Possivelmente as altas lucratividades e o sigilo abusivo dos custos praticados pelo setor bancário brasileiro sejam os responsáveis por aventureiros despreparados e aéticos – caso Banco Master – busquem margens semelhantes aos traficantes de drogas.
No Brasil, o cliente bancário vive dentro de um sistema que o obriga a pagar por custos que não lhe pertencem, financiar riscos que não são seus e sustentar lucros extraordinários que não são fruto de eficiência, mas de engenharia regulatória. É um arranjo institucional raro no mundo: o usuário paga tudo, o banco nunca paga nada — e o regulador não apenas permite, como legitima.
A formação das taxas bancárias é apresentada ao público como um processo técnico, racional, matemático. Mas, na prática, ela funciona a partir de uma equação fixa que protege a margem bancária a qualquer custo:
Preço ao cliente = custo + risco + tributos + margem de lucro — sendo a margem sempre intocável.
Se o custo sobe, o preço sobe.
Se o custo cai, o preço não cai.
Se o risco diminui, o spread não acompanha.
Se o risco aumenta, o consumidor paga imediatamente.
E isso só é possível porque existe um conjunto de normas, regras e aprovações que permitem que a conta seja sempre repassada ao cliente.
O papel invisível do regulador.
Os custos que o banco repassa ao consumidor não são apenas “internos”; muitos são definidos ou exigidos pelo Banco Central, CMN e estruturas internacionais como Basileia.
E aqui está o ponto central: o regulador não proíbe o repasse, não exige transparência, não obriga que custos sejam absorvidos pela instituição.
O resultado é sempre o mesmo:
1.O regulador cria uma obrigação.
2.O banco repassa ao cliente.
3.O banco preserva sua margem.
4.O usuário paga a conta inteira.
5.O regulador aceita como natural.
É um modelo em que a autoridade, ao invés de proteger o consumidor, protege a estabilidade de lucros do setor.
FGC — o custo privado pago pelo público.
O FGC é o melhor exemplo dessa distorção.
A narrativa pública diz que “os bancos pagam o FGC”.
A realidade: o cliente financia integralmente o fundo.
A contribuição mensal entra na estrutura de preços antes mesmo do banco recolhê-la ao FGC.
Isso significa que o banco paga formalmente, mas o consumidor paga economicamente.
E pior: sobre esse custo repassado, o banco aplica margem de lucro.
Ou seja, lucra em cima de um custo que deveria ser exclusivamente da instituição.
Não existe transparência sobre isso.
Nenhum extrato bancário informa: “Tarifa FGC”.
Ela aparece diluída no spread, nas tarifas e na rentabilidade reduzida dos investimentos.
É uma maquiagem contábil que transforma custo obrigatório da instituição em receita indireta.
Compulsório, risco e inadimplência: a conta sempre chega ao cliente.
O compulsório — dinheiro do cliente que fica parado no Banco Central — também é tratado como custo bancário. Mas esse custo nunca reduz lucro; é apenas repassado.
O mesmo ocorre com o risco de crédito.
O cliente que paga em dia financia o cliente inadimplente.
E quando a inadimplência cai, a taxa não cai.
O spread permanece alto porque o ajuste nunca é devolvido ao pagador regular.
É um sistema em que o risco é compartilhado para cima (cliente paga mais), mas os benefícios são privatizados para baixo (banco lucra mais).
Os seguros bancários invisíveis — e o lucro quando nada acontece.
Poucos sabem, mas o cliente também paga por toda a infraestrutura de segurança do banco:
•seguro contra explosão de caixas eletrônicos,
•seguro de cofres e salas blindadas,
•seguro de transporte de valores,
•seguro contra arrombamento,
•sistemas biométricos, vigilância e câmeras,
•seguro de compensação de envelopes,
•manutenção de máquinas e terminais.
O banco contrata esses seguros — mas paga com o dinheiro que já cobrou do usuário.
E aqui acontece a perversidade mais silenciosa: na maior parte das agências, nenhum sinistro ocorre durante anos.
Não há explosão, não há arrombamento, não há roubo.
Mas o cliente paga mesmo assim.
Quando não ocorre sinistro, o custo que o banco disse que precisava cobrar se transforma em lucro fantasma — lucro que não vem de eficiência, mas de previsão inflada de custos nunca realizados.
É lucro sem risco.
Lucro sem esforço.
Lucro que nasce do “não acontecimento”.
E, novamente, o regulador não exige transparência nem ressarcimento.
Se a agência passa 10 anos sem incidente, o banco não devolve nada ao cliente.
TI, compliance, auditorias e custos internos repassados como tarifas.
Tudo vira custo repassado:
•compliance,
•auditorias externas,
•segurança cibernética,
•fraudes internas,
•marketing,
•erros administrativos,
•contingências trabalhistas.
Mesmo gastos gerados por falhas do próprio banco são distribuídos entre os clientes como tarifas ou spreads.
Qual o problema?
Simples: o cliente não tem escolha.
Ele não pode optar por “não pagar” o seguro do caixa eletrônico, nem o FGC, nem o custo de conformidade.
Ele não decide nada — mas paga tudo.
O aumento fantasma da lucratividade do setor.
Quando um banco anuncia lucro de R$ 20 bilhões, parte significativa desse número não vem de inovação, eficiência ou produtividade.
Vem daquilo que nunca é explicitado:
•custos que o cliente paga e não ocorrem,
•custos que o cliente paga e não pertencem a ele,
•custos que o cliente paga com margem embutida,
•riscos superestimados,
•provisões exageradas,
•spreads inflados por impostos e seguros que não são do cliente.
Esse ganho, resultante de custos inexistentes ou irrelevantes para a estrutura real, é o lucro fantasma — a engrenagem oculta da lucratividade bancária brasileira.
Não aparece no balanço como linha específica; aparece diluído como “spread”, “tarifas”, “receitas de serviços”.
O que o público vê é o número final.
O que o público não vê é a engenharia por trás.
Conclusão — O tripé invisível que sustenta as altas taxas bancárias no Brasil.
A razão das taxas bancárias absurdamente altas no Brasil pode ser resumida em um tripé:
1.O usuário paga tudo, inclusive o que não lhe pertence.
2.O banco nunca absorve custo, nunca reduz margem.
3.O regulador permite e legitima, sem exigir transparência ou separação entre custo da instituição e custo do cliente.
É um sistema fechado, opaco e matematicamente perfeito para quem lucra — e socialmente devastador para quem paga.
No Brasil, o banco não é apenas intermediário financeiro:
é o único setor em que todo custo é repassado, todo risco é transferido e toda margem é preservada, criando um ambiente onde até o que não acontece vira lucro.
Enquanto esse modelo não for exposto e revisado, o consumidor continuará financiando um sistema que vive de custos invisíveis, aprovações silenciosas e lucros que não refletem eficiência, mas sim o poder de cobrar sempre e explicar nunca.