Na política, quase nada acontece por acaso, e muito menos em anos que antecedem uma eleição presidencial. A diferença entre a superexposição de Lula e o recolhimento calculado de Tarcísio de Freitas não decorre de estilo pessoal, temperamento ou acaso. É o resultado direto de análises estratégicas conduzidas por marqueteiros que enxergam, com clareza, que cada um deles tem um ponto de partida distinto — e busca um destino eleitoral igualmente diferente.
Enquanto Lula tenta crescer para fora do próprio campo, Tarcísio tenta consolidar o seu. São movimentos que se chocam até visualmente: de um lado, um presidente onipresente, verbal, hiperexposto; de outro, um governador silencioso, moderado e disciplinado no recolhimento. Mas, quando analisados pela lógica eleitoral, fazem sentido.
Lula: a aposta total no Centro.
A base ideológica de Lula está estabilizada. A esquerda que votaria nele já está dada, numericamente limitada e, em termos estratégicos, incapaz de sustentar uma vitória nacional sozinha. O PT sabe disso há décadas. As vitórias de Lula sempre dependeram da capacidade de penetrar no eleitorado moderado, urbano, de classe média, pragmático e avesso ao radicalismo.
É sobre esse eleitor que Lula investe agora, com insistência.
A superexposição é intencional. Aparecer em tudo — inaugurações, viagens, discursos, eventos internacionais, entrevistas — faz parte de uma estratégia clássica chamada normalização da presença: quanto mais ele aparece, menos “estranho” se torna para o eleitor que não é de esquerda. O objetivo é suavizar a rejeição.
O diagnóstico do marqueteiro lulista é simples:
Lula só tem chance se for percebido como estadista, não como líder partidário.
Por isso:
•fala mais do que deveria;
•assume pautas moderadas;
•repete mensagens conciliatórias;
•tenta reduzir arestas;
•busca imagens de harmonia institucional;
•evita o tom de confronto que marcou a esquerda nos últimos anos.
A comunicação aposta que, se Lula parecer “inevitável”, parte do eleitorado do Centro votará nele por cansaço dos extremos — ainda que sem entusiasmo.
É uma estratégia de saturação e desgaste planejado do adversário.
Funciona? Depende.
Mas é, sem dúvida, o único caminho disponível.
Tarcísio: unidade antes da ambição.
Tarcísio de Freitas está em posição completamente diferente. Ele não precisa ampliar nada por enquanto — precisa unificar. A direita brasileira, hoje, é fragmentada, competitiva e marcada pelo personalismo. Metade se organiza em torno da memória bolsonarista; outra metade busca renovação; e uma parte quer apenas um gestor eficiente que não seja nem PT nem Bolsonaro.
Tarcísio tem potencial para ocupar esse espaço. Mas ainda não o ocupa.
Por isso seu marqueteiro insiste:
“Não abandone São Paulo antes de unir a direita.”
Os motivos são claros:
1.Sem unidade, a aventura nacional vira suicídio político.
Concorrer com a direita dividida significa perder do PT no segundo turno.
2.A reeleição em SP é praticamente garantida.
Ninguém troca certeza por incerteza sem uma estrutura sólida de apoio nacional.
3.A direita precisa de tempo para recalibrar seu centro gravitacional.
O bolsonarismo ainda existe, mas perdeu centralidade emocional.
4.Tarcísio só vence como candidato de consenso — não como candidato de ruptura.
Daí o recolhimento calculado.
Silêncio não é ausência; é estratégia.
Quem fala muito atrita. Quem se recolhe preserva capital político.
Tarcísio não quer disputar o protagonismo da direita agora porque qualquer movimento precipitado pode:
•irritar o bolsonarismo raiz,
•dividir o campo conservador,
•provocar recuos do eleitor moderado,
•criar uma imagem de ambição descontrolada,
•e, principalmente, reduzir sua chance de unificação futura.
A direita só vence se estiver unida.
E Tarcísio sabe que, se atacar demais, vira adversário interno;
se falar demais, vira alvo;
se aparecer demais, vira ameaça antes da hora.
Silêncio, no caso dele, é um investimento.
Dois caminhos opostos para o mesmo destino:
Lula tenta expandir.
Tarcísio tenta condensar.
Lula quer entrar no Centro.
Tarcísio quer reunir a direita.
Lula precisa se mostrar.
Tarcísio precisa se guardar.
Lula corre contra o tempo.
Tarcísio ganha com o tempo.
Lula depende da exposição.
Tarcísio depende da discrição.
São movimentos que se explicam pela matemática eleitoral:
•Lula já tem a esquerda; falta-lhe o Centro.
•Tarcísio já tem a gestão; falta-lhe a direita unida.
E, no fundo, ambos sabem:
•Lula cresce falando.
•Tarcísio cresce calando.
O fator Bolsonaro: a sombra que pesa sobre um e beneficia o outro.
Há ainda um elemento silencioso:
Bolsonaro é problema para Lula e obstáculo para Tarcísio.
Para Lula, Bolsonaro é o adversário preferido — o que mais une o antipetismo moderado ao petismo orgânico. A presença do ex-presidente nas manchetes reforça a narrativa de que Lula seria o “mal menor” ou a “garantia de estabilidade institucional”.
Já para Tarcísio, Bolsonaro é a sombra que impede sua ascensão plena.
A unificação da direita só ocorrerá no momento em que:
•Bolsonaro indicar claramente seu apoio a Tarcísio e
•os bolsonaristas aceitarem um novo líder.
E esse processo não é rápido — exige tempo político para aceitar e pacificar a família, e, sobretudo, silêncio estratégico.
Conclusão: a lógica dos dois projetos
No fim, tudo se resume a uma lógica simples:
•Lula aposta no Centro porque não tem como crescer na esquerda.
•Tarcísio já sabe que tem o Centro e aposta na unidade da direita porque não tem como vencer sem ela.
Um fala para ganhar amplitude.
O outro se cala para ganhar convergência.
A exposição de Lula e o recolhimento de Tarcísio não são fraquezas ou virtudes — são escolhas.
Cada um, dentro da realidade que enfrenta, está fazendo exatamente o que sua estratégia exige.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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