Quando a omissão política substitui a engenharia, a indenização vira política pública e o futuro é adiado.
O desastre das minas de sal-gema em Maceió não produziu apenas um colapso geológico localizado. Ele expôs algo mais profundo e estrutural: a incapacidade crônica do Brasil — e de Alagoas em particular — de enfrentar problemas complexos com racionalidade técnica, liderança política e visão estratégica de longo prazo. Diante de um desafio de engenharia, optou-se pelo silêncio; diante de um ativo econômico estratégico, escolheu-se a paralisia; diante de uma oportunidade histórica, preferiu-se a omissão.
Essa escolha não foi neutra. Ela custou caro — e continua custando.
O sal-gema segue sendo essencial à cadeia produtiva da indústria química. A diferença é que hoje Alagoas importa aquilo que sempre teve em abundância, encarecendo custos, fragilizando a competitividade industrial e esvaziando o sentido econômico do mais bem estruturado distrito industrial do Nordeste. Não se resolveu plenamente o problema urbano de Maceió, não se preservou a riqueza mineral e não se construiu alternativa produtiva equivalente. Perdeu-se em todas as frentes.
Engenharia não é ausência de risco; é gestão do risco.
Não existe empreendimento industrial relevante sem risco. O que distingue sociedades maduras de sociedades paralisadas não é a inexistência do risco, mas a capacidade institucional de medi-lo, controlá-lo e administrá-lo com responsabilidade técnica, transparência e decisão política. A engenharia moderna opera exatamente nesse campo: modelagem geológica avançada, monitoramento contínuo, sensores sísmicos, redundância estrutural, técnicas de contenção, reforço de cavidades, reassentamentos planejados e fiscalização permanente.
Minas subterrâneas operam sob cidades no Canadá, na Alemanha e no Reino Unido. Petróleo é extraído em lâminas d’água extremas. Túneis atravessam áreas urbanas densamente povoadas. Barragens são erguidas em regiões de instabilidade geológica. Nada disso ocorre sem risco — mas ocorre com método, engenharia e liderança.
Em Maceió, porém, a escolha política foi outra. Preferimos nos conformar com indenizações públicas bilionárias , diretas ou indiretas — em vez de buscar uma solução de engenharia que devolvesse tranquilidade à população e garantisse a continuidade da geração de riqueza. Optou-se por administrar consequências financeiras, e não por resolver a causa técnica. Socializou-se o prejuízo, destruiu-se valor produtivo e interditou-se o debate técnico como se ele fosse moralmente inconveniente.
Essa decisão revela um traço profundo do atraso nacional: a substituição da engenharia pelo cheque, do projeto pelo litígio, da solução estrutural pela compensação permanente. Indenizações aliviam dores individuais — e são necessárias —, mas não constroem futuro coletivo. Elas encerram o problema politicamente, mas o mantêm vivo economicamente.
O ambientalismo da omissão.
A defesa do meio ambiente é um imperativo civilizatório. Mas quando o discurso ambiental se divorcia da engenharia e da ciência aplicada, ele deixa de ser proteção e passa a ser instrumento de imobilismo. Preservar não é abandonar. Proteger não é fingir que o problema não existe.
Ao não enfrentar o tema do sal-gema com soluções técnicas robustas, criou-se uma falsa dicotomia: ou exploração irresponsável, ou paralisação absoluta. Essa é uma falácia. A única via madura sempre foi a engenharia de alto nível sob controle público rigoroso. O silêncio não salvou Maceió. Apenas transferiu o problema no tempo e destruiu uma vantagem competitiva estratégica.
O contraste chinês: engenharia como política de Estado.
O paralelo com a China é incômodo porque desmonta nossas justificativas. A China também enfrenta riscos ambientais, geológicos e sociais gigantescos. A diferença é que não transforma risco em álibi para a inação. Transforma-o em variável de projeto.
Para explorar terras raras, o país removeu montanhas, reorganizou territórios, deslocou populações, enfrentou resistências internas e pagou compensações — sem jamais abandonar o objetivo estratégico. O centro da decisão não foi a indenização como fim, mas a engenharia como meio. O resultado foi a construção de uma cadeia produtiva completa: da extração ao produto final de alto valor agregado — superímãs, baterias, motores elétricos, painéis fotovoltaicos, turbinas eólicas, eletrônica de precisão e, agora, inteligência artificial.
A China indeniza quando necessário, mas não se refugia na indenização. Preserva o projeto nacional de desenvolvimento. Por isso, converteu recursos naturais em domínio tecnológico e domínio tecnológico em poder econômico global.
A armadilha das commodities e o salário mínimo estrutural.
O episódio do sal-gema não é exceção. Ele integra um padrão nacional: a opção política por produzir commodities baratas, incapazes de sustentar salários elevados, inovação tecnológica e custo de capital realista. Produtos de baixo valor agregado não suportam juros de mercado. Por isso exigem subsídios permanentes, crédito direcionado e proteção estatal contínua.
Esse modelo gera empregos, mas empregos de baixa renda, que alimentam ciclos de dependência fiscal e política. É um capitalismo de sobrevivência, não de transformação. Exporta matéria-prima, importa tecnologia e paga a diferença com juros e submissão estratégica.
A oportunidade ignorada: inteligência artificial.
O paradoxo atual é evidente. O mundo vive uma corrida pela instalação de Data Centers de Inteligência Artificial, estruturas intensivas em capital, energia, engenharia e estabilidade institucional. O Brasil não possui um grande data center de IA de classe mundial.
Alagoas dispõe de um polo industrial moderno, infraestrutura pronta, energia, localização estratégica e gestão privada eficiente. Ainda assim, não se vê governador, ministro, bancada federal ou agência pública atuando de forma estruturada para atrair esse capital internacional. A IA não nasce do código. Nasce da infraestrutura econômica pesada. Onde não há projeto, o capital não chega.
O fio condutor do fracasso: ausência de liderança.
O que conecta a paralisia do sal-gema, a cultura da indenização, a dependência de commodities e a ausência de projetos de IA é claro: a ausência de lideranças capazes de pensar como estadistas e agir como engenheiros do futuro. Liderança não é discurso. É assumir riscos calculados, bancar decisões técnicas, enfrentar ruídos ideológicos e proteger o interesse coletivo de longo prazo.
O maior afundamento de Alagoas não foi geológico. Foi o afundamento da ambição.
Enquanto algumas nações transformam risco em inovação, nós transformamos risco em litígio. Enquanto constroem cadeias tecnológicas, nós administramos passivos. Enquanto enfrentam o futuro, nós o indenizamos.
A síndrome do cachorro vira-lata, aplicada às riquezas minerais e às oportunidades tecnológicas, não é cultural. É política. E como toda escolha política, pode ser revertida — desde que se substitua o medo pelo projeto, o silêncio pela engenharia e a omissão pela decisão.
Analista colaborador do Resumo Política







