A medicina nasceu da vida e para a vida. Desde os tempos mais remotos, seres humanos buscaram aliviar a dor, conter a febre, estancar o sangue, curar feridas. A prática médica antecede a escrita, os livros e os governos. Mas em algum momento da história, o saber empírico se transformou em ciência, e o médico passou de curandeiro a profissional reconhecido. É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: quem diplomou o primeiro médico?
1. Antes do diploma: a medicina como ofício e vocação
Nas civilizações antigas, não havia diplomas. A medicina era um ofício sagrado, exercido por:
•Sacerdotes no Egito, como Imhotep, considerado o primeiro médico conhecido da história, por volta de 2600 a.C.;
•Curandeiros hindus e chineses, com saberes milenares transmitidos oralmente;
•Xamãs indígenas e povos tribais, que uniam medicina, espiritualidade e natureza.
O conhecimento era passado por tradição ou iniciação, e o reconhecimento vinha da confiança da comunidade, não de uma instituição formal.
2. Hipócrates e o nascimento da ética médica
Na Grécia Antiga, a medicina deu um salto qualitativo: passou a ser racional, baseada em observação e lógica, separando-se da religião. É o legado de Hipócrates, o “pai da medicina” (460–370 a.C.).
Em sua escola na ilha de Cós, ele ensinava jovens aprendizes sobre o corpo, os humores, os sintomas e os tratamentos. Não emitia diplomas, mas exigia um juramento solene de conduta ética, conhecido até hoje como Juramento de Hipócrates.
Ali, a medicina ganhava seus primeiros contornos morais e técnicos formais — mas ainda sem certificados de papel.
3. O mundo islâmico e a medicina científica
Na Idade Média, enquanto a Europa mergulhava na instabilidade feudal, o mundo islâmico florescia em ciência e cultura. Em cidades como Bagdá, Damasco e Córdoba, surgiram escolas médicas notáveis.
Um dos maiores nomes foi Avicena (Ibn Sina), filósofo e médico persa (980–1037), autor do influente livro “O Cânone da Medicina”. Seus discípulos recebiam “ijazah”, uma espécie de certificação individual, emitida por um mestre, atestando que o aluno estava apto a exercer a medicina.
Esses certificados eram reconhecidos em todo o mundo islâmico e podem ser vistos como os primeiros diplomas médicos em sentido funcional.
4. A Universidade de Salerno: o nascimento do diploma formal
Na Europa, o reconhecimento institucional da medicina surgiu com as primeiras universidades, entre os séculos XI e XII. A mais antiga e influente no campo da medicina foi a Universidade de Salerno, no sul da Itália.
Ali, a medicina passou a ser ensinada com base em textos gregos, árabes e latinos. Os estudantes passavam por um currículo formal, exames orais e práticos, e, ao final, recebiam um diploma, geralmente emitido com autorização papal ou real.
Esse diploma certificava que o aluno:
•Tinha estudado medicina por um tempo determinado;
•Estava apto a exercer a prática médica;
•Podia atuar como “physicus”, o médico reconhecido pela lei.
É em Salerno, portanto, que se pode dizer que surgiu o primeiro médico diplomado da história ocidental, nos moldes que conhecemos hoje.
5. O valor do diploma: símbolo de saber e confiança
A emissão do diploma mudou tudo. De uma profissão empírica e artesanal, a medicina se tornou:
•Uma ciência com base teórica;
•Uma atividade regulada por autoridades públicas ou religiosas;
•Um instrumento de confiança institucional entre o médico e a sociedade.
O diploma passou a ter peso legal e social: separava o “médico formado” do charlatão, estabelecendo as bases da medicina como profissão legítima.
6. Conclusão: mais que papel, o diploma é responsabilidade
A história do primeiro médico diplomado não é a história de um papel. É a história da transformação do saber em compromisso, da intuição em ciência, da experiência em responsabilidade.
Ao receber o diploma, o médico não ganhava apenas um título: assumia o dever de cuidar da vida alheia com conhecimento, ética e humildade.
E, como aprendemos ao longo desta série, tudo isso começa onde menos se espera — no rearranjo invisível dos átomos que compõem a vida e seus guardiões.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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