Governos sempre têm uma figura técnica que funciona como coluna de sustentação. Em alguns casos, essa figura aparece por necessidade; em outros, por acidente. Mas, quando ela surge, destaca-se pela clareza do discurso, pela firmeza das convicções e pela capacidade de explicar o país sem recorrer aos filtros ideológicos que aprisionam a política. No governo Lula, esse papel vem sendo ocupado — silenciosamente, mas com crescente força — pelo Ministro dos Transportes, Renan Filho. A semelhança com Tarcísio de Freitas não é exagero: é um diagnóstico.
Assim como Tarcísio emergiu no governo Bolsonaro como um gestor de ponta, admirado pela capacidade técnica, respeitado pelo Centro e o setor produtivo ainda que desconfortável para o núcleo ideológico, Renan Filho surge agora como o ponto de lucidez técnica dentro de um governo que oscila entre nostalgia estatal e pragmatismo envergonhado. E a entrevista que concedeu à Band News evidenciou essa realidade.
Um ministro que fala o que o governo, ingenuamente, esconde.
Enquanto o “ establishment “ resiste em reconhecer o papel do capital privado, preferindo celebrar a presença do Estado como protagonista absoluto das transformações em curso, Renan revela modernidade: deu nome aos trechos, alegou a importância das parcerias e investidores, fundamentou a lógica da atração do capital privado com clareza e sem rodeios, alertando que os maiores avanços logísticos do Brasil dependem fundamentalmente da participação privada — concessões, arrendamentos, armazenagens, parcerias e investimentos diretos que vêm remodelando portos, ferrovias e rodovias estratégicas.
Ao falar isso, Renan não confrontou ninguém, apenas mostrou-se contemporâneo com a modernidade. Ao que parece se firmou como alguém que não chegou ali para repetir slogans, e sim para explicar o país real — aquele que pede eficiência, previsibilidade e capital produtivo.
É inevitável lembrar de Tarcísio, que também ganhou luz ao falar abertamente sobre a necessidade de concessões num governo que, à época, convivia com uma ala oposicionista barulhenta. Renan, assim como Tarcísio, compreende uma premissa simples: não existe infraestrutura moderna sem dinheiro privado — e o Brasil não tem caixa para fazer sozinho.
O mapa logístico que Renan enxerga — e Lula evita comentar.
Na entrevista, destacou aquilo que ninguém neste governo consegue verbalizar com clareza e o agronegócio precisa ouvir sobre a expansão dos corredores logísticos do Sudeste e do Centro-Oeste, ligando principalmente os portos de Santos, no Sudeste/Centro-Oeste a Itaqui no Norte/Nordeste que deverá garantir a competitividade da produção agrícola brasileira. Ele citou processos, obras e parcerias que estão permitindo isso — e que dependem muito mais do apetite privado do que da capacidade fiscal do Tesouro.
Esse discurso é antiburocrático, anticorporativista e anti-ideológico. É lógico, técnico, direto, baseado na constatação evidente de que porto, ferrovia e rodovia exigem escala de investimentos que o setor público não consegue sustentar.
O ministro foi eficiente ao mostrar que as rotas de escoamento agrícola estão se consolidando não porque o governo é capaz de investir sozinho mas porque há capital privado entrando com interesse na expansão do agronegócio brasileiro. É o capital privado que está destravando os gargalos, acelerando obras e empurrando o Brasil para uma logística compatível com sua posição global.
Ao explicitar isso, se coloca numa posição rara: a do ministro que amplia a credibilidade do governo quando fala — e, ao mesmo tempo, expõe o velho e superado sentimento ideológico que não tem mais lugar no atual momento mundial.
A independência política que incomoda.
O governo Lula gosta de ministros alinhados ao discurso, mesmo que não entreguem resultados concretos. Renan Filho, ao contrário, vem entregando. E entrega porque pensa fora do eixo ideológico. Foi um ótimo governador. É técnico, tem preparo, conhecimento do setor e domina com precisão a linguagem da gestão pública — coisa que vem de berço e prática: governou seu estado, coordenou infraestrutura, viveu a máquina por dentro.
Esse conjunto produz um efeito inevitável: autonomia política.
A autonomia é boa para o país, mas péssima para quem governa com base no controle interno e no monitoramento de discursos. Quando um ministro começa a falar com mais autoridade do que deveria, surgem ruídos. E Renan atingiu esse ponto. Sua entrevista foi um divisor de águas: mostrou que ele possui musculatura própria, que sabe explicar o país melhor do que muitos cardeais do Planalto e que está, discretamente, construindo reputação acima do governo.
Tarcísio viveu algo semelhante. Ele cresceu tanto como gestor que o governo anterior passou a depender dele — e, simultaneamente, a temê-lo politicamente. Renan cresce na mesma direção. No Planalto, isso não passa despercebido.
A escalada técnica e política de Renan Filho.
Renan Filho não é apenas o ministro dos Transportes. Ele se tornou referência técnica dentro do governo, um dos poucos nomes que conseguem dialogar com:
•o agronegócio;
•o setor de infraestrutura;
•os investidores privados;
•os operadores de concessões;
•e a imprensa especializada.
Ele fala com todos os lados sem se submeter a nenhum. Isso é raro. E essa raridade o aproxima, mais uma vez, da trajetória de Tarcísio, que transitava com facilidade entre militares, empresários, operadores logísticos e formadores de opinião.
O destino de ministros assim costuma ser parecido: tornam-se maiores do que os governos que os abrigam. Renan se encaminha para isso. Sua figura se nacionaliza, sua imagem se depura, sua fala se fortalece. Ele não grita, não confronta, não critica o governo — mas diz, com naturalidade, aquilo que precisa ser ouvido.
O paradoxo de Lula.
Lula sabe que precisa de Renan. Precisa porque sem ele o governo perde a narrativa técnica. Sem ele, o discurso sobre “investimentos” se mostra oco. Sem ele, a ponte entre governo e setor produtivo se afina perigosamente. Mas, ao mesmo tempo, Lula evita criar ciúmes porque sabe que seu ministro fala uma língua que sua base histórica não gosta de ouvir: a modernidade da fórmula que apresenta resultado.
E resultado, no Brasil, quase sempre nasce de equilíbrio entre Estado e iniciativa privada — não da fantasia da onipresença estatal.
Conclusão: Renan é o Tarcísio que Lula precisaria assumir.
Hoje, Renan Filho ocupa um lugar estratégico: é o ministro que melhora a credibilidade do governo e, simultaneamente, revela suas contradições. Seu discurso lúcido, técnico e pragmático o eleva acima do ambiente ideológico que o cerca. Sua competência incomoda. Sua clareza expõe. Sua autonomia o fortalece.
Por tudo isso, a frase é verdadeira:
Renan Filho é o Tarcísio de Freitas que Lula evita admitir que precisa demitir para salvar seu governo.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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