Enquanto os recursos são pulverizados em emendas PIX, distribuídos sem critério técnico nem planejamento estratégico, a população se arrasta para ter assistência médica em tempo hábil para sobreviver.
É um Brasil onde o dinheiro chega rápido para quem já tem influência — e devagar demais para quem só tem dor. Antônio sabia disso sem precisar assistir ao noticiário. Sentia no peito.
Era pedreiro, 63 anos, aposentado pela metade — a outra metade ainda subia escada. E foi numa dessas subidas que a dor apertou de vez. Não era pontada. Era peso. Um aperto fundo e mudo, que o obrigou a sentar no primeiro degrau. “Deve ser só o calor”, pensou. Mas o coração já avisava que não era.
Foi ao posto de saúde no dia seguinte. Esperou. Esperou sentado, depois em pé, depois sentado de novo. A moça da recepção disse que o médico estava em outra unidade. A consulta foi marcada para dali a sete dias.
No atendimento primário, a lógica é simples: quem espera demais, agrava. Quem agrava, sobe na árvore. E foi o que aconteceu.
O clínico o ouviu, examinou e pediu um eletrocardiograma. Só que o aparelho da unidade estava quebrado. O exame teria que ser feito na cidade vizinha. Mais espera.
Três semanas depois, com o eletro em mãos, voltou ao médico, que já estava em outra escala. Repetiu a história para outro profissional, que olhou o laudo e disse, com a serenidade dos que sabem da burocracia:
— Seu Antônio, vamos encaminhar pro cardiologista.
Entrava, agora, no atendimento secundário. Uma espécie de purgatório do sistema: onde se encaminha tudo que não se resolve na base, mas também não é urgente o suficiente para furar fila.
A consulta foi marcada para dois meses depois, em outro bairro, com outro número, com outro médico.
Na consulta, o cardiologista pediu exames: ecocardiograma, teste de esforço e laboratório completo. Antônio, já cansado da peregrinação, disse com ironia:
— E se for infarto, doutor?
— Então a gente resolve na urgência.
— E se eu morrer antes?
O médico suspirou. Não tinha resposta.
Enquanto esperava os exames, Antônio piorava. Já não subia escadas. Passou a dormir com dois travesseiros. Um dia, caiu sentado na calçada. Suava. Tinha náuseas. O vizinho o levou ao pronto-socorro.
Ali, finalmente, a fila se quebrava: emergência é porta sem trava. Foi direto para o oxigênio, depois para o monitor, depois para a UTI.
Alta complexidade.
Agora, tudo acontecia rápido: exames, protocolos, discussão de caso. O nome dele virava prontuário. O coração dizia que não esperava mais. A cirurgia foi marcada: revascularização do miocárdio. Três pontes. Três linhas de vida para tentar reconectar seu tempo com o tempo do país.
Sobreviveu.
Ficou mais de 15 dias internado. Saiu debilitado, mas lúcido. A mulher o abraçou no corredor. O neto chorou escondido. Antônio, não. Só disse:
— Agora, preciso é voltar pra fila.
Fila da reabilitação. Fila da farmácia. Fila do ambulatório. Fila da fisioterapia. Fila da regulação para consulta de retorno. Tudo de novo.
Enquanto isso, as redes sociais de Brasília comemoravam a liberação de mais uma rodada de emendas extraorçamentárias para ginásios de esporte, praças vazias e ambulâncias sem motorista.
Antônio não compreendia o palavreado técnico, mas entendia o abandono. Entendia que o problema não era só falta de dinheiro — era falta de direção. O sistema sabia gastar. Não sabia cuidar.
Um dia, ao voltar ao posto para tentar marcar o retorno com o cardiologista, encontrou a mesma enfermeira de meses atrás.
— Seu Antônio! Tá firme?
— Tô. Mas agora sei que o difícil não é o coração parar. É ele ter que esperar.
A moça sorriu com pena. Disse que ainda não havia vaga no especialista, mas que ele podia “ficar ligando pra ver se alguém desiste”.
Antônio agradeceu. Sentou-se na cadeira de plástico. E esperou. Sem pressa, sem ilusão. Sabia que, no Brasil das emendas secretas, o coração do pobre só bate no tempo da sorte.
Analista colaborador do Resumo Política







