O colapso de 1929, a década perdida dos anos 1930 e a devastação da Segunda Guerra Mundial deixaram uma lição clara: a economia mundial não poderia continuar sem regras de cooperação e sem uma moeda de referência confiável. A repetição de guerras cambiais, protecionismo e descoordenação mostrara que o caos econômico alimentava o caos político. Era preciso desenhar uma nova ordem capaz de garantir estabilidade, previsibilidade e reconstrução. Foi nesse contexto que nasceu o Acordo de Bretton Woods, marco fundamental na história do dólar como moeda internacional.
O encontro de 1944
Em julho de 1944, representantes de 44 países reuniram-se no pequeno vilarejo de Bretton Woods, em New Hampshire, Estados Unidos. O encontro ocorreu ainda durante a guerra, mas os Aliados já vislumbravam a vitória. A ideia era não repetir os erros do fim da Primeira Guerra, quando a ausência de cooperação internacional contribuíra para a crise dos anos 1930.
Dois nomes se destacaram no debate:
•John Maynard Keynes, economista britânico, defensor de um sistema mais equilibrado, que não dependesse exclusivamente da moeda de um país.
•Harry Dexter White, representante americano, que defendia a centralidade do dólar, dado o papel econômico dos Estados Unidos no pós-guerra.
O peso político e financeiro dos EUA fez prevalecer a visão americana.
As principais decisões
O acordo de Bretton Woods estabeleceu três pilares fundamentais:
1.O dólar como moeda-âncora
•O dólar seria conversível em ouro a uma taxa fixa de US$ 35 por onça troy.
•As demais moedas manteriam suas paridades fixas em relação ao dólar, com pequenas margens de flutuação.
•Isso criava uma hierarquia: ouro → dólar → demais moedas.
2.Criação de instituições multilaterais
•O FMI (Fundo Monetário Internacional) foi criado para oferecer empréstimos emergenciais a países com desequilíbrios de balanço de pagamentos e para supervisionar o sistema cambial.
•O Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), mais tarde conhecido como Banco Mundial, foi instituído para financiar projetos de reconstrução e desenvolvimento de longo prazo.
3.Estabilidade e cooperação
•O objetivo era evitar tanto a especulação cambial quanto as desvalorizações competitivas.
•O comércio internacional deveria ter uma referência estável para facilitar contratos, investimentos e trocas de longo prazo.
A centralidade americana
Por que o dólar foi escolhido? A resposta estava na realidade de 1944:
•Os EUA produziam metade da riqueza industrial mundial.
•Detinham dois terços das reservas de ouro globais.
•Eram o maior credor internacional.
•Tinham sua infraestrutura intacta, ao contrário da Europa e da Ásia.
Em outras palavras, o dólar era a única moeda com credibilidade suficiente para sustentar um sistema de alcance global.
A visão crítica de Keynes
Keynes defendia a criação de uma moeda internacional autônoma, que ele chamava de “bancor”, emitida por uma instituição supranacional. Sua preocupação era evitar que a moeda de um único país tivesse tanto poder sobre o sistema.
A proposta, porém, foi derrotada pela posição americana. Bretton Woods consagrou o dólar como referência, e o bancor nunca saiu do papel. Essa divergência antecipava os dilemas que surgiriam mais tarde.
O paradoxo de Triffin
Já nos anos 1960, o economista belga Robert Triffin chamaria atenção para uma contradição inerente ao sistema:
•Para o comércio mundial funcionar, era preciso haver dólares em circulação no exterior.
•Mas quanto mais dólares os EUA emitiam, menor era a confiança de que pudessem convertê-los em ouro a US$ 35 por onça.
Esse dilema ficou conhecido como paradoxo de Triffin. Ele previa que, cedo ou tarde, a contradição levaria à ruptura do sistema.
O início da reconstrução
Nos anos seguintes a Bretton Woods, o sistema mostrou sua força. O Plano Marshall (1947) espalhou dólares pela Europa, financiando a reconstrução de fábricas, estradas e portos. O comércio internacional renasceu, e países devastados, como Alemanha e Japão, retomaram seu crescimento em ritmo acelerado.
Esse período ficou conhecido como os “trinta anos gloriosos”, caracterizados por crescimento econômico elevado, pleno emprego e aumento da renda real em boa parte do Ocidente.
A disciplina cambial
O regime de câmbio fixo com base no dólar trazia vantagens:
•Contratos internacionais tornaram-se previsíveis.
•Investimentos de longo prazo podiam ser planejados com segurança.
•A volatilidade cambial praticamente desapareceu.
Por outro lado, exigia disciplina: cada país precisava manter suas finanças equilibradas para sustentar a paridade cambial. Déficits prolongados poderiam levar a pressões sobre suas moedas, obrigando a desvalorizações controladas.
A hegemonia americana
Além do aspecto financeiro, Bretton Woods consolidou a hegemonia política dos EUA. O país tornou-se árbitro do sistema, pois o dólar era o elo que ligava todas as moedas. Essa posição dava aos americanos vantagens significativas:
•Podiam emitir a moeda de reserva sem risco imediato de desvalorização.
•Atraíam capitais estrangeiros para financiar seus déficits.
•Exerciam influência direta sobre as instituições multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial.
As rachaduras que viriam
Apesar do sucesso inicial, o sistema já nascia com tensões internas. O paradoxo de Triffin permanecia como ameaça latente. Com o tempo, os déficits americanos — provocados pela Guerra do Vietnã e pelos gastos sociais internos — colocariam em xeque a promessa de conversibilidade do dólar em ouro.
Essas tensões explodiriam em 1971, com o Nixon Shock, quando os EUA suspenderam unilateralmente a conversão em ouro.
Conclusão: a ordem de Bretton Woods
Bretton Woods representou um marco decisivo: pela primeira vez, o mundo criou instituições multilaterais para governar a economia internacional e estabeleceu um sistema monetário baseado em cooperação e previsibilidade.
O dólar, lastreado em ouro, tornou-se o centro dessa ordem. E embora o sistema tenha ruído menos de três décadas depois, sua lógica moldou as bases da economia global contemporânea.
A conferência de 1944 não apenas respondeu às crises do passado, mas também lançou os fundamentos da globalização moderna, com os Estados Unidos no papel de potência hegemônica.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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