As relações entre Brasil e Estados Unidos entraram recentemente em zona de tensão. A irritação crescente de Washington com a postura simbólica e política do governo brasileiro diante do crime organizado, somada a episódios recentes envolvendo o presidente Lula e sua proximidade com grupos ligados ao tráfico de drogas, acendeu um alerta que não pode mais ser ignorado.
Nas últimas semanas, imagens e manifestações públicas — como o uso de boné associado ao PCC e a participação em eventos com líderes de comunidades dominadas por facções — não passaram despercebidas pela diplomacia americana. Embora possam parecer inofensivos no contexto da política interna, tais gestos têm implicações sérias na arena internacional, sobretudo diante do histórico dos Estados Unidos com o combate ao narcotráfico.
A paciência americana já foi colocada à prova em outras ocasiões: o Panamá de Manuel Noriega, o México dos cartéis e, mais recentemente, a Venezuela de Nicolás Maduro — agora chamado abertamente por Washington de “chefe de cartel”. Em todos esses casos, os EUA reagiram com força, impondo sanções, isolamento diplomático e, em alguns momentos, ações militares.
O Brasil ainda goza de prestígio e influência regional. Mas o espaço para ambiguidade está se estreitando. E a crescente influência internacional do Primeiro Comando da Capital (PCC) pode ser a gota d’água.
Antes visto como um grupo criminoso restrito às periferias brasileiras, o PCC se transformou, ao longo da última década, em uma das mais eficientes redes de tráfico da América Latina. Controla rotas de escoamento de cocaína para a Europa via portos brasileiros, opera no Caribe e no México, e já atua com ramificações em território europeu. Exporta não só drogas, mas armas pesadas e munição. Sua estrutura logística e financeira se aproxima da de cartéis tradicionais e redes mafiosas.
A conivência simbólica do Estado brasileiro — ainda que não intencional — torna-se motivo legítimo de preocupação. Nos corredores diplomáticos de Washington, começa-se a discutir se o Brasil estaria se tornando, aos olhos do sistema de segurança norte-americano, parte do problema e não da solução.
A retaliação, nesse caso, não viria com tanques, mas com ações silenciosas e eficazes: sanções econômicas, restrições a acordos de cooperação militar e tecnológica, cancelamento de vistos diplomáticos e freios ao crédito internacional. Em tempos de baixa credibilidade fiscal e necessidade urgente de investimentos, um desgaste com os EUA pode custar caro.
É nesse contexto que a diplomacia brasileira precisa se reposicionar. Há uma diferença fundamental entre dialogar com todas as camadas da população e permitir que símbolos associados ao crime organizado entrem no palanque político. Os sinais importam. As imagens importam. Os silêncios também.
O Brasil não precisa se alinhar automaticamente à política externa americana. Mas precisa escolher, com clareza, se quer ser visto como aliado estratégico ou como um Estado omisso diante da expansão do narcotráfico continental.
A tolerância pode ser uma virtude — mas, quando excessiva e mal calibrada, transforma-se em fraqueza estratégica. E o mundo, especialmente o mundo que observa e julga com base em interesses globais, não perdoa ambiguidades.
Analista colaborador do Resumo Política






