Poucas estruturas públicas simbolizam tão bem o descompasso entre função estatal e realidade contemporânea quanto os Correios.
O órgão que um dia foi essencial para cartas, documentos e comunicações oficiais tornou-se, nas últimas décadas, uma entidade sem finalidade administrativa real, mantida não por necessidade pública, mas por cálculo político e eleitoral.
A modernização dos mercados, a digitalização dos processos e o avanço logístico da iniciativa privada tornaram os serviços tradicionais dos Correios obsoletos.
O país não depende mais deles — mas os governos dependem.
1. Um serviço superado pelo mercado, mas preservado pela política.
Os serviços que justificavam a existência dos Correios foram destruídos por:
•e-mail,
•plataformas digitais,
•autenticações eletrônicas,
•operadores privados de entrega rápida.
Ainda assim, o Correio continua existindo como um organismo pesado, caro e amplamente politizado.
Sua utilidade não é mais administrativa — é eleitoral.
E parte disso ficou claro em 2014.
A politização explícita: o caso Dilma–Correios.
Na campanha de reeleição de Dilma Rousseff, os Correios foram usados oficialmente para distribuir material de campanha — o que é permitido por lei desde que haja pagamento.
Mas o problema não foi o contrato.
Foram as denúncias de favorecimento, feitas à época por partidos de oposição e confirmadas por depoimentos de funcionários:
•suposta priorização de material do PT,
•atrasos e extravios de panfletos do adversário,
•pressões internas em diretorias,
•relatos de aparelhamento da estrutura regional.
O TSE investigou e reconheceu falhas graves na operação dos Correios durante o período eleitoral, embora não tenha havido condenação.
O episódio, porém, deixou uma marca definitiva:
Os Correios haviam deixado de ser um serviço público neutro e se transformado num instrumento político de campanha.
O fato reforça exatamente o ponto central do ensaio:
o governo não preserva a estatal por necessidade funcional — mas por utilidade eleitoral.
2. O mecanismo do drible institucional: como financiar um prejuízo permanente.
A legislação impede que o Tesouro Nacional faça empréstimos diretos a estatais deficitárias.
Mas quando a estrutura é politicamente útil, cria-se o caminho paralelo:
1.Os Correios contraem empréstimos em bancos privados.
2.O governo entra como avalista da operação.
3.Quando o déficit aparece — e ele sempre aparece — o Tesouro cobre o rombo por responsabilidade solidária.
É um mecanismo disfarçado, porém óbvio:
➡️ não se pode dar dinheiro diretamente, então cria-se a dívida, garante-se, e paga-se depois.
A lei é cumprida no papel — e violada no espírito.
3. O prejuízo é parte do projeto, não um acidente.
Os Correios permanecem deficitários porque o déficit é funcional.
Ele:
•justifica aportes,
•alimenta narrativas de “serviço essencial”,
•sustenta o cabide de cargos,
•mantém a rede de influência,
•reforça bases políticas em municípios.
A eficiência nunca foi prioridade.
A sobrevivência política sempre foi.
4. O Correio como símbolo do desperdício público.
A estatal se transformou em um monumento ao desperdício:
•estrutura inchada,
•baixa produtividade,
•pouca relevância econômica,
•forte uso político,
•captura partidária.
Enquanto isso, empresas privadas:
•entregam mais rápido,
•organizam melhor a logística,
•trabalham com rastreamento em tempo real,
•usam inteligência de rota,
•operam com custos menores.
Mas não possuem o que o governo mais valoriza:
capilaridade política.
Por isso, o Correio é preservado — não como serviço, mas como instrumento.
5. A privatização: solução adiada por conveniência.
Durante quase duas décadas, discutiu-se privatizar os Correios.
Hoje, a pergunta é se ainda há o que privatizar.
A concorrência privada tomou o mercado.
A estatal ficou com os custos, não com a relevância.
Privatizar agora seria consertar uma estrutura quase irreversível — mas ainda assim preferível a mantê-la.
O problema não é técnico:
é que o governo não abre mão do poder que a estatal representa.
6. O paralelo estrutural: a mesma irracionalidade aparece no clima global.
A insistência do governo em preservar estruturas improdutivas lembra, em outro nível, a irracionalidade do debate climático global, onde se discute CO₂ enquanto o verdadeiro perigo — o metano do Ártico — é ignorado.
E é exatamente assim que o problema se comporta:
“Quando o Ártico aquece, o gelo que protegia o permafrost se desfaz. O solo morto, antes inerte, desperta. Milhares de anos de matéria orgânica presa voltam a ser devoradas por micro-organismos, que retomam sua atividade metabólica e liberam metano em volumes colossais, escapando para a atmosfera como uma bomba climática silenciosa.”
Assim como a imprensa ignora estruturas e se apaixona por ruídos, o governo ignora a eficiência e se apaixona pelo poder.
Conclusão: o nó do Correio é político — não administrativo.
O Correio não é um problema técnico, muito menos logístico.
É um problema político, fiscal e moral.
Ele perdeu:
•função administrativa,
•justificativa econômica,
•necessidade operacional.
Mas conservou o que mais interessa ao governo:
•capilaridade,
•máquina de nomeações,
•presença nacional útil em campanha,
•capacidade de influenciar territórios eleitorais.
O Correio é um corpo morto que continua de pé — não por utilidade pública, mas por conveniência governamental.
E enquanto o país sustentar estruturas assim, não haverá austeridade, eficiência ou modernização que se imponha.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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