( dedico essa pesquisa aos profissionais de Engenharia, Física, Química, Meteorologia e outros que por opção profissional tiveram que fazer iniciação a essas ciências )
A questão dos movimentos dos corpos celestes sempre intrigou a humanidade. Desde os babilônios, que traçavam tabelas de eclipses, até Newton e Einstein, que deram bases matemáticas e conceituais, o grande desafio foi explicar por que planetas e satélites não permanecem imóveis nem simplesmente “caem” uns sobre os outros. A resposta combina três pilares: gravidade, inércia e conservação do momento angular.
1. Gravidade: o elo invisível.
Newton demonstrou que a força de atração entre dois corpos é proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Essa fórmula simples, F = G \frac{m_1 m_2}{r^2}, ainda é suficiente para explicar a maior parte das órbitas no Sistema Solar.
Essa força é sempre mútua: a Terra atrai a Lua tanto quanto a Lua atrai a Terra. A diferença prática está na consequência: como a massa da Terra é muito maior, sua aceleração é pequena, enquanto a Lua descreve uma órbita bem perceptível.
Quando consideramos sistemas maiores, como galáxias, o problema se torna mais complexo: não se trata de dois corpos, mas de milhões ou bilhões de interações simultâneas, cuja resultante garante a estabilidade do conjunto.
2. Translação: a dança em torno do centro.
Se a gravidade fosse a única força, planetas cairiam em espiral em direção ao Sol. Mas cada corpo celeste carrega uma velocidade tangencial herdada de sua formação. Ao invés de cair, “erra o alvo” continuamente, descrevendo uma órbita.
É a síntese da primeira lei de Newton com a gravidade: a inércia mantém o planeta em movimento retilíneo, a gravidade o puxa para dentro. O resultado é a órbita, que pode ser elíptica, circular ou até instável, dependendo das condições.
As perturbações de outros corpos (como Júpiter sobre asteroides ou Saturno sobre luas vizinhas) explicam variações sutis e ressonâncias que só o cálculo vetorial permite descrever com precisão.
3. Rotação: o giro herdado.
A rotação dos planetas e satélites é consequência direta da conservação do momento angular. Durante a formação do Sistema Solar, nuvens de poeira e gás colapsaram sob sua própria gravidade. Qualquer pequena rotação inicial foi amplificada conforme a nuvem se contraiu. O mesmo princípio explica por que um patinador acelera o giro ao recolher os braços.
Colisões com grandes asteroides também transferiram momento angular. É provável que a inclinação do eixo da Terra (23,5°) seja resultado de um impacto colossal no passado, o mesmo que originou a Lua.
Uma vez iniciada a rotação, não há atrito capaz de detê-la no espaço. Assim, a Terra segue girando há 4,5 bilhões de anos, perdendo apenas frações de segundo ao longo dos séculos devido às marés oceânicas.
4. Movimentos adicionais.
Precessão.
A Terra não mantém o eixo fixo. O achatamento nos polos, combinado com a atração gravitacional da Lua e do Sol, faz o eixo descrever um movimento cônico lento. Esse fenômeno, chamado precessão, completa um ciclo a cada ~26 mil anos.
Nutação.
Sobre a precessão se sobrepõem pequenas oscilações periódicas, causadas pela variação da inclinação da órbita lunar.
Bamboleio de Chandler
É uma oscilação do eixo de rotação da Terra em relação à superfície, com período de 14 meses, atribuída a redistribuições de massa internas e efeitos gravitacionais.
Revolução galáctica.
Além de girar em torno do Sol, a Terra acompanha nossa estrela em uma órbita ao redor do centro da Via Láctea. Essa volta dura cerca de 225 milhões de anos.
5. O problema dos N-corpos.
Dois corpos atraindo-se podem ser descritos com exatidão matemática. Mas quando adicionamos um terceiro corpo, surgem perturbações difíceis de resolver. Esse é o chamado problema dos três corpos, insolúvel de forma geral.
A solução, na prática, vem por aproximações numéricas e simulações computacionais. É assim que calculamos trajetórias de sondas espaciais e órbitas de asteroides. O entrelaçamento de forças garante estabilidade global, mas abre espaço para instabilidades locais, como asteroides desviados para órbitas caóticas.
6. A visão relativística.
Einstein ampliou a compreensão da gravidade: não é uma força à distância, mas a curvatura do espaço-tempo provocada pela massa. Assim, planetas e satélites não são “puxados” pelo Sol, mas seguem trajetórias geodésicas em um espaço deformado.
Na prática, isso explica anomalias que Newton não previa, como o avanço do periélio de Mercúrio, e fundamenta tecnologias modernas como o GPS, que precisam considerar efeitos relativísticos para funcionar com precisão.
7. Síntese.
•Translação: surge da combinação entre a velocidade inicial do corpo e a atração gravitacional do astro central.
•Rotação: é herança do momento angular adquirido na formação planetária, conservado no tempo.
•Movimentos adicionais: precessão, nutação, bamboleio e revolução galáctica derivam de perturbações e interações múltiplas.
•Conservação e equilíbrio: massas e distâncias determinam o balanço entre atração e movimento inercial.
•Relatividade: acrescenta a ideia de que gravidade é geometria do espaço-tempo, não apenas força vetorial.
Conclusão.
O que mantém o balé cósmico não são forças misteriosas, mas os mesmos princípios que engenheiros e físicos conhecem desde a juventude: inércia, gravidade e conservação do momento angular. O espaço sideral é um imenso laboratório onde essas leis se manifestam de forma pura, quase sem interferências externas.
Cada planeta que gira, cada lua que orbita, cada estrela que percorre a galáxia é testemunho da elegância matemática que Newton formulou, que Einstein refinou e que hoje supercomputadores continuam a explorar.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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