O papel da televisão na formação da consciência nacional.
Poucos países no mundo têm uma relação tão intensa com a televisão quanto o Brasil. Desde a década de 1970, quando a TV se popularizou como principal meio de comunicação, ela se transformou em um dos pilares da vida social, cultural e política. Ao contrário do que ocorre em países onde jornais impressos ou rádios mantiveram relevância prolongada, aqui a televisão assumiu sozinha o papel de grande formadora da opinião pública.
E, olhando para os números recentes, a conclusão é clara: quem molda a opinião do brasileiro não são as elites urbanas, mas sim as camadas populares que consomem a TV aberta em escala massiva.
1. A base da audiência: quem realmente assiste à TV.
Estudos de audiência mostram que as classes D/E (famílias com renda até dois salários mínimos) respondem por cerca de 45% de toda a audiência televisiva nacional. São milhões de brasileiros para quem a TV aberta é não apenas a principal fonte de entretenimento, mas também a única janela de informação.
A classe C (2 a 10 salários mínimos), por sua vez, representa outros 40% da audiência. Ainda fortemente conectada à TV aberta, começa a migrar para o streaming, mas mantém hábito diário de assistir a novelas, jornais e programas de auditório.
Já as classes A/B, com maior acesso à internet de alta velocidade, múltiplas telas e serviços sob demanda, representam apenas 15% da audiência de TV. Assistem menos TV aberta, preferem streaming e acompanham a política por múltiplas fontes.
Portanto, somando os números, chegamos a um dado decisivo: 85% de tudo o que é visto na televisão no Brasil está nas mãos das classes C, D e E. É nesse público que a TV aberta ancora sua força.
2. A TV como fábrica de narrativas.
Se a televisão é a principal fonte de informação para a maioria da população, ela também se transforma em fábrica de narrativas nacionais. Programas de auditório, novelas e principalmente os telejornais assumem uma função que vai além de informar: interpretam a realidade para o público.
•O jornal da noite não apenas relata os fatos, mas indica ao espectador qual é a prioridade do dia e como deve ser interpretada.
•As novelas, por sua vez, há décadas exercem influência cultural e política, introduzindo debates sobre família, gênero, religião, preconceito e comportamento.
•Os programas populares moldam gostos, valores e até a visão de mundo da população, muitas vezes de forma mais eficaz do que escolas ou políticas públicas.
Essa dinâmica faz com que a televisão seja, em grande medida, o filtro pelo qual o Brasil enxerga a si mesmo.
3. O peso político da televisão.
Na política, esse poder se traduz de forma evidente. Campanhas eleitorais são construídas em torno da presença no horário eleitoral gratuito e da cobertura dos telejornais. Para grande parte da população, o que passa na TV é o que define o voto.
Foi assim desde a eleição de 1989, quando a disputa entre Lula e Collor foi marcada pela edição dos debates televisivos. E continua assim até hoje: candidatos que conseguem dominar a narrativa televisiva ganham vantagem significativa sobre os que ficam restritos às redes sociais.
Mesmo que a internet tenha se popularizado, o eleitor médio — principalmente das classes C, D e E — continua recebendo a informação política pela televisão. É por isso que governos e partidos disputam tanto espaço nos telejornais e buscam controlar a imagem que transmitem na tela.
4. Contradição social: quem forma opinião não é quem mais tem acesso à informação.
Aqui reside uma contradição interessante. As classes mais altas, com mais renda e educação, consomem menos televisão e têm acesso a múltiplas fontes de informação — jornais digitais, podcasts, plataformas internacionais. Porém, seu peso na audiência televisiva é pequeno.
Quem realmente assiste televisão e forma sua visão de mundo a partir dela são as classes populares. Ou seja, quem define o rumo da opinião pública nacional é quem tem menos acesso à diversidade de fontes informativas.
Isso explica por que certas pautas demoram a se popularizar: enquanto circulam nas redes sociais e nos meios digitais mais sofisticados, não ganham corpo até que sejam incorporadas ao noticiário televisivo. É a TV que “legitima” o debate público.
5. A TV frente à ascensão da internet.
Nos últimos anos, o crescimento das redes sociais e do streaming gerou a percepção de que a televisão estaria perdendo espaço. É verdade que o tempo médio de consumo caiu entre os mais jovens e nas classes A/B. Mas o dado estrutural permanece: a televisão ainda é o meio de maior alcance e de maior tempo de exposição no Brasil.
Segundo o Kantar Ibope (2023), o tempo médio diário de TV é de 5 horas por domicílio, chegando a 6 horas nas famílias mais pobres. Nenhuma rede social ou plataforma digital atinge essa marca com tamanha regularidade e capilaridade.
Em outras palavras, o celular é companhia constante, mas a televisão continua sendo o grande “ritual coletivo” de informação.
6. Implicações culturais e econômicas.
Esse predomínio da televisão na formação de opinião não se limita à política. Ele afeta também a cultura e o consumo.
•Marcas ainda disputam espaços nobres nos intervalos da TV aberta porque sabem que atingem massa crítica.
•Novelas e reality shows continuam lançando modas e produtos que rapidamente se espalham pelo país.
•Até mesmo políticas públicas — como campanhas de vacinação — dependem da televisão para alcançar eficácia.
No plano econômico, a TV é também o espaço onde a publicidade ainda fala diretamente ao consumidor das classes C, D e E, que representam o grosso do consumo popular.
7. Conclusão: a televisão como “espelho da nação”.
A pergunta “quem alimenta a opinião do brasileiro?” tem uma resposta direta: é a televisão aberta, consumida pelas camadas populares da sociedade. São elas que concentram a audiência, são elas que permanecem horas diante da tela e são elas que, ao final, decidem eleições, moldam gostos e legitimam narrativas.
O Brasil do streaming e da informação pulverizada existe, mas ainda é restrito às elites urbanas. O Brasil real continua se formando diante da televisão, no ritual diário de ligar o jornal, acompanhar a novela e comentar no dia seguinte.
Por isso, compreender a força da TV é compreender também a dinâmica da opinião pública brasileira. Enquanto 85% da audiência estiver concentrada nas classes C, D e E, o grande poder de moldar a consciência nacional continuará nas mãos da televisão aberta.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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