Se há um país que desafia as regras clássicas da economia, esse país são os Estados Unidos. Enquanto grande parte das nações em desenvolvimento treme diante da perspectiva de déficits persistentes — seja nas contas públicas ou nas transações externas —, os EUA convivem há décadas com ambos, de forma quase naturalizada: como os americanos financiam suas contas?
O déficit fiscal: gastando mais do que arrecadam
Todo governo tem uma equação básica: arrecada impostos e gasta em políticas públicas. Quando as despesas superam as receitas, surge o déficit fiscal. Os EUA registram déficits quase todos os anos desde a década de 1970, excetuando-se um breve período de superávit no fim da administração Clinton.
Em 2024, o déficit federal foi de aproximadamente US$ 1,8 trilhão, cerca de 6% do PIB. A dívida acumulada ultrapassa US$ 35 trilhões, algo superior a 120% do PIB. Em tese, tal nível de endividamento deveria gerar desconfiança nos mercados, dificultando a rolagem da dívida e encarecendo os juros. Mas nos EUA a história é diferente.
O déficit em conta corrente: comprando mais do que vendem
A outra face do desequilíbrio está no setor externo. O déficit em conta corrente ocorre quando o país importa mais bens e serviços do que exporta, além de pagar mais rendas ao exterior do que recebe. Em 2024, o déficit americano girou em torno de US$ 800 bilhões, algo próximo de 3,5% do PIB.
Esse número reflete a realidade do consumidor americano: ele compra produtos chineses, carros japoneses, eletrônicos coreanos, roupas vietnamitas e alimentos latino-americanos. A economia interna é fortemente voltada para serviços, tecnologia e finanças, mas depende das importações para abastecer seu padrão de consumo.
O privilégio do dólar: a chave do financiamento
O que torna essa equação possível é o chamado privilégio exorbitante do dólar. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com o acordo de Bretton Woods e, depois, com a liberalização dos mercados financeiros, o dólar tornou-se a principal moeda de reserva mundial.
Isso significa que:
1.Governos estrangeiros mantêm suas reservas internacionais em dólares, comprando títulos do Tesouro americano (Treasuries).
2.Empresas globais transacionam mercadorias em dólares (do petróleo ao café, do aço à soja).
3.Investidores privados confiam nos ativos americanos como porto seguro em tempos de incerteza.
Com isso, os EUA conseguem atrair capital externo de forma contínua, financiando tanto seu déficit fiscal (via emissão de Treasuries) quanto o déficit em conta corrente (via entrada de investimentos e compra de ativos).
O elo entre os dois déficits: a poupança do resto do mundo
Os economistas chamam esse fenômeno de “déficits gêmeos”. O governo americano gasta mais do que arrecada, e a população consome mais do que produz. Em qualquer outro país, isso seria insustentável: faltaria moeda forte para importar e crédito para rolar a dívida.
Mas nos EUA acontece o contrário: o excesso de poupança do resto do mundo financia o déficit americano. Em outras palavras, os americanos gastam mais porque estrangeiros — governos, fundos soberanos, bancos e investidores — aceitam emprestar em troca da segurança do dólar.
A China, por exemplo, durante anos reciclou seus superávits comerciais comprando títulos do Tesouro. Países exportadores de petróleo fazem o mesmo. O resultado é que a poupança global sustenta o padrão de consumo americano.
Como isso se materializa no dia a dia
O mecanismo é simples:
•Quando o governo americano emite Treasuries, investidores de todo o mundo compram, aceitando juros relativamente baixos.
•Quando famílias e empresas importam mais do que exportam, a diferença é paga com dólares que retornam ao país na forma de investimentos.
•Assim, o déficit em conta corrente se fecha porque o capital externo entra em volume suficiente para compensar o buraco.
Em resumo, os EUA oferecem ao mundo um ativo seguro e líquido — os títulos do Tesouro — e recebem, em troca, o financiamento necessário para manter seus déficits.
Exemplos históricos
•Anos Reagan (1980s): grandes cortes de impostos e aumento de gastos militares ampliaram o déficit fiscal. Ao mesmo tempo, o consumo interno aquecido expandiu o déficit externo.
•Crise de 2008: em meio ao colapso financeiro, ao invés de fugir do dólar, investidores correram para ele, comprando Treasuries em massa.
•Pandemia de 2020-21: o governo gastou trilhões em pacotes de estímulo, elevando o déficit fiscal a quase 15% do PIB. Mesmo assim, os títulos foram facilmente absorvidos pelo mercado global.
Esses episódios reforçam a ideia de que o dólar é mais do que uma moeda: é um instrumento de poder geopolítico.
Os riscos desse modelo
Embora sustentável até agora, o modelo não está livre de riscos:
1.Aumento dos juros: com a dívida em expansão, o Tesouro precisa pagar mais para atrair compradores, encarecendo o serviço da dívida.
2.Dependência do apetite externo: se China, Golfo ou outros grandes detentores de reservas reduzirem sua exposição ao dólar, a equação pode se complicar.
3.Concorrência monetária: iniciativas de usar o yuan, o euro ou moedas digitais em transações internacionais podem, a longo prazo, reduzir a centralidade do dólar.
O “milagre” americano
O modo como os americanos financiam suas contas é uma combinação única de fatores:
•O dólar como moeda de reserva mundial.
•A confiança nos ativos financeiros americanos.
•O dinamismo da economia dos EUA, que continua atraindo investimentos.
Enquanto esses pilares se mantiverem, os EUA poderão conviver com déficits fiscais e externos de forma relativamente tranquila, repassando ao resto do mundo o ônus de financiar seu consumo e sua dívida.
No fundo, o que parece um desequilíbrio crônico é, na realidade, uma demonstração do poder estrutural dos Estados Unidos: eles conseguem gastar mais do que arrecadam e consumir mais do que produzem porque o mundo inteiro aceita financiar o estilo de vida americano.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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