Ao longo da história, os meios de comunicação sempre foram instrumentos de poder. Do púlpito da Igreja na Idade Média às páginas dos jornais no século XIX, passando pela era de ouro do rádio e, depois, da televisão, cada época teve seu canal dominante de difusão de mensagens. Hoje, porém, vivemos algo inédito: as redes sociais não apenas se tornaram o meio mais utilizado, mas também um poder superior e incontrolável, capaz de moldar sociedades, derrubar governos, alterar economias e transformar culturas em escala global.
1. Alcance sem precedentes.
O Brasil é um caso exemplar. Temos mais de 135 milhões de brasileiros acessando redes sociais diariamente — quase 70% da população. Isso significa que, todos os dias, milhões de pessoas compartilham, comentam e consomem conteúdos que vão de notícias políticas a memes, de campanhas publicitárias a vídeos íntimos, de denúncias a teorias conspiratórias, de maldades condenáveis a alertas indispensáveis.
Comparar esse alcance com o da televisão ajuda a dimensionar a mudança: o Jornal Nacional, maior símbolo da comunicação de massa no país, atinge cerca de 25 milhões de pessoas em seu pico de audiência. Parece muito — e é. Mas, frente ao poder pulverizado das redes sociais, o número se torna modesto. Enquanto a Globo concentra milhões diante de uma tela única, o WhatsApp, o Instagram e o TikTok mobilizam centenas de milhões em conversas simultâneas, multiplicadas em milhares de direções.
2. O poder de moldar narrativas.
Se a televisão sempre foi emissora central de discursos, as redes sociais são plataformas de múltiplas vozes. O que se perde em uniformidade, ganha-se em velocidade e diversidade. Uma única postagem, feita de um celular comum, pode alcançar mais gente que a manchete de um grande jornal. Um vídeo amador pode viralizar e gerar pressão suficiente para obrigar autoridades a se pronunciar.
Esse fenômeno criou um novo campo de disputa: as narrativas digitais. Não importa apenas o fato em si, mas como ele é contado, editado, compartilhado e ressignificado nas redes. A luta pela “versão verdadeira” de um acontecimento não se dá mais em gabinetes ministeriais ou nas redações de jornais, mas em trending topics, hashtags e correntes de WhatsApp.
3. Incontroláveis por natureza.
A força das redes sociais está justamente no que as torna incontroláveis. Ao contrário da televisão, que depende de concessões públicas e obedece a regras rígidas de horário, publicidade e programação, as redes são distribuídas. Não existe uma sede central que possa ser desligada para interromper a circulação de mensagens. Mesmo quando governos tentam censurar ou bloquear conteúdos, novas contas surgem, outros aplicativos aparecem e o fluxo se reorganiza. Uma verdadeira entropia da alma.
Essa descentralização é amplificada pela arquitetura algorítmica. Cada usuário recebe um conteúdo personalizado, moldado por seus cliques, buscas e interações. Isso faz com que não exista mais “uma versão oficial dos fatos” — cada grupo de pessoas constrói sua própria bolha informativa, reforçada pela lógica da recomendação automática.
4. O medo dos governos.
Não é à toa que governos em todo o mundo procuram mecanismos de controle ou regulação das redes sociais. Do debate sobre o “PL das Fake News” no Brasil às pressões do Congresso americano sobre as big techs, passando pelo rígido sistema de censura na China, o interesse é claro: ninguém quer abrir mão de um espaço de poder que já supera o alcance da imprensa tradicional.
Ao mesmo tempo, a experiência mostra que o controle pleno é impossível. Mesmo em países autoritários, onde redes são bloqueadas ou monitoradas, os cidadãos encontram brechas: VPNs, novos aplicativos, mensagens criptografadas. A cada tentativa de restringir, surge uma forma alternativa de compartilhar.
5. Impactos políticos e sociais.
A força incontrolável das redes sociais já demonstrou seus efeitos na prática:
•Primavera Árabe (2011): protestos organizados pelo Facebook e Twitter derrubaram ditaduras históricas no Oriente Médio.
•Eleições nos EUA (2016): o uso massivo de redes para propaganda e desinformação foi apontado como decisivo na vitória de Donald Trump.
•Eleições no Brasil (2018 e 2022): as redes sociais foram protagonistas, tanto na mobilização de apoiadores quanto na disseminação de notícias falsas e ataques políticos.
Esses exemplos deixam claro que, hoje, nenhuma estratégia política pode ignorar o poder das redes. O palanque tradicional perdeu força; o feed é a nova praça pública.
6. A economia da atenção.
Mas não é apenas na política que as redes sociais exercem poder superior. Elas também moldam a economia do consumo. Plataformas como Instagram e TikTok transformaram influenciadores digitais em vendedores globais. Uma marca pode investir milhões em publicidade televisiva e não atingir o mesmo impacto de um vídeo viral de 30 segundos produzido por um jovem em seu quarto.
Essa lógica é movida pela chamada economia da atenção: o bem mais valioso não é o tempo de exibição, mas a capacidade de capturar segundos da concentração de alguém. Nesse aspecto, as redes sociais superam qualquer outro meio de comunicação já inventado.
7. O risco da desinformação.
O poder incontrolável, contudo, vem acompanhado de riscos. A velocidade de propagação de informações falsas é alarmante. Uma mentira bem contada pode alcançar milhões antes que uma correção oficial seja publicada. Isso gera pânico em crises de saúde, instabilidade em mercados financeiros e polarização em disputas políticas.
Mesmo assim, as tentativas de conter esse problema são sempre tardias e incompletas. O que mostra, mais uma vez, que o poder das redes não pode ser totalmente domado.
8. O futuro inevitável.
Diante desse cenário, resta reconhecer: as redes sociais se consolidaram como o maior poder de comunicação já criado pela humanidade. Superior à televisão em alcance, superior ao rádio em capilaridade, superior aos jornais em velocidade. E, ao contrário de todos os anteriores, incontroláveis por natureza.
Podem ser reguladas em parte, pressionadas por governos ou empresas, criticadas pela sociedade civil. Mas nunca serão plenamente domadas. Enquanto houver internet e dispositivos conectados, haverá vozes múltiplas circulando, reinventando a informação, derrubando certezas e criando novas narrativas.
Conclusão.
O poder superior e incontrolável das redes sociais reside em três características fundamentais:
1.Escala — bilhões de interações diárias, muito além do alcance da TV.
2.Interatividade — cada usuário é emissor e receptor ao mesmo tempo.
3.Resiliência — mesmo diante de tentativas de censura ou regulação, o fluxo de mensagens sempre encontra caminhos alternativos.
É por isso que as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação: são o novo campo de batalha do poder político, econômico e cultural do século XXI. Quem entender isso estará preparado para o futuro. Quem ignorar continuará preso a um mundo onde apenas 25 milhões assistiam ao mesmo telejornal.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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