A política internacional não é feita apenas de acordos, cúpulas e discursos bem intencionados. Ela é um jogo de xadrez brutal onde os movimentos sutis de um líder podem desencadear terremotos econômicos, diplomáticos e simbólicos. Foi exatamente isso que ocorreu com o Brasil nos últimos dias. No tabuleiro do poder global, ausências pouco explicadas em alto volume — Xi Jinping e Putin na cúpula do Brics+ — somada à precipitação de Lula em se posicionar como porta-voz do novo bloco, acabou abrindo espaço para um revide norte-americano de proporções ainda incalculáveis. A ausência dos gigantes asiáticos não foi casual, e a fala inflamada do presidente brasileiro foi o último ingrediente daquilo que, em bom português, se chama de “ o pingo d’água que transborda “.
O Jogo Começa Sem Aviso
É preciso compreender que Xi Jinping, mestre dos movimentos calculados, não recua por distração. Sua ausência em um momento de ampliação do Brics, com a entrada de nações-chave produtoras de petróleo e minerais estratégicos, foi deliberada. Sabedor do impacto geopolítico da consolidação de um bloco que confronta diretamente a hegemonia do dólar e redesenha as rotas comerciais do século XXI, Xi preferiu deixar a cena para outro protagonista. E Lula, com sua aparente experiência e desejo de liderança global, foi o porta-voz, mesmo que não soubesse disso.
Lula achou que estava no ABC e não se conteve. O cenário era perfeito: o Brasil no centro de uma nova articulação internacional, agora com países como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos aderindo ao bloco. A narrativa era tentadora: multipolaridade, comércio em moedas locais, rejeição ao domínio do dólar — Trump foi categórico: reagirá com força à ameaça ao domínio do dólar — além de um aceno retórico ao anti-imperialismo. O problema é que, nesse jogo, cada palavra pesa mais do que toneladas de minério exportado.
O Protagonismo Que Saiu Caro
Em sua tentativa de brilhar na ausência dos líderes asiáticos, Lula fez mais do que acolher novos membros. Ele vociferou contra a ordem vigente, insinuando que o Brics era um caminho alternativo para países sufocados pela política de sanções do Ocidente. A crítica velada — e por vezes explícita — ao dólar como moeda de dominação foi o estopim. E para agravar a situação, Lula não resistiu a provocar Donald Trump, que, de volta ao poder, agora governa os Estados Unidos com a impulsividade de sempre e com o ressentimento de quem vê na América Latina uma fronteira vulnerável e estratégica.
Foi aí que o plano se inverteu. A China, protegida na retaguarda, observava. E Trump, como um caçador ferido em campanha eleitoral permanente, reagiu com um movimento cirúrgico. Em vez de ataques verbais, lançou uma medida real: tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, com ênfase em setores-chave da economia do eixo São Paulo e Rio de Janeiro — o coração produtivo do país. Sua justificativa? Defesa econômica. Sua motivação real? Estratégica e simbólica.
A Caneta-Míssil de Trump
Trump não age por acaso. Quando decide atingir o Brasil, ele escolhe o eixo São Paulo-Rio- Minas como alvo não só por seu peso econômico, mas por seu simbolismo. É onde pulsa a indústria, o agronegócio, a tecnologia, os bancos e os exportadores. É a locomotiva do PIB nacional. E quando a locomotiva falha, o país inteiro cambaleia.
A nova tarifação americana, que começa a vigorar em 1º de agosto, atinge frontalmente setores como aço, petróleo, café, sucos, calçados, carne, equipamentos eletrônicos e produtos químicos — todos com forte presença no eixo Rio-São Paulo/ Minas. O impacto ainda será medido, mas o recado já está dado: Trump não permitirá que o Brics avance sobre seus mercados sem retaliação.
Lula, talvez embalado por sua narrativa de resistência e autonomia, parece ter esquecido que os Estados Unidos ainda controlam o dólar, os fluxos financeiros, as agências de classificação de risco e, não raramente, a narrativa midiática global. Enfrentá-los exige mais do que coragem: exige cálculo, estratégia, proteção. O que faltou.
O Erro das Bases e o Despreparo da Percepção Pública
É aqui que entra a bronca das bases. Muitos no entorno de Lula — e especialmente entre seus apoiadores — não enxergam o xadrez. Veem no ataque de Trump apenas um gesto de revanche eleitoral ou imperialismo de ocasião. Ignoram, contudo, que se trata de uma reação a um movimento de ruptura — à tentativa de deslocar o dólar e de firmar uma nova ordem global sem aviso prévio e sem as devidas salvaguardas.
A base progressista festejou a adesão de países estratégicos ao Brics+ como uma vitória diplomática. Mas poucos se perguntaram por que China e Rússia idealizadoras do projeto, preferiram o silêncio. A ausência de Xi e Putin foram, na prática, uma cautela asiática. Um “deixa que o Lula se vira ”. E o Brasil, no papel de herói voluntário, dançou.
A Economia Como Refém do Jogo Geopolítico
O revide de Trump também traz outro ensinamento. A interdependência econômica é, ao mesmo tempo, escudo e armadilha. O Brasil exporta commodities para os EUA, depende de investimentos americanos e tem empresas listadas em bolsas controladas por instituições ocidentais. Ainda assim, ousou afrontar o centro do poder financeiro global sem blindagem prévia. O resultado? Ataques cirúrgicos que poderão gerar desemprego, retração e instabilidade cambial.
E pior: isso ocorre justamente quando o governo brasileiro precisa de crescimento econômico para bancar seus programas sociais, manter sua base de apoio e sustentar a confiança do investidor internacional. Um corte brusco nas exportações ou no fluxo de capital pode ser o bastante para inviabilizar parte da agenda interna — exatamente o que Trump deseja.
Conclusão: Quando a Vaidade Supera a Estratégia
No fim das contas, Lula caiu na armadilha da vaidade diplomática. Quis ser porta-voz do novo mundo, mas esqueceu que o mundo velho ainda tem dentes afiados. Xi Jinping e Putin entenderam isso e recuaram no momento certo. Trump, por sua vez, percebeu a fragilidade e reagiu como sempre faz: de forma brutal e eficaz.
Agora, resta ao Brasil conter os danos. Buscar interlocutores confiáveis, amenizar o discurso, retomar pontes com os Estados Unidos — ou ao menos com setores do empresariado americano — e reconhecer que, nesse novo mundo multipolar, o protagonismo é uma espada de dois gumes. Quem a empunha sem armadura corre o risco de sangrar no palco.
A sopa estava quase pronta. Mas alguém colocou pimenta demais. E agora, o Brasil prova que, na diplomacia global, até um elogio mal calculado pode custar caro. Muito caro.
Analista colaborador do Resumo Política







