Aprecio assistir à GloboNews, mesmo reconhecendo sua clara inclinação editorial em favor do governo do PT, cuja defesa se tornou rotina, assim como a tentativa recorrente de transferir ao ex-presidente Bolsonaro a responsabilidade pelos tropeços e contradições do atual governo.
Hoje, 12 de junho, observei com atenção o apelo feito por analistas do canal para que o presidente Lula reduza suas viagens internacionais e dedique-se com mais afinco aos problemas internos do país — estes, sim, os verdadeiros responsáveis por sua crescente impopularidade nas pesquisas. Entre os temas mencionados, destacava-se o conflito institucional entre o ministro da Agricultura e o Chefe da Casa Civil, bloqueando ações e travando decisões que só o próprio Presidente poderia arbitrar.
A recomendação, contudo, revela certo grau de ingenuidade, desconhecimento da dinâmica partidária ou, talvez, um excesso de proteção disfarçado de aconselhamento. A realidade é que essas constantes viagens ao exterior não são apenas uma agenda diplomática ou uma tentativa de reafirmar o protagonismo internacional do Brasil — elas se configuram, na prática, como uma fuga deliberada da convivência com os dilemas internos do governo e do país.
Há, no fundo, duas razões centrais para essa fuga:
1. A fragilidade de mobilização espontânea de sua base social.
Lula evita eventos populares no interior do Brasil porque sabe que seus apoiadores, diferentemente dos de Bolsonaro, só comparecem em massa quando há patrocínio: transporte, camisetas, lanches e mimos variados. Quando esses incentivos não estão presentes, o que sobra é o risco de enfrentar vaias, protestos e a crescente indiferença de uma população cansada de promessas não cumpridas.
2. O desgaste da máquina de articulação política.
Dentro do governo, os embates entre alas ideológicas e interesses corporativos geraram paralisia decisória e atritos que o presidente parece pouco disposto — ou incapaz — de resolver. Ao se ausentar fisicamente do país, Lula preserva sua imagem junto à militância internacional, ao passo que evita o ônus do enfrentamento cotidiano com uma base parlamentar fragmentada, uma economia travada e uma sociedade inquieta.
Enquanto isso, seus opositores e, em especial, o bolsonarismo, seguem demonstrando capacidade de mobilização voluntária, sem necessidade de apoio logístico. A diferença é simbólica e estratégica: onde há fervor autêntico, há política viva; onde só há encenação financiada, resta o esvaziamento gradual do carisma.
As viagens de Lula, portanto, revelam mais do que uma preferência diplomática — expõem o receio de um retorno ao Brasil profundo, onde a realidade é bem menos adornada do que os palanques internacionais permitem encenar. E é nesse território doméstico que se decide o destino político de qualquer líder, por mais experiente que seja.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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