Esta história precisa ser contada com muita tranquilidade. Meus leitores vão
achar interessante como a vida (o caminho que nós percorremos na terra) é
cheia de altos e baixos.
Conheci, desde pequena, um homem pobre, criado por três mulheres, uma
dona de casa e duas operárias, que venceu na vida através de estudos e
concursos. Pois bem, este homem quase passou fome, vendeu tapioca para
ajudar a mãe e fez o curso primário, de favor, numa escola particular, onde
sofreu muita humilhação. Quando não era exigido diploma para fazer concurso
público, trabalhou no Estado e chegou a Fiscal do IAPI, depois INSS, hoje
Auditor Fiscal da Receita Federal. Morreu relativamente cedo, aos 67 anos.
Ouvia muito falar nos homens ricos de Maceió, mas nunca cheguei perto de
nenhum. Um deles, possuidor de um enorme patrimônio, era famoso
empresário nas Alagoas e em outros Estados. Teve vários filhos, foi casado
mais de uma vez, e finalmente, entrou na política. Procurado, bajulado por
candidatos interesseiros, usou parte de sua fortuna para financiar políticos mal
intencionados. Não diria que ficou pobre, mas foi interditado pelos filhos,
segundo a imprensa, e morreu amparado por familiares, entretanto esquecido
pelos falsos amigos.
Pois bem, esses dois homens se encontraram em determinada fase da vida.
O empresário devia muito à Previdência e chamou particularmente o Fiscal do
IAPI para fazer um estudo de suas dívidas e apresentar uma solução. O
inocente servidor público trabalhou por vários dias em sua residência, analisou
o caso e apresentou ao moço rico várias soluções que deveriam ser pagas
num longo prazo, dentro dos ditames legais. Vaidoso, o empresário recebeu as
propostas, examinou-as e disse: “Gostei do que você fez, mas não vou pagar
nada. Você fez apenas sua obrigação”!
Decepcionado, o servidor público chegou em casa, triste, contando à família
a humilhação por que passou. O moço rico contava rindo para os amigos, a
judiação cometida ao infeliz Fiscal do IAPI.
Os anos foram passando, eu fui crescendo e acompanhando a vida do
homem mais rico das Alagoas, pela imprensa. Aqui, acolá, ele fazia uma
maldade com pessoas que dele se aproximavam. Conheci um economista que
trabalhou para ele em São Paulo e em Maceió, foi demitido injustamente e
desgostoso, morreu entregue à bebida. A política, vingativa como ela só,
acabou com o moço vaidoso que pensava ter muitos amigos.
Enquanto isso, o homem pobre continuou trabalhando, fazendo o bem a
quem podia, orientando a quem o procurava dentro de seus direitos, para se
aposentar pelo INSS. Até pessoas bem simples, pedintes, foram aposentados
legalmente. Ensinou a várias pessoas que queriam prestar concurso público,
criou seus filhos com muita sabedoria, mas infelizmente morreu cedo. No seu
enterro, apareceram várias pessoas para agradecer o que dele tinham
recebido.
Além de tantos elogios e agradecimentos, deixou para a filha mais nova
uma gorda pensão que já dura 30 anos, além de mais de dois milhões de
atrasados recebidos nesse espaço de tempo, através de ações judiciais.
O empresário rico foi gastando seu dinheiro com políticos gananciosos e
bem idoso, não podia dispor da parte da sua fortuna por ordens judiciais.
Morreu quase no ostracismo, arrodeado por poucos familiares e amigos.
Deixou como herança um patrimônio intocável.
Vejam leitores como é interessante a vida: um homem pobre, servidor
público, deixou de herança uma alta pensão, além boas quantias concedidas
pela Justiça; um homem rico, deixou um legado de muitos bens, mas
totalmente comprometidos por ações judiciais.
Como explicar tudo isso? Só Deus para esclarecer o que aconteceu com os
dois homens. O tempo é senhor da razão.
Deus existe! Não duvidem!
* É aposentada da Assembleia Legislativa.
Alari Romariz Torres







