Tolerar ou se render?
A tolerância é pedra fundamental da democracia. É ela que permite que opiniões divergentes convivam, que interpretações diferentes disputem espaço e que a política não seja uma unanimidade imposta pela força. Mas, como toda virtude, a tolerância precisa de limite. Quando a racionalidade se curva à irracionalidade persistente, não temos mais pluralismo: temos a ditadura da burrice.
Da divergência saudável ao delírio irracional
Nem todo desacordo é ameaça. Um economista pode defender juros em 8%, outro em 12%. Ambos estão amparados em dados e valores distintos. Esse tipo de embate é útil: gera alternativas e amadurece decisões.
Mas há fronteiras. Insistir que a Terra é plana, negar vacinas testadas ou gritar que eleições foram fraudadas sem uma prova contundente não é divergência legítima. É recusa em conviver com a realidade. É transformar ignorância em arma política.
O preço coletivo da burrice
A burrice organizada não é inofensiva. Durante a pandemia, custou vidas ao alimentar a crença em curas mágicas. No debate ambiental, ameaça o futuro ao negar mudanças climáticas já confirmadas por consenso científico. Na política, mina instituições e espalha desconfiança sem fundamento.
Quando a mentira ganha o mesmo espaço que a verdade, não há neutralidade: há desequilíbrio. Dar palco igual ao conhecimento e ao charlatanismo é criar falsa simetria. O resultado é uma sociedade mais vulnerável à manipulação.
Critérios da razão
Não é difícil estabelecer limites. Uma opinião só merece espaço democrático pleno quando:
•Pode ser verificada;
•Está aberta à revisão diante de novas evidências;
•Mantém um mínimo de coerência lógica;
•Não gera impacto social devastador.
Se não atende a esses critérios, não é opinião legítima — é sabotagem cognitiva. E tolerar isso em nome da pluralidade é entregar a razão à tirania da burrice.
Lições da história
John Locke, no século XVII, defendeu tolerância religiosa, mas não para quem pregava destruir a própria liberdade. No século XX, Karl Popper cunhou o paradoxo da tolerância: uma sociedade aberta deve ser tolerante, mas não pode tolerar os intolerantes, sob pena de autodestruição.
Ambos já apontavam a mesma verdade: a tolerância só se sustenta se houver fronteira clara contra quem a usa para corroer a razão.
Exemplos atuais
No Brasil, vimos isso de perto. A contestação do resultado eleitoral de 2022 não foi debate político, foi negação da realidade. Assim como a recusa em aceitar vacinas não foi mera escolha pessoal, mas um risco coletivo. Tolerar esses comportamentos como se fossem apenas opiniões diferentes é aceitar que a irracionalidade se sobreponha ao conhecimento.
Outro exemplo é o debate ambiental. Enquanto cientistas alertam para riscos do aquecimento global, ainda há quem trate o tema como invenção ideológica. Essa negação não é alternativa interpretativa: é burrice persistente com consequências planetárias.
Como reagir
No plano individual
Cada cidadão deve aprender a reconhecer limites. Discutir com quem aceita regras do jogo — sim. Gastar energia com quem muda de argumento a cada refutação — não. O diálogo produtivo exige base comum: fatos, lógica e abertura. Sem isso, vira monólogo.
No plano comunitário
Grupos sociais, associações e meios de comunicação precisam valorizar quem corrige erros e desestimular quem insiste em espalhar mentiras. Não se trata de censura, mas de responsabilidade: dar o mesmo peso à ciência e ao boato é desinformar.
No plano institucional
Governos e tribunais têm obrigação de exigir padrões de evidência. Políticas públicas precisam ser construídas sobre dados sólidos. Saúde, educação e meio ambiente não podem ser definidos por correntes de WhatsApp. É dever das instituições proteger o espaço público da captura pela irracionalidade.
A coragem de dizer não
Não há democracia saudável quando a burrice dita regras. O discurso da “tolerância ilimitada” é sedutor, mas perigoso. Tolerar a divergência legítima é condição de liberdade. Tolerar o delírio destrutivo é abrir mão dela.
A coragem do nosso tempo não está apenas em debater ideias diferentes, mas em recusar a rendição à irracionalidade persistente. Isso exige firmeza de cidadãos, responsabilidade de comunicadores e clareza de instituições.
Conclusão
A ditadura da burrice não se instala de repente; ela se infiltra quando confundimos liberdade de expressão com direito de mentir, e quando confundimos pluralismo com cumplicidade. O verdadeiro pluralismo se constrói sobre fatos, razão e respeito.
Proteger a democracia exige aceitar divergências racionais e, ao mesmo tempo, erguer barreiras contra o desatino. Porque, quando a burrice persistente dita as regras, não é apenas a inteligência que perde. É a própria democracia que se ajoelha.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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