Há comparações que não servem para humilhar nem exaltar. Servem para iluminar. Brasil e Coreia do Sul formam uma dessas duplas improváveis: duas nações que, vistas à distância, parecem capítulos escritos por autores opostos — mas que, ao serem lidas com calma, revelam a verdade essencial sobre o destino dos países. Nada está definido pelo tamanho, pelo clima ou pela riqueza natural. Tudo depende da forma como um povo decide transformar o tempo em progresso.
No papel, o Brasil parece imbatível. É maior, mais populoso, mais rico em território e mais abundante em recursos. Produz um PIB superior ao coreano, tem água, sol, terras férteis, minérios, petróleo e uma matriz energética que o mundo inteiro admira. A Coreia, por sua vez, tem quase nada do que consideramos “riqueza natural”: é pequena, montanhosa, sujeita a invernos duros, quase sem terras agricultáveis e pressionada politicamente por vizinhos incômodos. No entanto, foi esse país limitado que decidiu não aceitar seus limites.
A Coreia não venceu pelo território: venceu pela disciplina.
Não venceu pelo tamanho: venceu pela direção.
Não venceu pelo que tinha: venceu pelo que decidiu construir.
Enquanto o Brasil crescia com a força bruta do que a natureza oferece, a Coreia crescia com a sofisticação daquilo que o conhecimento produz. Lá, o investimento deixou de ser gasto e tornou-se método. Aqui, continua a ser um debate interminável entre Estado e mercado, como se a riqueza pudesse brotar da ideologia.
O contraste é severo: a Coreia investe 30% do PIB todos os anos, e o Brasil, 17%. Mas o número seco esconde o mais importante — o tipo de investimento. Enquanto o brasileiro ainda sustenta um país que luta para cumprir o básico, o coreano financia tecnologia, robotização, semicondutores, infraestruturas inteligentes e educação superior. É natural, portanto, que a Coreia tenha um PIB per capita três vezes maior; não por mágica, mas por método. A prosperidade é, quase sempre, a soma exata do que se decide priorizar.
Educação, por exemplo, é onde os dois países se desencontram de forma definitiva. Na Coreia, estudar é parte da identidade nacional. É o ritual que antecede o futuro. No Brasil, estudar ainda é uma escolha — quase um privilégio. De um lado, 70% dos jovens chegam ao ensino superior. Do outro, apenas um quinto. Não há como uma sociedade produzir semicondutores com a mesma facilidade com que produz soja se o seu sistema educacional não fabrica, diariamente, cérebros capazes de competir no mundo digital.
Mas o ensaio não precisa seguir o caminho óbvio da crítica. É possível olhar para essa comparação e enxergar uma oportunidade — talvez a maior de nossa geração. O Brasil está entrando na década mais tecnológica de sua história. A transição energética, a bioeconomia amazônica, a agricultura digital, os minerais críticos, os semicondutores e a reorganização das cadeias globais devolvem ao país a chance que desperdiçamos tantas vezes. Não nos falta território, nem recursos, nem consumo, nem potencial. Falta direção. Falta método. Falta decidir, como fez a Coreia, que o amanhã não será obra do acaso.
Se o Brasil resolvesse investir 30% do PIB por dez anos, mesmo que do seu jeito lento e complexo, o salto seria histórico. Nossa produtividade dobraria, a pobreza cairia e a economia se reinventaria. Não porque nos tornaríamos uma Coreia tropical, mas porque finalmente abraçaríamos a lógica que transforma países em potências: a capacidade de transformar trabalho em valor, valor em conhecimento, e conhecimento em riqueza compartilhada.
A Coreia não é exemplo para nos diminuir.
É exemplo para nos despertar.
Quando comparamos os dois países, a pergunta decisiva não é “por que eles conseguiram?”, mas “por que nós não decidimos ainda?”. A lição coreana não está no passado: está na decisão que fizeram — e que podemos fazer a qualquer momento. O futuro de uma nação não é o reflexo do seu tamanho, mas da ambição que escolhe cultivar.
O Brasil tem tudo, menos o tempo para continuar adiando a transformação.
A Coreia tinha quase nada, exceto a coragem de começar.
Analista colaborador do Resumo Política







