbrio, por sua vez, não é indecisão. É autocontenção. É a capacidade de ponderar custos e consequências, de reconhecer limites institucionais e de aceitar que nem toda vontade pode virar política pública. O equilíbrio incomoda porque frustra impulsos. Enquanto os extremos se alimentam de emoções, o centro exige razão. E razão, quase sempre, desagrada aos militantes de certezas absolutas.
Por fim, a moral. Sem ela, todo o resto desmorona. O centro autêntico é aquele que reconhece que os meios importam tanto quanto os fins. Não há causa que absolva o roubo, não há urgência que justifique a fraude, não há projeto que legitime a corrupção. Onde a moral é relativizada, a política degenera em técnica de poder. E isso vale tanto para os extremos quanto para seus disfarces centristas.
A honra é a expressão prática dessa moral. Honra não é retórica, nem autopromoção. É coerência entre discurso e ação, inclusive quando isso custa poder, votos ou cargos. Os extremos desprezam a honra porque ela limita. Os falsos centristas fingem respeitá-la, mas a negociam nos bastidores. O centro verdadeiro a coloca como condição de permanência no jogo político.
Por isso, o centro não é confortável. Ele não oferece álibis prontos, nem justificativas fáceis. Não permite terceirizar a culpa ao “sistema”, ao “outro lado” ou às “circunstâncias”. Exige responsabilidade individual. Exige dizer não quando todos dizem sim. Exige perder quando vencer implicaria violar princípios. É muito mais fácil ser extremista — ou centrista de fachada — do que sustentar o peso do centro autêntico.
Em sociedades fragilizadas, o centro tende a ser atacado por todos os lados. Os extremos o acusam de tibieza; os oportunistas tentam capturá-lo. Ainda assim, ele permanece essencial. É no centro que as instituições encontram previsibilidade, que a lei mantém sua função civilizatória e que o poder reconhece seus limites.
Quando o centro é ocupado por corruptos disfarçados, o dano é profundo. A população passa a associar moderação à hipocrisia, equilíbrio à omissão e neutralidade à covardia. Abre-se espaço para a radicalização, porque os cidadãos concluem que “todos são iguais”. Essa é a vitória silenciosa dos extremos: destruir a credibilidade do centro por dentro.
Resgatar o centro, portanto, não é tarefa de marketing político. É tarefa intelectual e moral. Exige expulsar os disfarces, denunciar os oportunistas e restabelecer critérios claros. Centro não é posição intermediária entre crimes opostos. Centro é linha de contenção ética.
Em última instância, a política só se humaniza quando aceita limites. E limites não vêm das extremas, nem do pragmatismo corrupto. Vêm do centro autêntico, aquele que sustenta que sem honra não há política, sem intelectualidade não há decisão, sem conteúdo não há governo e sem moral não há República.
Fora disso, tudo o que se chama de centro é apenas conveniência temporária — e conveniência, na história, sempre acaba se aliando ao pior lado disponível.
Analista colaborador do Resumo Política







