Existe um Alagoas oficialmente narrado — cheio de obras, premiado em programas sociais e confortável nas estatísticas que melhoram ano após ano. E existe outro Alagoas, aquele vivido nas calçadas, nos ônibus cheios, nos hospitais pressionados e nas ruas onde a segurança pública não aparece com a mesma fluidez do vídeo institucional. No meio dessas duas versões, há também uma Maceió dividida entre a orla que brilha e a periferia que grita. Compreender essa fratura exige separar as gestões — estadual e municipal — sem perder de vista que o cidadão nem sempre distingue governo de prefeitura quando a vida lhe dá problemas concretos.
I. O Estado: a narrativa eficiente e a realidade que escapa pelas bordas.
O governo estadual construiu uma imagem pública sólida, quase impenetrável. E essa imagem tem base: Alagoas reduziu homicídios como nenhum outro estado brasileiro na última década. A queda é inegável, fruto de integração policial, tecnologia e inteligência. Não é propaganda vazia; é dado.
Também é fato que a educação básica, por décadas motivo de vergonha, passou a exibir índices respeitáveis. O IDEB cresceu nos anos iniciais, e programas de alfabetização foram reconhecidos fora do estado. Escolas de tempo integral se espalham pelo interior como tentativas reais de virar a página histórica do atraso.
Na infraestrutura, obras de rodovias, hospitais regionais e financiamentos internacionais reforçam a imagem de um estado que conseguiu combinar estabilidade fiscal com capacidade de investimento — algo raro no Nordeste. O turismo estadual também evoluiu, movido tanto por melhorias estruturais quanto pelo esforço constante de promoção institucional.
Mas as estatísticas que brilham de longe perdem nitidez quando se aproximam da vida cotidiana. Furtos, roubos e arrombamentos subiram, especialmente em Maceió e Arapiraca onde flanelinhas de coletes incomodam mais do que ratos. A população não vive a planilha de homicídios; vive o celular tomado, a moto roubada, o medo da esquina. A sensação de insegurança é outro dado — mais subjetivo, mas igualmente real.
No ensino médio, a evasão continua alta, e escolas do interior ainda enfrentam banheiros quebrados, falta de merenda adequada e ausência de professores em disciplinas fundamentais. Na saúde, UPAs e hospitais sofrem com superlotação em horários críticos, e exames de alta complexidade formam filas que o discurso do governo raramente menciona.
E há a velha fragilidade estrutural: mais da metade da receita dos municípios alagoanos depende de transferências federais. A economia cresce, mas cresce com muletas; é desenvolvimento que precisa de vento a favor para parecer autonomia.
A narrativa estadual é forte — forte demais. Em alguns momentos, força tanto que cria sombra. Na ausência de um contraditório político substancial, a propaganda passa a ocupar o lugar da crítica, e a crítica migra para outro território: o da rua, onde tudo o que não cabe no folder encontra boca, eco e velocidade.
II. Maceió: o paraíso da orla e o purgatório da periferia.
Se o governo estadual domina a narrativa da eficiência, a prefeitura de Maceió domina a narrativa da estética. Poucas cidades brasileiras se promovem tão bem quanto Maceió. A orla, já naturalmente uma das mais bonitas do país, virou um laboratório permanente de iluminação, paisagismo, calçadas padronizadas, ciclovias coloridas e vídeos de drone. A cidade-cartão-postal é um produto competitivo, vendido com competência para turistas e investidores.
E o resultado aparece: recordes de ocupação hoteleira, novos resorts, expansão imobiliária acelerada e uma arrecadação que cresce ancorada tanto no turismo quanto na construção civil. Maceió virou desejo nacional.
Mas, como toda cidade que se promove demais, Maceió também esconde demais. O maior desastre urbano em atividade no mundo — o afundamento provocado pela mineração — retirou mais de 60 mil pessoas de seus bairros, destruiu escolas, igrejas, parques, avenidas e memórias. Bilhões entraram para compensações, mas a reconstrução urbana ainda está longe de formar um mapa coerente. É uma ferida aberta que a comunicação oficial jamais mostra.
Fora do eixo turístico, a infraestrutura urbana revela suas rachaduras. A drenagem do Clima Bom, do Benedito Bentes, do Tabuleiro, da Santa Lúcia e do Vergel não resiste a chuvas mais intensas. Ruas alagam, casas são invadidas, comércios fecham antes da hora — e nada disso aparece na propaganda.
O trânsito da Serraria, do Barro Duro e da Mangabeira se aproxima do caos cotidiano de cidades bem maiores. O transporte público continua velho, sempre lotado e tecnologicamente atrasado. Não ha Token para regularidade e multa por atraso, não há BRT, ainda são poucos os corredores exclusivos, não há integração inteligente.
Na segurança, o cotidiano fala mais alto do que a estatística. Em bairros de classe média, arrombamentos e roubos de celulares se tornaram parte da rotina. Os flanelinhas viraram donos das ruas, na periferia, a sensação de abandono é ainda mais intensa: iluminação falha, ruas estreitas, tráfego desordenado e pouca presença policial.
Maceió tem duas faces: a que se exibe — exuberante — e a que caminha — exausta. Entre a orla e a periferia, a cidade parece mudar de país.
III. Por que o cidadão mistura tudo — e reclama de todos?
Porque a vida não separa jurisdição. A dor de cabeça não pergunta se o posto de saúde é estadual ou municipal. O ônibus atrasado não explica se o problema é da prefeitura ou da via estadual. A rua esburacada não carrega logotipo. E o medo não exige RG político.
O cidadão vive o todo.
A propaganda mostra a parte.
Essa assimetria cria o desencontro:
o Estado vende virtudes; Maceió vende beleza; a rua vende verdade.
E é pela rua que a percepção coletiva circula — crua, exagerada às vezes, justa em muitas outras, sempre mais próxima da experiência do que do marketing.
No fim, Alagoas e Maceió convivem com um paradoxo:
avançam, melhoram, se vendem bem… mas não conseguem alinhar aquilo que mostram com aquilo que as pessoas vivem.
Entre a orla que brilha e a periferia que grita, está a verdadeira essência desse desencontro:
um estado que aprendeu a se promover,
uma capital que aprendeu a seduzir,
e um povo que aprendeu a enxergar além das luzes.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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