Para José Wanderley
Há homens que o tempo não envelhece apenas ilumina. José Wanderley é um desses raros exemplos. Ao ouvi-lo, hoje, falar com a serenidade de quem compreendeu a vida, não vi apenas o médico consagrado, o deputado respeitado, o professor admirado por gerações. Vi, sobretudo, o menino de Cacimbinhas, de olhar limpo e esperança intacta, que nunca deixou de existir dentro dele.
Seu texto, simples e profundo, ecoa como uma prece: o tempo não apaga ele soma. E como soma. Soma histórias, cicatrizes, afetos, vitórias e aprendizados. Soma os rostos que encontramos pelo caminho, as mãos que seguramos, os corações que ajudamos a salvar no caso de Wanderley, literalmente. Porque há médicos que exercem a profissão, e há aqueles que a transformam em missão. Ele pertence a este segundo grupo.
Na medicina, construiu um nome que ultrapassa fronteiras, não apenas pela técnica refinada de cardiologista, mas pela escuta, pelo cuidado, pela humanidade que imprime em cada gesto. Na política, em tempos tão áridos e, por vezes, desalentadores, mantém-se como um farol de ética, decência e respeito à coisa pública um contraponto necessário a um cenário que tantas vezes nos entristece. Não faz da vida pública um palco de vaidades, mas um espaço de serviço. E isso, por si só, já o distingue.
Mas, para além dos títulos, há algo que nos une e nos explica: as raízes. O velho e querido Colégio Pio XII, em Palmeira dos Índios, onde fomos mais do que alunos fomos formados para a vida. Ali, sob a orientação daqueles inesquecíveis padres holandeses e brasileiros aprendemos lições que não cabiam apenas nos livros. Aprendemos sobre caráter, disciplina, respeito, solidariedade. Aprendemos que a vida exige mais do que talento: exige valores.
Aqueles sacerdotes, vindos de tão longe, plantaram em nós sementes que o tempo apenas fez florescer. Eram duros quando necessário, afetuosos na medida certa, e absolutamente comprometidos com a formação de homens íntegros. Hoje, olhando para Wanderley, vejo o resultado vivo daquela obra silenciosa e poderosa. E, ao mesmo tempo, me vejo também revisitando minha própria história, minhas próprias marcas, meus próprios alicerces.
Talvez seja por isso que suas palavras tenham me tocado tão profundamente. Porque nelas há verdade. E a verdade, quando dita com o coração, encontra eco em quem também carrega memórias semelhantes.
Como bem disse Cora Coralina, (citada por ele) “eu carrego comigo todas as idades”. Wanderley carrega e honra cada uma delas. E nós, que tivemos o privilégio de caminhar ao seu lado desde os primeiros passos, sabemos que o menino continua ali: curioso, sensível, comprometido com o bem.
Ao final, resta apenas concordar com admiração e emoção com o seu pensamento: seguimos com raízes firmes, memória viva e o compromisso inegociável de continuar fazendo o bem. Porque, no fundo, é isso que dá sentido à travessia.




