A política, quando não guiada por estratégia, vira espetáculo. E o espetáculo, como sabemos, não alimenta o povo, não gera empregos nem sustenta uma nação. Em meio ao impacto da nova tarifação imposta pelos Estados Unidos — o chamado “tarifaço de Trump” —, o Brasil se vê diante de uma encruzilhada: responder com altivez e inteligência, ou repetir o ciclo vicioso de reações populistas que priorizam votos imediatos em vez de resultados duradouros.
O alerta está dado: 110 mil postos de trabalho poderão ser perdidos caso a medida norte-americana siga em vigor sem uma reação diplomática e comercial à altura. O efeito, ainda que represente uma elevação de apenas 0,1 ponto percentual na taxa de desemprego oficial, é devastador na base da pirâmide. Mais grave ainda: atinge diretamente os setores produtivos mais sensíveis à competitividade internacional — logística, indústria de transformação e agroindústria. São empregos que não se recuperam com slogans ou aumentos pontuais do salário mínimo.
É hora de parar, respirar e olhar para o tabuleiro com a frieza de um estadista.
Calma, Lula. Não negocie o Brasil por mais quatro anos de poder. Negocie quatro décadas de desenvolvimento.
O erro da pressa política
Ao longo de sua trajetória, Lula se destacou por sua habilidade de leitura popular. Sabe o que dizer, quando dizer, e a quem dizer. Mas governar exige mais do que retórica. Governar, especialmente em um cenário geopolítico delicado, exige visão de longo prazo e capacidade de renunciar à tentação de agradar o presente em nome de construir o futuro.
O tarifaço imposto por Donald Trump — em resposta simbólica à posição do Brasil no julgamento de Bolsonaro — não é apenas uma crise comercial. É um aviso de que o Brasil precisa rever sua posição no tabuleiro internacional. A nossa dependência de exportações primárias, associada à fragilidade na negociação de acordos bilaterais, deixa o país vulnerável a oscilações políticas e decisões unilaterais de outras potências.
Oportunidade disfarçada de ameaça
Mas a crise, como sempre, traz uma oportunidade. O Brasil é uma peça importante no jogo global. Não somos apenas exportadores de soja ou minério. Somos detentores de recursos estratégicos, de uma reserva de biodiversidade incomparável e de uma população economicamente ativa jovem e numerosa.
Ao invés de reagir com orgulho ferido e discursos inflamados, o governo precisa sentar-se à mesa como parceiro comercial relevante. Os Estados Unidos não são inimigos — são concorrentes pragmáticos. E a China, apesar da parceria recente, também joga por seus próprios interesses. Entre ambos, o Brasil tem uma posição privilegiada — desde que haja uma estratégia nacional sólida, coerente e negociada com maturidade.
Emprego não se defende com bravatas
O impacto de 110 mil demissões pode parecer pequeno em números percentuais — a taxa de desemprego saltaria de 6,3% para 6,4% —, mas, para quem perde o sustento da família, a estatística vira tragédia pessoal. E o efeito indireto se espalha: menos consumo, menos produção, menos arrecadação, mais tensão social. O que se perde em semanas pode demorar anos para recuperar.
A solução? Negociar com foco no que o Brasil pode oferecer ao mundo — minerais raros, potencial de energia limpa, parques industriais estratégicos, inovação tecnológica — e exigir contrapartidas que fortaleçam nosso desenvolvimento interno. A diplomacia econômica precisa andar lado a lado com a diplomacia política. O Brasil não pode ser linha auxiliar de nenhuma potência. Deve ser protagonista.
O risco de transformar tudo em palanque
Lula já deixou claro que está em campanha. Seus discursos recentes se voltam mais para a plateia do que para os livros de economia ou as reuniões técnicas. O risco de governar com os olhos na próxima eleição é colocar a máquina pública a serviço da permanência no poder, e não da melhoria da vida das pessoas. Em vez de pensar em como manter os votos que elegeu seu governo, é preciso pensar em como ampliar os horizontes para as próximas gerações.
Calma, Lula. O momento pede menos slogans e mais estratégia. Menos paixão e mais razão. A tarifa de Trump pode ser revertida — mas só se houver firmeza diplomática, clareza comercial e maturidade institucional. O Brasil pode reagir, mas não com orgulho vazio ou ressentimento. Reage-se com inteligência, oferecendo soluções, propondo acordos, defendendo o emprego com técnica — e não com frases de efeito.
O futuro pede outra postura
O mundo mudou. E o Brasil precisa mudar com ele. A retórica nacionalista pode emocionar, mas não segura empregos, não traz investimentos, não abre mercados. Quem negocia o futuro com firmeza constrói soberania verdadeira. Quem troca o futuro por votos apenas posterga a decadência.
Ainda há tempo. Ainda é possível usar a crise para reposicionar o país. Mas isso exige, acima de tudo, postura de chefe de Estado — não de líder partidário.
Portanto:
Calma, Lula. Pense grande. Pense além. Pense no Brasil de 2050 — e não na reeleição de 2026.
Analista colaborador do Resumo Política







