A história política recente do Brasil transformou a palavra “justiça” em algo muito maior do que um valor institucional: virou uma identidade emocional. De um lado, há quem veja nas investigações, condenações e punições um triunfo civilizatório. De outro, há quem enxergue nas mesmas ações um aparato persecutório, manipulado por interesses políticos, midiáticos e ideológicos. Entre esses dois polos, ergueu-se um oceano de ressentimento, medo, desconfiança e ódio. É nesse cenário que se projeta a pergunta central deste ensaio: para onde caminhamos quando justiça, perseguição e rancor se tornam indissociáveis?
1. A justiça que virou campo de batalha emocional.
Justiça não é só decisão judicial; é também a percepção de justiça. E essa percepção está profundamente rachada no país.
Para metade da população, a punição de figuras da direita — militares, políticos, influenciadores, empresários — representa a reafirmação de valores democráticos. Para a outra metade, essas mesmas ações soam como anulação de adversários para preservação do poder, vingança estatal numa operação política travestida de moralidade.
O resultado disso é devastador: a justiça perdeu a capacidade de pacificação, que é sua função natural. Em vez de encerrar conflitos, passou a produzi-los. Em vez de gerar confiança, passou a espalhar medo. Em vez de simbolizar equilíbrio, tornou-se símbolo de parcialidade — ainda que, tecnicamente, decisões sejam fundamentadas.
Uma democracia fica frágil quando seus tribunais deixam de ser vistos como árbitros neutros. E no Brasil atual, a neutralidade já não é um consenso — é uma disputa cristalizada na escolha de seus julgadores.
2. A perseguição como narrativa estruturante.
Mesmo quando não há perseguição real, o sentimento de perseguição é suficiente para incendiar a política. A direita brasileira acredita que viveu um ciclo de hostilidades: prisões, cassações, inelegibilidades, demonização midiática, vigilância sobre manifestações e criminalização de lideranças.
Se esse sentimento é justo ou injusto importa menos, no plano político, do que o fato de que ele existe — e foi introjetado por milhões de pessoas.
A esquerda, por sua vez, também sente que foi perseguida: Lula preso, Dilma destituída, petistas vilipendiados.
Assim, ambos os lados se veem simultaneamente como vítimas. Isso gera um paradoxo perigoso: cada grupo usa seu sofrimento como licença moral para revidar. E é aqui que o rancor ganha estatuto de programa político.
3. Quando o rancor vira projeto de poder.
Rancor não é apenas um sentimento — é um motor político.
Governos ressentidos governam para “corrigir” a história, e não para construir o futuro. O Brasil vive essa lógica há pelo menos uma década. Cada lado que assume o poder tenta desfazer, humilhar, punir ou expor o lado que saiu.
O país virou refém de uma “democracia de acertos de contas”.
O risco maior ainda está por vir: o retorno da direita ao poder carregando a convicção de que foi injustiçada. Esse retorno, se vier sob lógica de revanche, não produzirá estabilidade. Produzirá novamente um ciclo ainda mais profundo de confrontos institucionais, anulações de punições anteriores, descrédito das cortes, alterações legais abruptas e mais pressão sobre opositores.
E a esquerda, se perder o poder, também levará consigo o seu próprio ressentimento — pronto para ser devolvido mais adiante. Trata-se do que Hannah Arendt chamava de “política do eterno retorno do ódio”.
Ninguém governa bem motivado por rancor.
Mas todos governam mal quando acreditam que governam para “corrigir a injustiça sofrida”.
4. A sociedade real, exausta e sequestrada.
Enquanto isso, a população brasileira — que não vive em bolhas ideológicas — assiste ao espetáculo com crescente cansaço. A vida real exige emprego, saúde, segurança, mobilidade, estabilidade. Mas os governantes se ocupam de narrativas, revanches, disputas judiciais e guerras simbólicas.
O brasileiro médio não quer punição eterna, nem heroísmo, nem mártires.
Ele quer normalidade.
E normalidade não existe quando o país vive como se estivesse em um tribunal permanente, julgando o passado em vez de construir o futuro. Um julgamento só é aceito como justo se for contemporâneo do fato e do governo. Fora disto será sempre visto como perseguição e revanche.
5. O papel da anistia: remédio ou veneno?
Esse é o ponto nevrálgico do futuro brasileiro. A anistia em tramitação no Congresso funciona como um divisor de águas.
Ela pode ser o remédio milagroso — ou o veneno letal.
Se a anistia for entendida como pacto de pacificação.
Ela terá força histórica.
Será um gesto nacional, não partidário.
Uma interrupção institucional do ciclo de ódio.
Uma anistia madura:
•reconhece abusos dos dois lados
•encerra a fase de punições simbólicas
•retira da política o motor do ressentimento
•permite alternância de poder sem pânico
•devolve serenidade ao processo democrático
Nesse cenário, a direita não voltaria inflamada, e a esquerda não viveria aterrorizada com o que pode ocorrer.
Se a anistia for percebida como “perdão de um lado só”.
O efeito é o oposto.
A esquerda sentirá humilhação.
A direita interpretará como licença para avançar.
O país não pacifica — apenas muda o polo do ressentimento.
Se não houver anistia.
Então o Brasil caminhará para a inevitável vingança pendular.
E esse caminho nos aproxima mais de países instáveis do que de democracias maduras.
6. O ponto cego do debate: ninguém quer soltar o passado.
No fundo, a pergunta que o Brasil evita responder é simples:
o país está disposto a abrir mão das feridas para construir algo novo?
Ou prefere continuar alimentando as feridas porque elas servem politicamente?
A verdade incômoda é que muita gente ganha com o rancor.
•Partidos faturam.
•Influenciadores se alimentam dele.
•Mídias vivem da polarização.
•Instituições aumentam poder.
•Líderes se tornam mártires.
A reconciliação não interessa aos que prosperam em cima da raiva.
Mas interessa — e muito — a quem vive do próprio trabalho e não da guerra ideológica.
7. Para onde caminhamos?
O Brasil está diante de uma encruzilhada histórica.
Não se trata de escolher direita ou esquerda.
Trata-se de escolher entre rancor e maturidade.
Caminho A — O futuro do rancor
•alternância traumática
•justiça seletiva percebida
•radicalização crescente
•discursos de ódio institucionalizados
•poderes vivendo em atrito permanente
Esse caminho nos aproxima de democracias iliberais, tensas e imprevisíveis.
Caminho B — O futuro da maturidade.
•anistia como pacto, não como arma;
•justiça reequilibrada;
•política voltada ao cotidiano;
•instituições despressurizadas;
•alternância de poder sem paranoia;
Esse caminho nos aproxima de sociedades que decidiram “seguir em frente” — como Espanha pós-Franco, Chile pós-Pinochet ou África do Sul pós-apartheid.
Conclusão: o país que escolhe entre passado e futuro.
O Brasil precisa decidir se continuará sendo uma democracia aprisionada ao passado ou se finalmente se tornará uma democracia comprometida com o futuro. Justiça é importante. Memória é necessária. Mas nenhum país prospera vivendo da humilhação mútua.
Justiça sem pacificação vira perseguição.
Perseguição sem limites vira rancor.
Rancor, no poder, vira destruição.
A pergunta “para onde caminhamos?” não é retórica — é um alerta.
Estamos a poucos passos de transformar ressentimento em sistema político.
Mas também estamos — se quisermos — a poucos passos de inaugurar uma fase menos emocional, mais racional, mais adulta da nossa história republicana.
O futuro do Brasil não depende de um lado vencer o outro.
Depende de o país vencer o pior que existe dentro de si.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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