Houve um tempo em que o Supremo Tribunal Federal era uma orquestra de solistas. Cada ministro — com sua trajetória, sua vaidade, seu viés teórico e sua bagagem — construía votos longos, densos e muitas vezes conflitantes com os dos colegas. Havia debates, tensões, trocas de farpas e duelos intelectuais transmitidos ao vivo.
Nos últimos anos, porém, o que se vê é uma música de notas repetidas — e sempre no mesmo tom.
A figura de Alexandre de Moraes se impôs como regente absoluto. Seus votos — robustos, diretos, tecnicamente sólidos — passaram a ser seguido por praticamente todos os demais ministros, quase sem questionamento.
Uma casa historicamente plural, conhecida por suas dissensões públicas, transformou-se numa arena de unanimidades estratégicas.
Mas a unanimidade, em política e em direito, nunca é neutra.
Ela pode ser:
•Símbolo de força e coesão, quando feita por convicção;
•Ou sinal de medo e autoproteção, quando praticada por conveniência.
No caso do STF, os sinais são cada vez mais nítidos: a Corte adotou o silêncio interno como escudo institucional — e agora começa a pagar o preço da distorção de sua própria identidade.
Alexandre de Moraes: da toga ao comando
Moraes não chegou por acaso ao centro do tabuleiro.
É relator dos inquéritos mais sensíveis da era bolsonarista:
•Fake news,
•Atos antidemocráticos,
•8 de janeiro,
•Abuso de poder político nas eleições de 2022.
Foi também presidente do TSE em plena eleição e enfrentou, sem hesitação, a retórica golpista do então presidente da República.
Sua atuação lhe deu:
•protagonismo jurídico;
•admiração de setores democráticos;
•e temor de setores conservadores.
Ministros mais técnicos, mais diplomáticos ou simplesmente mais avessos ao confronto, passaram a segui-lo não apenas por concordância, mas por cálculo institucional.
A unidade como estratégia de sobrevivência
Diante do cerco bolsonarista — com ameaças explícitas à democracia, ataques às instituições, tentativas de desacreditar o Judiciário e flertes com rupturas militares —, o STF fez um pacto de coesão interna.
Um pacto não escrito, mas compreendido:
— “Diante do inimigo externo, nenhuma divisão interna.”
Moraes virou a ponta de lança, e os colegas, o escudo simbólico.
Até ministros mais conservadores, como André Mendonça ou Nunes Marques, preferiram recuar em embates frontais para não parecerem alinhados com discursos radicais.
Essa blindagem pela unanimidade serviu como trincheira num momento grave.
Mas como toda trincheira, ela também isola, afasta e enfraquece a mobilidade da tropa.
O silêncio que fere a credibilidade
A unanimidade constante enfraquece o que o STF tem de mais precioso:
•sua autoridade plural;
•sua imagem de guardião da Constituição;
•sua capacidade de representar a diversidade de pensamento jurídico do país.
Com o tempo, a Corte deixa de parecer “sólida” e passa a parecer “subordinada”.
O protagonismo concentrado de Moraes gera admiração entre uns, mas também ressentimento, desconfiança e até repulsa em outros setores da sociedade.
Pior: gera a impressão — mesmo que injusta — de que os demais ministros “obedecem” por medo, conveniência ou omissão.
E essa imagem se alastra.
A obediência não será eterna
A História ensina que nenhuma hegemonia interna dura para sempre.
O próprio STF já teve outros momentos de centralização (como na era Ayres Britto ou Joaquim Barbosa), todos seguidos por ciclos de reequilíbrio e dissidência.
A autoridade de Moraes, embora robusta hoje, enfrentará:
•renovação da Corte, com novos ministros nomeados;
•fim do seu mandato na presidência do TSE;
•pressões crescentes da opinião pública e da mídia;
•e o próprio desgaste político de estar sempre no centro da tempestade.
O preço do protagonismo absoluto
Moraes consolidou sua liderança com competência técnica e coragem institucional — mas o STF não pode ser uma extensão de sua convicção individual.
A Corte precisa retomar:
•o debate franco entre seus ministros;
•a diversidade interpretativa das correntes jurídicas;
•e o equilíbrio que define uma democracia madura.
Se não o fizer, pagará com sua legitimidade.
A sociedade já começa a expressar sinais de cansaço — não apenas com decisões, mas com a percepção de que o tribunal se transformou numa cúpula hermética, monolítica e politizada.
O risco de uma corte sem espelhos
O STF é, por natureza, uma instituição de espelhos múltiplos, onde cada ministro reflete uma parte do país, da lei, da moral e da dúvida.
Quando todos os espelhos passam a refletir o mesmo rosto, algo se perde: a confiança pública, a legitimidade simbólica e a força democrática do dissenso.
A unanimidade foi útil contra o autoritarismo.
Mas, agora, precisa dar lugar à crítica honesta, à autonomia do voto e à restauração do verdadeiro pluralismo jurídico.
Caso contrário, a Corte que se silenciou para se defender, será atacada por ter deixado de representar.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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