
O polonês Georg Hüsing (1869-1960) dedicou um bom tempo de sua existência a coligir mitos e versar-se em línguas orientais. Um dia — e isto numa resenha a um dos primeiros ensaios do etnólogo alemão Leo Frobenius (1873-1938) — aventou substituir o consagrado anglo-saxônico »folk-lore« (22 de agosto de 1846) — o estudo do popular, neologismo devido ao arqueólogo inglês William Thoms (1803-85) —, pelo vocábulo de ascendência greco-romana »fama« para tratar de assuntos de ciência que dissessem da cultura do ser humano, analogamente a »flora«, na botânica, e a »fauna«, na zoologia.
À parte o ranço biologizante da proposta, nesta filiação do vastíssimo e complexo reino das manifestações dos modos de vivência em coletividade, sobremaneira aquelas que tocam no profundo sentido aparentemente antinômico dos mundos estético e normativo, as pesquisas folclóricas no Brasil, em geral, e em Alagoas, no particular, muito longe estão ainda do horizonte afamado de reputação e reconhecimento que melhor as distinga; sua compreensão deve ir além dos apelos das tutelas patrimonialistas, das definições congelantes de antiquário, do saudosismo romântico, do nacionalismo vanguardista e do bairrismo esterilizante, a fim de alcançar a significância social que lhes corresponde, no açodado espectro da contemporaneidade.
Tal percepção pouco aparente da razão de ser do »povo« — categoria insondável — precisa de caminhar para adiante do desbravamento dos folcloristas precursores, das querelas dos senhores congressistas e, mais recentemente, dos ciúmes de certos antropólogos desconfiados de que lhes roubem um dos últimos objetos reificados de investigação e submeter-se a criteriosa análise, fecundada pela sensibilidade epistêmica interdisciplinar de um pensamento-líbero que supere a retórica de modismo e se encare como trabalho intelectual sério, sob a perspectiva crítica de métodos pertinentes, os quais vão — em saudável e desafiante »medley« do conhecimento — da representação, nas artes, ao conteudismo, na sociologia.
O desafio, penso eu, para o entendimento do folclórico em pleno século 21 guia-se por algumas tarefas:
[1] desmonte do significado da palavra »popular« a partir da distensão conceitual formal de »classe«, diante dos fenômenos de urbanização e burocratização;
[2] estudo histórico-comparativo de suas possíveis expressões no país e no estrangeiro;
[3] não-julgamento premeditado do que se considere mais, ou menos, »legítimo« (prudência ante o »fakelore« do harvardiano Richard Dorson [1916-81]), mas abertura para o novo e não simplesmente para o que subsiste, seja »tradicional« (outro termo polêmico);
[4] apreensão do dinâmico no cerzir cotidiano, o qual, em suas linhas de força, se flagra — do Momo ao Ninho — nas danças, nos torneios, na musicalidade, nas cores dos indumentos, na religiosidade, nas superstições, na crença na terapêutica rústica, na dramaturgia, no sabor da culinária, nos artefatos (das pétalas à pirotécnica, do barro à ourivesaria, da instrumentária ao trançado), na poética da contística, da mitologia, das lendas, do anedotário, das adivinhações, dos provérbios, do repente e da trova;
[5] necessidade do pressuposto multidimensional: etnográfico, político-econômico, ético, pedagógico, sociopsicológico (mesmo psicanalítico) e, sublinhe-se, metalegal.
Moral da história: próprio da natureza de um processo contínuo, folclore e organização social estão intimamente relacionados, já que presentes em nossa vitalidade sem o obrigatório da institucionalização oficial. Eis o mote das indagações.
Marcos Vasconcelos Filho
Ensaísta, PhD, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ex-Presidente da Comissão Alagoana de Folclore (CAF) na gestão 2015-2018, membro dos institutos históricos de Alagoas, Pernambuco e Bahia e das academias Alagoana e Pernambucana de Letras e diretor responsável pela vitalização do Arquivo Público de Alagoas (APA) nos anos 2011-2015.
Crédito das imagens deste artigo: Celso Brandão.







