Poucas experiências contemporâneas no Brasil despertaram tanto entusiasmo e tanta frustração quanto a Operação Lava Jato. A rigor, ela foi muito mais do que um processo judicial; foi um fenômeno ético-cultural que mobilizou consciências, gerou esperança em milhões de brasileiros e parecia abrir a possibilidade de um rompimento histórico com a lógica da impunidade. Ao mesmo tempo, tornou-se também um espelho doloroso da fragilidade institucional e das disputas de poder que moldam nossa realidade política.
O nascimento de uma esperança
A Lava Jato surgiu em 2014 como investigação de um esquema de lavagem de dinheiro em postos de gasolina, mas logo se transformou em um dos maiores processos anticorrupção do mundo. Em poucos anos, desnudou um sistema de cartelização entre grandes empreiteiras, partidos políticos e empresas estatais, revelando cifras bilionárias desviadas dos cofres públicos.
Para a sociedade brasileira, acostumada a ver poderosos escaparem de qualquer punição, o impacto foi imediato. Pela primeira vez, empresários de renome, dirigentes partidários e figuras de proa da política nacional foram levados à prisão. O recado parecia claro: a lei finalmente poderia alcançar a todos, sem distinção.
A dimensão cultural e ética
O êxito da Lava Jato não se limitou à esfera jurídica. Houve uma transformação cultural palpável: cidadãos comuns começaram a discutir delações premiadas, mecanismos de corrupção e funcionamento do Judiciário em conversas cotidianas. A sensação de que o Brasil poderia virar a página da impunidade passou a ser partilhada amplamente.
A operação tornou-se símbolo de um novo patamar civilizatório, algo comparável ao movimento das Diretas Já nos anos 1980 ou à Constituição de 1988. Era, de certo modo, a tentativa de refundar o pacto ético da República, colocando freios ao abuso do poder econômico e político.
O conflito e o descompromisso institucional.
Mas, ao lado desse sucesso, nasceu também um embate de vaidades e competências institucionais. A Lava Jato, conduzida por juízes e procuradores de Curitiba, ganhou dimensão tão avassaladora que começou a ofuscar o protagonismo tradicional do Supremo Tribunal Federal (STF).
O STF, guardião máximo da Constituição, parecendo não satisfeito com a evolução do processo, percebeu-se em segundo plano no maior caso judicial do século. Essa condição gerou, em setores da Corte, não apenas incômodo, mas também verdadeiro ciúme institucional. Magistrados acostumados a ser a última palavra da Justiça sentiram-se eclipsados por juízes de primeira instância e procuradores que se transformaram em personagens centrais da cena pública. A sensação de que a pirâmide de comando do judiciário brasileiro seria invertida parecia inexorável.
A reversão das conquistas
A consequência desse choque de vaidades foi devastadora. Ao longo dos anos seguintes, decisões do STF foram gradualmente anulando sentenças, invalidando provas, reconhecendo vícios processuais. O que antes era visto como vitória ética passou a ser desqualificado como abuso jurídico ou “lawfare”.
Assim, figuras emblemáticas do sistema de corrupção, antes condenadas com base em fartos documentos, delações e rastreamento financeiro, foram reabilitadas. O discurso jurídico passou a ser menos sobre a materialidade dos crimes e mais sobre a legitimidade dos procedimentos.
Na prática, réus comprovadamente envolvidos em esquemas bilionários voltaram à cena política, alguns recuperando direitos e até disputando eleições. O resultado simbólico foi desolador: a ideia de que no Brasil nada muda, de que o futuro sempre é adiado em nome de interesses imediatos.
O custo para o país
O preço pago pelo Brasil foi imenso. A Lava Jato poderia ter representado um divisor de águas, capaz de estabelecer padrões de governança e integridade que se consolidariam por décadas. Poderia ter sido o início de um novo ciclo, no qual o medo da punição funcionaria como freio real à corrupção sistêmica.
Em vez disso, assistimos a uma regressão. Empresas envolvidas em corrupção ressurgiram fortalecidas; partidos retomaram práticas antigas; lideranças políticas se recolocaram como se nada tivesse acontecido. O sentimento popular de frustração foi proporcional ao entusiasmo inicial: uma ressaca cívica que reforçou o cinismo e a descrença generalizadas.
O erro estratégico da direita brasileira
Se a Lava Jato foi a grande chance perdida para o Brasil, a direita política também carrega um erro histórico em sua trajetória. Beneficiada pela derrocada de seus adversários e pela onda de indignação popular, a direita ascendeu ao poder em meio ao clamor anticorrupção. Porém, ao assumir o comando, não teve a ousadia – nem a visão estratégica – de consolidar essa vitória cultural através da institucionalização das mudanças.
O momento exigia coragem para indicar, aos postos mais altos do Supremo Tribunal Federal, magistrados e procuradores cuja trajetória havia sido revelada na própria operação. Esses nomes, testados no calor da Lava Jato, representavam a materialização da esperança popular de que o combate à corrupção não retrocederia.
Ao deixar de fazê-lo, a direita brasileira não apenas desperdiçou um capital político inédito, mas também abriu caminho para que o STF retomasse a lógica de autopreservação. A Corte, sentindo-se novamente soberana e imune a pressões externas, reviu decisões, anulou condenações e devolveu poder a figuras antes julgadas e condenadas.
O destino que poderia ter sido outro
A história, portanto, poderia ter tomado outro rumo. Se a Suprema Corte tivesse sido renovada com julgadores alinhados à ética demonstrada na Lava Jato, hoje o Brasil talvez vivesse em um ambiente de maior confiança institucional. A sensação de impunidade teria sido rompida, e o país estaria menos vulnerável a retrocessos políticos e jurídicos.
Ao contrário, assistimos à volta de antigos protagonistas, à desmoralização de processos e ao enfraquecimento de um movimento que, por alguns anos, parecia destinado a mudar definitivamente o curso do país.
Esse equívoco estratégico da direita brasileira se soma, assim, ao ciúme institucional do STF: enquanto a direita, por corporativismo menor, imolou seus líderes – Moro e Dallangnol que poderiam estar no STF – enquanto o judiciário dominou-se pela perda do protagonismo, e ambos convergiram para abortar a possibilidade de um novo pacto ético-cultural. O resultado é o cenário atual – um Brasil dividido, desconfiado de suas instituições e prisioneiro de um ciclo de promessas não cumpridas.
O dilema entre Justiça e vaidade
O que se perdeu não foi apenas um conjunto de condenações, mas a chance histórica de alterar a cultura política nacional. O STF, ao buscar reafirmar seu protagonismo, escolheu o caminho da vaidade institucional em detrimento da continuidade de uma revolução ética. A direita, ao não consolidar no Supremo a renovação possível, contribuiu para que as engrenagens da impunidade voltassem a girar.
Ninguém nega que o devido processo legal deve ser respeitado. Mas o excesso de formalismo e o zelo pela autopreservação acabaram sacrificando o bem maior: a credibilidade da Justiça e a confiança do povo na capacidade das instituições de regenerar o país.
O futuro que se oferecia
O futuro que se desenhava era de um Brasil mais íntegro, mais respeitado internacionalmente, com instituições fortalecidas e uma sociedade civil confiante de que a lei valia para todos. A Lava Jato havia plantado essa possibilidade concreta.
Mas a reversão de suas conquistas mostrou que a força da tradição patrimonialista ainda fala mais alto. Em vez de consolidar uma cultura de transparência, retrocedemos a um quadro em que a impunidade continua sendo regra e não exceção.
Reflexão final
A Lava Jato, portanto, não fracassou por ausência de resultados. Ao contrário: foi vítima do próprio sucesso. O estrondoso impacto que causou, ao revelar o submundo da corrupção, despertou resistências poderosas. Entre estas, o ciúme institucional do Supremo Tribunal Federal e a miopia estratégica da direita tiveram papéis centrais.
No fim, perdeu-se mais do que um conjunto de processos. Perdeu-se a chance rara de erguer um novo horizonte ético-cultural para o Brasil. O país que poderia ter dado exemplo ao mundo acabou reforçando o estigma da impunidade.
A grande lição que fica é que revoluções culturais não se sustentam apenas em tribunais ou manchetes. Precisam ser apropriadas pela sociedade como política de Estado, como pacto coletivo. Enquanto a Justiça permanecer refém da vaidade de alguns de seus atores, e a política for movida pela lógica de autopreservação, o Brasil seguirá adiando o futuro que já esteve ao seu alcance.
Analista colaborador do Resumo Política







