Embora o sistema de castas seja uma marca formal e histórica da sociedade indiana, suas versões simbólicas e não institucionalizadas se manifestam em todas as sociedades humanas. A rigidez hierárquica que conhecemos na Índia milenar apenas explicita uma estrutura que, no Ocidente, é encoberta por narrativas meritocráticas, mecanismos econômicos e símbolos de status. Em qualquer agrupamento humano, existem divisões sutis, nem sempre formalizadas, mas reconhecíveis pela forma como os indivíduos são vistos, tratados e esperados a agir.
Essas divisões não nascem de um decreto, mas de uma combinação entre ambições pessoais e comportamentos sociais. São os próprios indivíduos que, movidos por desejos, impulsos ou recusas, se alinham a formas de vida distintas, e assim se reconhecem e são reconhecidos.
Tome-se como exemplo o anarquista ou o morador de rua que, mesmo tendo origem em famílias abastadas, recusam os confortos materiais e as convenções da sociedade organizada. São movidos por um impulso de liberdade total, muitas vezes avesso a regras, limites e compromissos. Sua escolha, ainda que incompreendida por muitos, não é ignorância, mas um tipo de sabedoria própria, que coloca a autonomia pessoal acima da estabilidade ou da projeção social. O que os move não é a miséria, mas a recusa ao aprisionamento simbólico que a riqueza impõe.
Do outro lado, há os que desejam ascender – por conhecimento, por poder, por riqueza. Estes também se agrupam em uma casta implícita: a dos que perseguem metas. Alguns almejam saber, mas para alcançá-lo, reconhecem a necessidade de recursos: livros, mestres, tempo, acesso. São intelectuais por vocação, mas realistas por necessidade. Sabem que, antes de tudo, é preciso dinheiro para conquistar saber de qualidade. Ainda assim, não buscam acúmulo – fogem da pobreza, mas não correm atrás da fortuna.
Já os empreendedores, visionários e produtores de riqueza, trilham um caminho diferente: acumulam, investem, expandem. Para eles, crescer é um imperativo, não apenas uma opção. São os que transformam ideias em capital, riscos em lucros, e, muitas vezes, o mundo à sua volta. São construtores da infraestrutura social e econômica, mas também geradores de desigualdade, se não acompanhados por um espírito de partilha e responsabilidade.
Entre essas “castas” modernas – os livres por escolha, os sábios por busca, os ricos por construção – há um ponto comum: a pluralidade da alma humana. E é justamente essa diversidade de caminhos que torna a convivência uma arte, e a tolerância, uma necessidade.
Uma sociedade madura não tenta moldar todos ao mesmo formato. Ao contrário, reconhece que há grandeza tanto em quem recusa quanto em quem persegue. E que a paz só é possível quando há espaço para todos – desde que respeitem os limites do outro.
Por isso, as verdadeiras castas não se veem na pele, na origem ou na renda, mas no espírito. E o grande desafio não é apagá-las, mas compreendê-las – e, quando possível, construir pontes entre elas.
Analista colaborador do Resumo Política







