Poucos jogos conseguem alterar o humor de um país apaixonado por futebol. A vitória convincente do Brasil por 3 a 0 sobre a Escócia produziu exatamente esse efeito. Mais do que os três gols ou a liderança do grupo, a partida transmitiu uma sensação que há muito tempo não acompanhava a Seleção Brasileira: a de que existe um projeto coletivo em construção.
Durante anos, o Brasil acostumou-se a confiar excessivamente no talento individual. A expectativa era de que Vinícius Júnior, Neymar, Rodrygo ou qualquer outro craque resolvesse partidas por inspiração. Carlo Ancelotti parece estar propondo uma lógica diferente. Os talentos continuam sendo decisivos, mas agora inseridos em um sistema que potencializa suas qualidades e reduz suas fragilidades.
Essa talvez seja sua maior contribuição até o momento.
Ancelotti chegou cercado de expectativas não apenas por seu currículo, mas pela capacidade demonstrada ao longo da carreira de organizar equipes repletas de estrelas sem sufocar sua criatividade. Em clubes como Milan, Chelsea, PSG, Real Madrid e Bayern de Munique, mostrou que disciplina tática e liberdade técnica não são conceitos opostos. Ao contrário, complementam-se.
Na Seleção Brasileira, essa filosofia começa a aparecer.
O time mostrou uma organização que há muito tempo não se via. Quando perdia a bola, todos sabiam onde pressionar. Quando recuperava a posse, havia movimentação constante para oferecer linhas de passe. O meio-campo deixou de ser apenas um setor de ligação e passou a comandar o ritmo da partida.
O desempenho coletivo foi, talvez, mais importante que o placar.
Casemiro voltou a exercer o papel de referência defensiva, protegendo a defesa e permitindo que Bruno Guimarães e Lucas Paquetá circulassem com maior liberdade. O losango no meio-campo aproximou os jogadores, facilitou a troca de passes e reduziu os espaços para a marcação adversária.
Na frente, Matheus Cunha desempenhou uma função pouco perceptível para quem observa apenas os gols. Atuando como falso 9, recuou diversas vezes para atrair os zagueiros e abrir corredores para Vinícius Júnior. Os dois gols do atacante do Real Madrid nasceram justamente dessa movimentação coletiva.
Não foi um espetáculo individual.
Foi uma demonstração de futebol organizado.
Outro aspecto chamou atenção: a pressão sobre a saída de bola da Escócia: bloqueio da linha de passe e abertura para armadilha.
Durante muitos anos, o futebol brasileiro priorizou a recuperação da bola por meio da habilidade individual dos defensores. Hoje, a lógica mudou. A equipe pressiona em bloco, fecha as linhas de passe e conduz o adversário para regiões previamente planejadas.
Essa é uma das maiores revoluções do futebol moderno.
O objetivo não é correr desesperadamente atrás da bola, mas controlar as opções disponíveis para quem a possui. Quando todas as linhas de passe são bloqueadas, o erro surge naturalmente. O adversário deixa de escolher e passa a reagir às decisões impostas pelo sistema defensivo.
Esse tipo de organização exige enorme inteligência coletiva.
Cada jogador precisa compreender não apenas sua função, mas também a dos companheiros. Uma pressão mal coordenada abre espaços perigosos. Uma pressão sincronizada transforma onze jogadores em um único organismo.
Foi exatamente essa sincronia que apareceu diante da Escócia.
Outro mérito de Ancelotti foi devolver serenidade à equipe. Durante anos, a Seleção viveu entre extremos emocionais. Bastava sofrer um gol para perder a organização. Bastava abrir vantagem para diminuir a intensidade.
Contra a Escócia ocorreu o contrário.
Mesmo vencendo, o Brasil manteve concentração, posse de bola e disciplina tática. Não houve ansiedade para ampliar o placar nem acomodação após construir a vantagem. Essa maturidade costuma separar equipes talentosas de equipes realmente candidatas a títulos.
Naturalmente, ainda existem desafios.
A Escócia não pertence ao grupo das seleções mais fortes da competição. O verdadeiro teste começará no mata-mata, quando cada erro pode significar eliminação e quando os adversários terão qualidade suficiente para explorar qualquer desequilíbrio defensivo.
Também será interessante observar como Ancelotti administrará o retorno de Neymar.
Poucos jogadores brasileiros possuem sua capacidade de criação. Entretanto, sua presença exige adaptações defensivas e ofensivas. O desafio do treinador será inserir um talento extraordinário sem comprometer a organização coletiva que começa a aparecer.
Esse talvez seja seu maior dilema.
Manter a intensidade do sistema ou devolver ao camisa 10 a centralidade do jogo?
Provavelmente, a resposta estará no equilíbrio entre essas duas ideias.
Ancelotti sempre demonstrou habilidade para adaptar esquemas aos jogadores disponíveis, e não o contrário. Sua história mostra que prefere construir sistemas flexíveis capazes de explorar diferentes características técnicas conforme o adversário.
Essa versatilidade pode ser decisiva nas fases eliminatórias.
No mata-mata, raramente vence apenas a equipe mais talentosa. Avança quem consegue interpretar rapidamente os diferentes cenários de uma partida. Às vezes será necessário pressionar alto durante noventa minutos. Em outras ocasiões, será mais inteligente baixar as linhas, controlar os espaços e explorar contra-ataques.
Equipes campeãs dominam todas essas linguagens.
O Brasil começa a demonstrar que pode voltar a fazê-lo.
Mais importante do que os gols marcados foi perceber uma Seleção que parece saber por que faz cada movimento em campo. Há coordenação entre defesa, meio-campo e ataque. Há ocupação racional dos espaços. Há pressão organizada. Há circulação inteligente da bola.
Tudo isso reduz a dependência das jogadas individuais sem eliminar o brilho dos grandes talentos.
Talvez seja cedo para colocar o Brasil como favorito absoluto ao título. O mata-mata costuma punir até as melhores equipes. Uma bola parada, um erro de arbitragem ou um detalhe técnico podem mudar completamente uma competição tão equilibrada.
Mas também seria injusto ignorar os sinais positivos.
Depois de anos de oscilações, a Seleção transmite uma sensação rara: a de que existe um caminho claro sendo percorrido. Carlo Ancelotti ainda não transformou o Brasil em campeão, mas já parece ter devolvido algo igualmente importante: uma identidade de jogo.
E, em Copas do Mundo, identidade costuma ser o primeiro passo para conquistar grandes títulos.
Se essa evolução continuar nas próximas partidas, a esperança deixará de ser apenas um sentimento da torcida e poderá transformar-se em uma convicção legítima de que o Brasil voltou a reunir as condições necessárias para disputar, de igual para igual, o sonho do hexacampeonato.



