O Brasil vive, em tempo real, uma crise sanitária que cresce com a velocidade de um raio: a adulteração de bebidas com metanol. Em apenas oito dias, o que parecia ser um problema localizado em botecos da periferia paulistana já se transformou em um fenômeno de alcance nacional, avançando de forma descontrolada e vitimando, sobretudo, trabalhadores que recebem até dois salários mínimos – a base mais frágil e numerosa da sociedade brasileira.
A engrenagem da crise.
O consumo de cachaça barata, costume diário de milhões de brasileiros, é o elo mais vulnerável dessa cadeia. Trata-se de um hábito cultural enraizado, muitas vezes associado ao momento de descanso, após uma rigorosa rotina diária, e o ritual de beber “duas doses antes do banho e da refeição”. Essa rotina, aparentemente banal, tornou-se a porta de entrada para uma tragédia de saúde pública.
A inserção de metanol em bebidas falsificadas ou clandestinas gera intoxicação grave, cegueira e morte em poucas horas. O que começou com dezenas de casos em São Paulo já se espalha para outros estados, configurando não apenas um surto, mas um risco de epidemia social silenciosa.
A fragilidade institucional.
Aqui se revela o cerne do problema: quem tem poder para agir?
•O governo federal pode articular, alertar, coordenar políticas de saúde e orientar a população. Mas não tem poder de polícia para fechar fábricas clandestinas.
•Prefeituras também não dispõem de força repressiva: atuam na vigilância sanitária, mas não na destruição de depósitos e engarrafamentos ilegais.
•Somente os estados, com suas polícias civil e militar, têm instrumentos para reprimir a produção e circulação dessas bebidas.
Ocorre que não existe rapidez na sincronia entre as ações estaduais. Cada estado atua de forma isolada, enquanto a rede clandestina de adulteração funciona de maneira articulada, transportando e distribuindo lotes envenenados de Norte a Sul.
Um prenúncio perigoso.
Se a escalada não for contida com rapidez, o Brasil pode assistir a um quadro comparável, em gravidade, à disseminação inicial da COVID-19: uma epidemia social que atingiu milhões em curto espaço de tempo, deixando o governo sem reação.
O paralelo político é inevitável: assim como o coronavírus atropelou o governo Bolsonaro em 2020, revelando despreparo e ausência de coordenação nacional, agora o metanol ameaça corroer a credibilidade da base de Lula, justamente porque as vítimas estão concentradas no povo trabalhador – aquele que forma o núcleo duro de sua sustentação eleitoral.
A urgência da resposta.
Não há espaço para improviso. É preciso:
1.Imediato intervalo na campanha e Coordenação nacional imediata, com o governo federal centralizando dados, articulando estados e dando transparência à população.
2.Ações conjuntas das polícias e Secretarias de Fazenda estaduais, em caráter emergencial, para mapear, interromper transportes, invadir e destruir engarrafamentos clandestinos.
3.Campanhas públicas maciças, alertando a população sobre o risco de consumir bebidas baratas sem procedência garantida.
4.Criação de forças-tarefa interestaduais, para agir onde a rede criminosa se infiltra.
Conclusão.
O metanol é uma tragédia que não se alastra lentamente – transferido das bombas para as garrafas ele age “a jato”. Seu efeito é imediato na saúde e sua difusão, em poucos dias, já se mostrou incontrolável. Sem coordenação, o Brasil corre o risco de transformar a simples rotina de “tomar duas doses” em um ritual de morte.
O tempo urge. A história mostrou com a COVID que atrasos custam caro. Se o poder público repetir a omissão, a conta será cobrada não apenas em vidas, mas em estabilidade política.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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