Escrever um livro é como gestar um filho de papel — com dores, cuidados e um afeto que não se explica. A princípio, parece tarefa de organização, disciplina e memória. Mas, à medida que os parágrafos ganham vida, algo mais profundo se instala: o autor descobre que, em vez de conduzir a obra, é por ela conduzido.
Cada capítulo pede revisita, cada nome esquecido implora inclusão, cada silêncio exige voz. A história não se contenta em ser contada — ela quer ser polida, revista, alongada. E quando enfim parece pronta, eis que chega o momento da entrega: a editora, os olhos alheios, a expectativa da forma impressa.
Mas o livro, como todo filho, resiste à separação. Revela arestas que só o amor enxerga, desafina notas que já pareciam harmônicas, e se insinua inteiro outra vez, pedindo mais um gesto de cuidado, mais uma revisão.
A tentação de reescrever o mundo é constante. A cada leitura, uma vírgula se desloca, uma ideia se expande, uma lembrança ganha lugar. O autor vira refém de sua própria dedicação — e se não vigiar, corre o risco de nunca concluir.
Talvez por isso, a sabedoria antiga da construção civil nos alcance com ironia e precisão: “Obra não se termina. Abandona-se para começar outra.”
Assim é também o livro. Uma obra que não se termina, mas se liberta. Entrega-se ao tempo, aos leitores e à eternidade do papel — sabendo que jamais será perfeita, mas será sua.
E que, ao abandoná-la, nasce não o fim, mas a chance de começar de novo — em outra página, em outro filho, em outro sonho.







