A habitabilidade dos trabalhadores e a distribuição de renda.
Hong Kong é uma cidade paradoxal. Internacionalmente, é vista como uma metrópole vibrante, repleta de arranha-céus, com economia pujante e posição estratégica no coração da Ásia. É um dos principais centros financeiros do planeta, onde circulam trilhões de dólares em transações globais todos os anos. Mas por trás da fachada de riqueza e modernidade, há um cotidiano de precariedade para milhões de trabalhadores. O “céu” repleto de torres espelhadas não esconde que, para a maioria, não existe paraíso algum — apenas uma luta constante pela sobrevivência em um dos territórios mais desiguais do planeta.
1. O regime de governo e sua herança.
Hong Kong é uma Região Administrativa Especial (RAE) da China, desde 1997, sob o princípio de “um país, dois sistemas”. Isso significa que mantém um sistema econômico capitalista altamente liberalizado, com grande autonomia em relação às regras de Pequim em matéria econômica, jurídica e financeira — mas sem plena democracia política.
O Chefe do Executivo é eleito por um comitê dominado por elites empresariais e representantes leais a Pequim, o que limita a participação popular nas decisões de governo. Esse arranjo político reflete-se diretamente nas políticas urbanas: a administração tende a favorecer grandes conglomerados imobiliários e financeiros, reforçando a concentração de renda e dificultando reformas sociais mais profundas.
2. PIB e IDH: riqueza sem bem-estar.
Em termos econômicos, Hong Kong impressiona. Seu PIB nominal ultrapassa US$ 400 bilhões, o que a colocaria entre as 40 maiores economias do mundo, se fosse um país independente. O PIB per capita supera US$ 55 mil, valor equivalente ou até superior ao de economias desenvolvidas como Alemanha e Reino Unido.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de aproximadamente 0,952, um dos mais altos do planeta. Em teoria, isso colocaria Hong Kong ao lado da Noruega, Suíça ou Austrália. Contudo, esse dado médio esconde uma verdade incômoda: enquanto uma elite goza de padrões de vida comparáveis aos da Europa Ocidental, milhões de trabalhadores vivem em condições próximas às de países pobres.
Em outras palavras, Hong Kong comprova que indicadores macroeconômicos e financeiros não garantem desenvolvimento humano. A cidade é a prova de que se pode ter PIB elevado e IDH altíssimo sem que isso signifique qualidade de vida para a maioria.
3. O motor da economia: finanças, comércio e imóveis.
O motor da economia de Hong Kong está em quatro pilares:
•Serviços financeiros, que respondem por quase 20% do PIB e transformaram a cidade em um dos maiores hubs de capitais do mundo.
•Logística e comércio internacional, sustentados por um porto e um aeroporto entre os mais movimentados do planeta.
•Setor imobiliário, que sozinho representa mais de 20% da economia e se tornou símbolo de especulação.
•Turismo e serviços, que completam o quadro de uma economia 90% baseada em serviços.
Mas aqui reside a contradição central: Hong Kong, onde o céu não tem paraíso e o setor financeiro não significa desenvolvimento econômico-social. A riqueza circula em bolsas de valores, fundos de investimento e conglomerados imobiliários, mas não se traduz em moradia digna, segurança ou mobilidade social. Trata-se de uma prosperidade estatística, não de uma prosperidade real.
4. A crise da habitabilidade.
O setor imobiliário, em especial, expõe de forma cruel a desigualdade. Em uma cidade de apenas 1.100 km² e 7,5 milhões de habitantes, comprar um apartamento de 40 m² pode custar 20 anos de trabalho de um cidadão médio. Restam os chamados coffin homes, cubículos de 2 a 4 m² que abrigam pessoas sozinhas ou famílias inteiras.
Essa tragédia habitacional mostra que o motor da economia — baseado em especulação e capital financeiro — não produz desenvolvimento social, mas sim exclusão. O mesmo capital que ergue arranha-céus de luxo ergue também muros invisíveis que separam ricos e pobres.
5. A desigualdade de renda.
Hong Kong apresenta um índice de Gini acima de 0,53, pior que o do Brasil (0,50 em 2024) e distante dos padrões europeus (cerca de 0,30). Esse dado ilustra o quanto a concentração de riqueza é dramática. Enquanto magnatas acumulam fortunas multibilionárias, trabalhadores gastam quase toda a renda apenas para sobreviver.
Esse abismo mina a mobilidade social e transforma o sonho de ascensão em miragem. A cidade parece ter dois mundos: um integrado à elite global, outro condenado à precariedade.
6. Impactos sociais e psicológicos.
A consequência é um ambiente urbano marcado por doenças físicas e mentais: depressão, ansiedade e problemas respiratórios em ambientes insalubres. Crianças crescem sem espaço para brincar ou estudar, e adultos trabalham longas jornadas em troca de um quarto minúsculo.
Aqui, fica evidente a contradição estrutural: a economia cresce em ritmo acelerado, mas a vida encolhe. Hong Kong simboliza a modernidade sem humanidade.
7. Políticas públicas insuficientes.
O Estado até mantém programas de habitação pública, mas a fila de espera ultrapassa cinco anos. Em vez de atacar a raiz do problema, o governo lança megaprojetos de ilhas artificiais e urbanizações distantes, que alimentam novamente os interesses dos conglomerados imobiliários.
O resultado é um ciclo perverso: quanto mais a economia cresce pelo setor imobiliário, menos a população consegue viver nele.
8. Onde o céu não tem paraíso.
Ao olhar para cima, vê-se o espetáculo arquitetônico dos arranha-céus. Mas para quem olha de dentro de um coffin home, não há paraíso no céu — há apenas a lembrança de que riqueza não é sinônimo de bem-estar.
Hong Kong se transformou em exemplo de como um sistema baseado em finanças e especulação pode gerar crescimento sem desenvolvimento. Uma cidade rica em números, mas pobre em humanidade.
Conclusão.
Hong Kong é a síntese de um paradoxo: PIB elevado, IDH altíssimo, regime político que privilegia o capital — e, ao mesmo tempo, uma das maiores desigualdades sociais do planeta. É a prova de que o setor financeiro, isoladamente, não significa desenvolvimento econômico-social.
Sua experiência deixa um alerta ao mundo: se o futuro urbano seguir esse modelo, teremos cidades cada vez mais ricas no papel, mas cada vez menos habitáveis para quem trabalha e sustenta essa riqueza.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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