A notícia do voto da ministra Isabel Gallotti, do TSE, pela cassação do governador Cláudio Castro caiu como uma tempestade sobre o Rio de Janeiro — ou, talvez, como a estiagem que faltava para incendiar um clima político já em brasa.
Num Estado onde a segurança pública voltou a ser símbolo de resistência, e onde o governo reconquistou parte da confiança perdida, a possibilidade de cassação soa como uma provocação.
Cláudio Castro não é unanimidade — mas obteve algo raro: 84% de aprovação nas comunidades e favelas, lugares onde o Estado, por décadas, foi apenas sinônimo de ausência. Esse dado, por si só, explica o que está em jogo: a proximidade do povo com o poder.
Entre a burocracia e a realidade.
O julgamento em Brasília segue o rito frio das leis eleitorais, das planilhas e dos pareceres. Mas o Rio vive outra lógica — a da sobrevivência.
Enquanto ministros analisam números e tecnicalidades, o povo das favelas, das comunidades e das periferias observa com medo de voltar à desordem.
Há momentos em que a justiça formal precisa dialogar com a justiça social. O Rio atravessa um deles.
Cassá-lo, sem reconhecer o esforço visível de reorganização da segurança e da presença do Estado, seria interpretar a lei sem entender o país.
O Brasil já vive uma perigosa desconexão entre os gabinetes e as ruas.
Se essa distância se ampliar, o risco de uma rebelião civil, silenciosa ou ruidosa, se tornará real.
O que está em jogo.
A figura de Cláudio Castro, com todas as suas contradições, passou a representar algo mais que um governo: representa a resposta da população à omissão histórica.
Pela primeira vez em muito tempo, as forças policiais foram reorganizadas, a presença do Estado voltou às comunidades e o discurso da tolerância com o crime perdeu espaço.
Cassá-lo agora seria interromper um processo que, embora incômodo a muitos, devolveu à população a sensação de ordem e pertencimento. Estamos diante do risco de alguém, com poder bélico e apoio popular, resolver não acolher uma decisão que lhe pareça injusta.
É verdade que a lei deve valer para todos, e que irregularidades eleitorais não podem ser ignoradas.
Mas também é verdade que a democracia exige sensatez: o tempo da política não pode destruir o tempo da reconstrução.
A lucidez como última fronteira.
A lucidez, hoje, é a última trincheira entre o equilíbrio e o caos.
Se o julgamento se transformar em instrumento de revanche política, o TSE não estará apenas cassando um mandato — estará reabrindo a ferida mais dolorosa do país: o divórcio entre o povo e as instituições.
Cláudio Castro representa, para muitos, a primeira liderança que teve coragem de enfrentar o crime organizado sem pedir licença à conveniência política.
Punir essa postura, ainda que indiretamente, seria sinalizar que a coragem é erro e que a omissão é virtude.
Conclusão.
O Brasil precisa de leis, mas também de sensatez.
O Rio de Janeiro precisa de paz, não de vácuo político.
E a população precisa sentir que a Justiça entende o que ela vive, e não apenas o que está escrito nos códigos.
Que o TSE julgue com prudência.
Porque, se a razão for vencida pela letra fria, a rebelião não virá das armas — virá do desespero.
Analista colaborador do Resumo Política







