“Os cães ladram e a caravana passa”, dizem os operadores da fortuna. Mas quando a caravana tenta distribuir pão, eles rosnam para derrubar o condutor.”
— Rui Guerra
Vivemos num país onde o capital produtivo luta para respirar, e o capital especulativo reina com liberdade absoluta. A principal bolsa de valores brasileira, a B3, resultado da fusão da BOVESPA, BM&F e CETIP, movimenta em média R$ 150 bilhões por pregão. Desse montante, cerca de 95% não financia uma fábrica, uma escola ou uma estrada — gira apenas em operações de curtíssimo prazo, comprando e vendendo o mesmo ativo, o mesmo papel, o mesmo capital, até quatro vezes ao mês.
Esse é o verdadeiro império invisível do dinheiro: veloz, frio e apátrida. Um dinheiro que não tem pátria nem bandeira.
Não se sensibiliza com a miséria, nem se interessa pela equidade. Seu vocabulário não inclui palavras como “paz”, “justiça social” ou “redistribuição de renda”. Seu único dicionário traz termos como “liquidez”, “swap”, “derivativo”, “day trade”, “alta frequência” e “rentabilidade mensalizada”.
É essa elite invisível que grita contra qualquer tentativa de regulação fiscal. Quando se menciona um aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para minimizar as desigualdades de arrecadação, o coro é imediato: “Vamos tirar nosso dinheiro do país”.
É o terrorismo do capital fluido, que ameaça fugir sempre que se tenta submeter seus lucros aos encargos da cidadania.
O cerco político de 29 de maio
Hoje, 29 de maio, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal romperam o verniz da institucionalidade e quando viram um risco para reduzir suas emendas PIX lançaram um ultimato ao Poder Executivo:
“Ou reduz imediatamente as transferências sociais ou estará descoberto perante a legislação e sujeito a um impedimento.”
Trata-se de uma inversão perversa de prioridades.
A elite política, pressionada pelas amarras do teto de gastos e pelos interesses do mercado, não cobra cortes nas isenções milionárias às empresas, nem questiona os incentivos fiscais concedidos à banca, à mineração e ao agronegócio exportador.
Mas bate o martelo contra os R$ 600 do Bolsa Família ou os recursos do BPC que salvam milhões da fome e da indigência.
É o Estado capturado pelos donos do dinheiro, que impõem sua pauta mesmo sem voto. A chantagem fiscal substitui o debate democrático.
Quem governa?
A pergunta que se impõe é simples, mas decisiva:
Quem de fato governa o Brasil?
•É o presidente eleito com mais de 60 milhões de votos?
•Ou os investidores invisíveis que operam bilhões sem jamais saírem do ar-condicionado?
A B3 não é apenas uma bolsa — é a trincheira de onde se atiram os mísseis invisíveis contra qualquer tentativa de inclusão social sustentada por tributos.
Conclusão: a democracia sob vigilância financeira
Enquanto o governo tenta atender os mais pobres com auxílios sociais, quem de fato controla os cordões da política não está no Congresso, nem nas ruas: está nos terminais de negociação, nas corretoras, nos escritórios de fundo multimercado como se fizessem coro: “ se quer aumentar a receita fiscal que tribute o consumo, nunca a renda nem o capital “!
O conflito não é a direita contra a esquerda.
É da especulação contra o capital produtivo e social.
O risco não é apenas econômico. É institucional.
Se os representantes do povo se curvam aos ditames do mercado, não há mais governo — há apenas gestão de interesses privados sob aparência de Estado.
Nesse ambiente, a democracia torna-se uma simulação.
E o povo, uma linha de custo a ser cortada.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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