A política brasileira é marcada por surpresas e contradições. Poucos poderiam prever que, semanas depois de um dos maiores desgastes da atual legislatura — a chamada PEC da Blindagem, que buscava ampliar as proteções e prerrogativas dos parlamentares contra a Justiça — a Câmara dos Deputados encontraria uma saída simbólica para tentar se reconciliar com a opinião pública: a aprovação, por unanimidade, da proposta de isenção do imposto de renda para rendas de até R$ 5 mil/ mês. Esse gesto, somado a outras medidas de forte apelo popular, como a facilitação na obtenção das carteiras de motorista, cria um novo ambiente político em que tanto o Parlamento quanto o Executivo buscam capitalizar dividendos.
1. A sombra da PEC da Blindagem.
A chamada PEC da Blindagem foi recebida com forte rejeição social. Vista como uma manobra corporativa, ela parecia proteger mais os políticos do que fortalecer a democracia. Nas redes sociais e na imprensa, a crítica foi unânime: um Congresso preocupado em autopreservação, distante das demandas da população.
Esse movimento não apenas desgastou a imagem da Câmara, mas também colocou os deputados em rota de colisão com a sociedade civil organizada. Organizações de juristas, entidades de classe e comentaristas políticos apontaram a proposta como um erro estratégico, capaz de cristalizar a percepção de que os parlamentares estavam mais interessados em blindar seus próprios privilégios do que em resolver os problemas do povo.
2. A necessidade de reparação simbólica.
Diante desse desgaste, era necessário reagir. A Câmara precisava de um gesto político como tentativa (?) de reparação da sua imagem. Nesse contexto, a aprovação da isenção do imposto de renda surge como uma resposta imediata. Não se trata apenas de economia para milhões de brasileiros, mas de um símbolo de proximidade com o eleitor.
A unanimidade na votação é rara e, por isso mesmo, eloquente. Ao se alinhar integralmente a um projeto de alto impacto popular, os parlamentares enviam uma mensagem: “Não estamos desconectados; sabemos ouvir”. É, na prática, uma operação de recuperação reputacional.
3. A lógica do populismo fiscal.
O imposto de renda, embora seja um dos principais instrumentos de arrecadação do Estado, tem forte conotação política. A faixa de isenção funciona como um termômetro da sensibilidade do governo e do Congresso em relação às classes trabalhadoras e médias. Ao ampliar a isenção, cria-se a sensação imediata de alívio financeiro, ainda que os efeitos fiscais de longo prazo sejam questionáveis.
Essa medida enquadra-se no que a ciência política chama de populismo fiscal: decisões de grande impacto no bolso do cidadão, geralmente tomadas em anos eleitorais ou em momentos de desgaste político. O efeito imediato é poderoso — aprovar uma isenção significa dar ao eleitor a sensação de ganho direto, palpável e imediato.
4. O governo Lula e o ganho eleitoral.
Para o presidente Lula, a aprovação foi uma vitória dupla. De um lado, garante uma bandeira de forte apelo popular: milhões de brasileiros deixarão de pagar imposto de renda, o que aumenta a sensação de justiça social. De outro, reforça sua narrativa histórica de defesa das camadas mais vulneráveis e da classe média baixa.
Somada à facilitação da obtenção da carteira de motorista, outra medida de impacto popular, a isenção fortalece a estratégia de construção de capital político em direção à reeleição. Trata-se de uma equação simples: quanto mais o governo entrega benefícios diretos e perceptíveis, maior a probabilidade de ampliar apoio popular.
5. A contradição revelada.
O contraste é revelador. Uma mesma Casa Legislativa que recentemente buscava proteger-se da Justiça e blindar seus integrantes, agora se apresenta como defensora do povo. É o jogo clássico da política brasileira: erros corporativos seguidos de medidas populares, numa tentativa constante de equilíbrio.
Essa contradição expõe uma lógica recorrente: quando o Parlamento se afasta da população por meio de iniciativas autorreferentes, compensa esse movimento com gestos de impacto popular. A unanimidade em torno da isenção do imposto de renda não é fruto de um súbito despertar coletivo, mas de uma estratégia de sobrevivência política.
6. A sociedade como termômetro.
A sociedade brasileira, cada vez mais conectada, desempenha papel central nesse processo. A reação rápida às medidas impopulares, amplificada pelas redes sociais, força o Congresso a reposicionar-se com agilidade. Deputados sabem que suas bases eleitorais estão atentas, que movimentos corporativos repercutem negativamente, e que apenas decisões de apelo popular são capazes de equilibrar o jogo.
A aprovação unânime, portanto, não é apenas um ato legislativo: é uma resposta simbólica ao eleitorado. É o Congresso dizendo: “podemos ter errado, mas também sabemos acertar quando o povo exige”.
7. O peso das próximas eleições.
Embora a reeleição ainda pareça distante no calendário, todo movimento político já está impregnado pela lógica eleitoral. Lula, ao consolidar medidas de impacto popular, pavimenta o caminho de sua candidatura. A Câmara, ao aprovar por unanimidade a isenção, busca resgatar parte de sua credibilidade diante do eleitorado.
O que se desenha é um cenário em que tanto Executivo quanto Legislativo buscam apropriar-se da narrativa de proximidade com o povo, cada um com seus objetivos. O governo quer acumular capital eleitoral; os parlamentares, defender seus mandatos e evitar desgaste.
8. Populismo ou justiça social?
Há quem critique tais medidas como populismo fiscal, um jogo de curto prazo que compromete a sustentabilidade das contas públicas. Outros defendem que se trata de justiça social, um realinhamento necessário num país desigual.
A verdade talvez esteja no meio-termo. Há, sem dúvida, um cálculo eleitoral por trás da isenção do imposto de renda. Mas há também um ganho concreto para milhões de brasileiros que se sentem aliviados ao não precisar destinar parte de sua renda ao Estado. O desafio será encontrar o equilíbrio entre popularidade e responsabilidade fiscal.
9. A lição política.
O episódio da PEC da Blindagem seguido da aprovação da isenção do imposto de renda ensina algo sobre a política brasileira: o jogo nunca é linear. Erros e acertos convivem lado a lado, e a busca constante é pela manutenção de legitimidade diante do povo.
Para o Parlamento, a lição é clara: medidas corporativas sem apoio popular geram desgaste imediato e exigem contrapartidas populares. Para o Executivo, a lição é que entregar benefícios concretos amplia apoio e consolida narrativas de proximidade com a população.
10. Conclusão: um movimento de sobrevivência.
A unanimidade da Câmara na aprovação da isenção do imposto de renda não é apenas um dado legislativo. É um gesto de sobrevivência política, um movimento calculado para reparar danos e reposicionar a imagem do Parlamento. Ao mesmo tempo, é uma vitória simbólica do governo, que soma capital político rumo à reeleição.
O contraste entre a PEC da Blindagem e a isenção escancara a natureza paradoxal da política: corporativismo e populismo convivendo, erros e acertos se alternando, sempre sob o olhar atento de uma sociedade que não perdoa deslizes, mas que celebra benefícios diretos.
No fim, a lição é simples: em política, quem erra contra o povo precisa compensar com gestos a favor dele. E quem governa sabe que o voto se conquista não apenas com promessas, mas com medidas que tocam a vida cotidiana. A unanimidade da Câmara e a popularidade crescente de Lula são capítulos da mesma narrativa — a dança permanente entre crise e reconciliação, desgaste e reparação, erro e acerto.
Analista colaborador do Resumo Política







