O Enriquecimento do Urânio —
A Jornada do Átomo à Bomba
O urânio é um elemento naturalmente presente na crosta terrestre, mas, ao contrário do que muitos pensam, ele não sai da rocha pronto para acender reatores, muito menos para fabricar bombas. Na natureza, o urânio é encontrado com uma pureza extremamente baixa, diluído em minérios e misturado a outros elementos.
O teor médio de urânio na rocha extraída varia entre 0,1% e 0,3%, dependendo da jazida. Em depósitos excepcionais, como na mina de Cigar Lake no Canadá, pode chegar a 20%, mas isso é uma raridade. O restante da rocha é apenas ganga — material sem interesse energético.
Mas o mais importante não é só a quantidade de urânio total, e sim a proporção entre seus dois principais isótopos:
•Urânio-238 (U-238) – 99,3% da natureza. É o estável, o pesado, o que não serve diretamente nem para bomba, nem para gerar energia em reatores comuns.
•Urânio-235 (U-235) – apenas 0,7%. É esse o precioso isótopo físsil, aquele capaz de sustentar uma reação em cadeia — tanto nos reatores quanto nas armas nucleares.
✔️ Por que enriquecer?
Porque, na natureza, o U-235 está diluído demais. Para queimar num reator civil, é necessário elevar seu teor de 0,7% para algo entre 3% e 5% — isso já permite gerar energia elétrica com segurança.
Mas uma bomba atômica exige mais. Para que a reação seja instantânea, violenta e exponencial, é necessário elevar o teor de U-235 para 90% ou mais. Isso é o chamado “grau militar”. Nesse nível, o material é tão puro que qualquer quantidade crítica bem montada entra em reação em frações de segundo, gerando a explosão termonuclear.
✔️ O urânio natural é instável?
Tecnicamente, sim. Todo material radioativo é instável, e o urânio natural emite radiação alfa (partículas pesadas, pouco penetrantes). Porém, ele é relativamente estável em termos práticos. É possível manusear urânio natural com as devidas precauções — ele não explode, não pega fogo, não entra em reação espontânea.
O risco do urânio natural não é explosão, mas exposição prolongada, contaminação por partículas ou, em grandes volumes, a geração de radônio, um gás radioativo perigoso para a saúde.
✔️ Da rocha à bomba — o caminho tecnológico
O processo de enriquecimento é uma obra-prima da engenharia. Como separar dois isótopos que são quimicamente idênticos e fisicamente quase idênticos, diferindo apenas em 1% de massa?
Foram desenvolvidos processos extremamente complexos, como:
•Difusão gasosa (obsoleta)
•Centrífugas ultrarrápidas (a mais usada hoje)
•Laser (tecnologia emergente e mais eficiente)
Cada centrífuga gira a velocidades absurdas — até 70.000 rotações por minuto —, e são necessárias milhares de centrífugas ligadas em cascata para alcançar o nível de pureza necessário.
✔️ Conclusão — por que o mundo vigia o enriquecimento?
Porque enriquecer urânio até 5% serve para luz elétrica. Enriquecer até 90% serve para apagar a luz do mundo inteiro. Essa é a diferença. O mesmo átomo que aquece uma cidade pode, se manipulado, destruí-la em segundos.
É por isso que os olhos do mundo ficam atentos quando qualquer país anuncia avanços no enriquecimento além do patamar civil. Porque, nesse exato ponto, a linha que separa o uso pacífico da destruição irreversível se torna perigosamente tênue.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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