Há títulos que elevam pessoas. E há pessoas que elevam títulos. Ana Dayse Rezende Dorea pertence a essa segunda ordem — rara, silenciosa e essencial.
Neste 2 de abril, a Universidade Federal de Alagoas devolve, em forma de gesto solene, o tanto que recebeu em forma de compromisso. A entrega do título de Doutora Honoris Causa é, antes de um ato simbólico, um reconhecimento inevitável. Um acerto com a história. Um retrato emoldurado da verdade: é possível fazer da vida pública um lugar de construção digna.
Não há ficção aqui. A biografia de Ana Dayse é escrita com os instrumentos da realidade: plantões hospitalares, assembleias tensas, orçamentos exíguos, salas de aula, viagens de trabalho, decisões difíceis, escuta ativa. Médica, professora, reitora. Três cargos, uma só missão: servir com coerência, onde a vaidade não encontra abrigo.
Lutou pela universidade pública quando isso era risco, não rito. Assinou reformas que hoje sustentam estruturas. Criou campi onde antes havia silêncio. Estendeu a mão à educação básica enquanto o país ainda tropeçava nos próprios diagnósticos. Fez da Ufal uma instituição com espinha dorsal ereta, quando o mais fácil teria sido dobrar-se às conveniências.
Não foi só gestora. Foi arquiteta de possibilidades. Quando um curso era criado, não era apenas currículo — era a porta de entrada para uma nova geração. Quando um campus surgia no interior, não era só expansão — era o ensino batendo à porta de quem nunca foi convidado. Quando falava em nome da Ufal, não era retórica — era pertencimento.
A Ana Dayse que hoje recebe essa honraria não é diferente da jovem que integrou o Diretório Central dos Estudantes nos anos 70. É a mesma, só que agora com a sabedoria da estrada. Continuou acreditando que a universidade é território de mudança. E que mudar a realidade exige mais que boas intenções — exige coragem cotidiana.
Reconhecê-la é reconhecer o que temos de mais nobre na universidade pública: gente que trabalha por um ideal coletivo, que não se curva ao cansaço, que sabe que transformar não é um verbo de efeito — é um verbo de esforço.
O título de Doutora Honoris Causa não a transforma. Apenas confirma o que já era. E, nesse gesto, somos nós — comunidade acadêmica, sociedade alagoana, país — que nos tornamos maiores.
Porque há pessoas que engrandecem as instituições. E há instituições que sabem agradecer à altura. Hoje, Ana Dayse e a Ufal se encontram, mais uma vez, em pé de igualdade: ambas feitas de luta, entrega e dignidade.
Dr João Aderbal de Morais
Médico e escritor
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