A ausência do presidente Lula diante da tragédia que se abateu sobre o Rio — uma tragédia que não é apenas policial, mas social, moral e política — expõe uma ferida aberta na relação entre o governo federal e o sofrimento real do povo brasileiro. Enquanto o país inteiro assiste ao luto de famílias dilaceradas pela guerra do tráfico e pela morte de policiais, o chefe de Estado preferiu o endeusamento dos palcos da COP-30, onde fala de reflexões e não dos fatos que destroem a capital carioca. A omissão se converte, assim, em mensagem: o Rio de Janeiro, com toda sua dor, não cabe na agenda de quem deveria conduzir a nação.
A política do afastamento.
Ao se esquivar do enfrentamento direto da crise carioca, Lula reafirma um padrão de comportamento que acompanha sua trajetória política recente — o da negação da realidade quando ela contraria seus interesses eleitorais. Não é apenas a ausência física que incomoda, mas a ausência moral e institucional. O presidente não vê vantagem em se associar a um tema que divide o país entre o “politicamente correto” e o “pragmatismo da ordem”. O resultado é a sensação de abandono de uma população refém do medo, das armas e da indiferença.
O negacionismo de Lula é político e simbólico: enquanto o sangue corre nas vielas do Rio, o discurso oficial insiste em atribuir a tragédia à “herança estrutural” e a “problemas históricos” — uma forma de adiar indefinidamente a responsabilidade do presente. O que se espera de um líder é presença, não desculpa. É gesto, não evasiva. E o gesto faltou.
O contraste com quem enfrenta.
Enquanto o Palácio do Planalto se mantinha em silêncio, o governador Cláudio Castro, ainda que criticado, mostrava-se presente. Pode-se discutir os métodos, mas não se pode negar a coragem de enfrentar o inimigo que o governo federal prefere tratar com luvas políticas. Castro não fugiu da cena; assumiu o papel que lhe cabia diante da guerra urbana que se tornou o cotidiano dos cariocas.
O contraste é cruel: de um lado, um líder que se expõe para defender a ordem; de outro, um presidente que se esconde sob a capa da “neutralidade federativa”. A verdade é que, ao evitar o Rio, Lula não evita o problema — apenas o transfere aos ombros dos outros, e com isso perpetua o ciclo de abandono que consome o estado há décadas.
O cálculo eleitoral.
Nada na política de Lula é casual. Sua ausência no Rio tem cálculo. Enfrentar o tráfico e apoiar a ação policial seria perder o apoio das alas progressistas que enxergam “excesso” em qualquer reação do Estado. Já comparecer ao local do luto sem anunciar medidas concretas seria reconhecer impotência. Assim, optou por não estar — nem de um lado, nem do outro — acreditando que sua opção política local e a incapacidade financeira da União consumida pelas gastanças eleitorais, passem para o esquecimento e que o tempo dilua a dor coletiva.
Mas o que Lula parece ignorar é que a omissão também comunica e que esse gesto pode contaminar as outras capitais vitimadas por traficantes. O povo percebe quem compartilha a dor e quem se esquiva dela. A ausência do presidente no Rio fala mais do que qualquer discurso sobre “união nacional”. Fala da desconexão entre o poder e a realidade. Fala da distância entre Brasília e o asfalto manchado de sangue nas favelas e periferias.
A tragédia que pede liderança.
O Rio de Janeiro não precisa de discursos tardios, mas de liderança real. O país assiste a um colapso de segurança que desafia a soberania do Estado — e não há soberania onde o crime impõe fronteiras e regras próprias. O silêncio de Lula é, portanto, um ato político de rendição: ao não se manifestar, ele confirma a incapacidade (ou a falta de vontade) de coordenar uma resposta nacional à criminalidade organizada.
A história ensina que grandes líderes emergem nos momentos de crise, não nos palanques. O Brasil esperava um presidente à altura da dor do seu povo; encontrou um estrategista eleitoral de gabinete. O que se perde com isso não é apenas a autoridade de um governante, mas a confiança do cidadão de que o Estado ainda é capaz de proteger.
O negacionismo como método.
Negar o problema é o primeiro passo para perpetuá-lo. Lula, ao evitar o tema, reproduz a velha tática de transformar o caos em narrativa política: enquanto o povo se debate com a insegurança, o governo prefere falar de “reformas sociais”, de “inclusão” e “justiça” — conceitos nobres, mas que se tornam vazios quando o cidadão, sob o efeito doloroso de uma guerra, precisa de algo mais imediato: segurança, paz e dignidade.
Negar o tráfico é negar o sofrimento das mães, o medo das comunidades, o heroísmo dos policiais mortos, a agonia das crianças que crescem entre tiros. É negar o país real, aquele que não cabe nos discursos, mas vive nas vielas e nos becos da vida cotidiana.
Conclusão: o preço do silêncio.
O negacionismo de Lula tem custo. Custa vidas, custa esperança, custa legitimidade. Um presidente que não enxerga a tragédia do Rio de Janeiro como questão nacional se distancia da própria essência do cargo que ocupa. Governar é enfrentar o que dói, não fugir do que divide. O povo não exige perfeição — exige presença. E na ausência do presidente, o crime ocupa o espaço vazio deixado pelo Estado.
O Rio de Janeiro não precisa de promessas. Precisa de coragem.
E o Brasil precisa de um presidente que enxergue o país como ele é — não como gostaria que fosse.
Analista colaborador do Resumo Política







