O Senado brasileiro, em sessão acalorada, recebeu recentemente a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para discutir os entraves à exploração de petróleo na chamada Margem Equatorial Brasileira. O que deveria ser uma audiência de debate técnico se transformou numa batalha política — e não é difícil entender por quê.
Estamos falando de uma das últimas e maiores fronteiras petrolíferas inexploradas do planeta. As estimativas, nada modestas, apontam para a existência de 10 a 30 bilhões de barris de petróleo equivalente, valor que rivaliza diretamente com as reservas do pré-sal brasileiro. Isso, em dinheiro, representa algo entre US$ 800 bilhões e US$ 2,4 trilhões — ou seja, de R$ 4 trilhões a R$ 12 trilhões, considerando o preço médio de US$ 80 o barril.
Em tempos de transição energética, parece até contraditório discutir a expansão da exploração de petróleo. Mas a realidade — sempre mais teimosa que as utopias — impõe um dado inquestionável: o mundo ainda dependerá do petróleo por décadas. E quem não aproveitar suas reservas agora, corre o risco de vê-las se tornarem irrelevantes no futuro.
Na mesa desse xadrez estão mais do que os interesses nacionais. Há uma pressão internacional sutil, porém constante. Empresas como Shell, TotalEnergies, ExxonMobil, BP Energy e até a própria Petrobras, já possuem blocos licenciados ou participação em consórcios para explorar a Margem Equatorial. As grandes petroleiras não ignoram o fato de que, do outro lado da fronteira, Guiana e Suriname vivem um verdadeiro boom petrolífero. A Guiana, país antes insignificante no mapa econômico, já atraiu mais de US$ 60 bilhões em investimentos e vê sua economia crescer mais de 20% ao ano, graças à exploração do mesmo sistema geológico da bacia da Foz do Amazonas.
O interesse dos senadores é, portanto, mais que legítimo. Representam estados historicamente esquecidos, com indicadores sociais vergonhosos, que agora veem na Margem Equatorial uma oportunidade rara de desenvolvimento. Não é exagero dizer que estamos falando da possibilidade de mudar o destino econômico de estados como Amapá, Pará, Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte. Royalties, empregos, infraestrutura, aumento do PIB local — tudo isso surge como promessa palpável diante do mapa de exploração.
Do outro lado da mesa, Marina Silva representa uma visão que, embora necessária, começa a parecer desconectada da urgência socioeconômica. Defensora histórica da preservação, Marina carrega consigo o peso de uma bandeira global: a de proteger a Amazônia, o bioma e os mares tropicais. E tem razão em vários pontos — o licenciamento ambiental não pode ser mero protocolo. Mas também é verdade que, ao paralisar, eternamente, processos de licenciamento, o Estado brasileiro se torna cúmplice da própria pobreza, da desigualdade e da estagnação de sua região mais vulnerável.
A cena da ministra deixando a sessão, irritada, é emblemática. Representa o fracasso de um país que não consegue construir consensos entre ambiente e desenvolvimento. É a foto de uma nação onde um lado grita “progresso” e o outro “preservação”, mas ninguém busca a engenharia do equilíbrio.
O fato concreto é que há trilhões de reais debaixo do leito marinho da Margem Equatorial. Há investidores globais, há empresas prontas, há países vizinhos enriquecendo com o mesmo petróleo que insistimos em ignorar — ou retardar.
O Brasil precisa decidir: quer ser protagonista de sua própria riqueza ou espectador da prosperidade alheia?
Não se trata de escolher entre devastar ou proteger. Trata-se de construir um modelo que permita explorar com responsabilidade, compensar impactos, investir na recuperação ambiental e, principalmente, transformar riqueza natural em bem-estar social.
O que não podemos — e aqui, sim, reside o verdadeiro crime — é assistir, passivamente, à perpetuação da miséria, da falta de infraestrutura, da pobreza energética e do subdesenvolvimento, tudo em nome de uma preservação que, isoladamente, não alimenta, não educa, nem gera emprego.
A Margem Equatorial é mais que uma bacia de petróleo. É uma prova de fogo da maturidade brasileira. Se seremos capazes de conciliar riqueza, desenvolvimento e sustentabilidade — ou se continuaremos, como tantas vezes, a tropeçar no próprio discurso.
Analista colaborador do Resumo Política







