A entropia é um dos conceitos mais profundos da física moderna. Na termodinâmica, ela descreve a tendência natural dos sistemas ao aumento da desordem. Átomos se dispersam, moléculas buscam estados menos organizados, a energia se degrada. A natureza não caminha espontaneamente para a ordem; ao contrário, toda organização exige gasto contínuo de energia para ser criada e mantida. A ordem é exceção, não regra.
Quando observamos a sociedade humana sob essa lente, percebemos que o comportamento coletivo não foge a esse princípio. A vida social, deixada ao acaso, também tende à dispersão, ao conflito e à ineficiência. Interesses individuais competem, desejos divergem, pulsões se chocam. A harmonia não é natural; é construída. E, como na física, tem custo.
Essa analogia entre entropia e organização social ajuda a compreender a origem profunda dos alinhamentos políticos conhecidos como Direita e Esquerda — não como campos morais, mas como respostas cognitivas diferentes ao mesmo fenômeno universal: a desordem natural dos sistemas.
Ordem não é virtude: é necessidade.
Na natureza, a água corre livremente, obedecendo apenas à gravidade. Mas só se torna útil ao ser humano quando é canalizada. Sem tubos, reservatórios e torneiras, a água existe, mas ao mesmo tempo que mata a sêde, cria doenças. O mesmo ocorre com a temperatura: o calor transforma, mas sem controle vira incêndio; o frio conserva, mas se não for regulado, mata. A pressão compacta e gera força, mas, sem contenção, esfacela.
Nada disso envolve juízo moral. São leis físicas.
Da mesma forma, na vida social, a liberdade absoluta não produz prosperidade. Produz dispersão. Produção, riqueza, previsibilidade e segurança só emergem quando processos são ordenados, medidos, controlados e repetidos. Não por ideologia, mas por necessidade funcional.
É por isso que atividades produtivas — indústria, agricultura organizada, engenharia, logística, infraestrutura, finanças, ciência aplicada — exigem regras rígidas, padrões e controles permanentes. Quem vive nesses ambientes aprende, não por doutrina, mas por experiência, que o improviso constante destrói resultados.
Essa vivência molda a cognição. O cérebro humano se estrutura a partir dos ambientes em que opera. Pessoas formadas em contextos produtivos tendem a desenvolver uma predisposição neural para o controle, a previsibilidade e a hierarquia funcional. Não porque desprezem a liberdade, mas porque sabem o preço da desordem.
Historicamente, é desse universo que emerge grande parte do pensamento associado à Direita: a valorização da ordem, da disciplina, da responsabilidade e da continuidade. Não como defesa do privilégio, mas como desconfiança estrutural do caos.
A desordem como fonte criativa.
No outro extremo, a desordem tem um papel fundamental. A arte, a inovação simbólica, a ruptura cultural e mesmo muitos avanços científicos nascem do erro, da transgressão e da liberdade inicial. Uma ideia nova raramente surge dentro de um manual. Ela começa confusa, caótica, imperfeita.
O artista cria no caos.
O escritor começa com páginas desordenadas.
O cientista formula hipóteses erradas antes de acertar.
Esse espaço de liberdade criativa é indispensável para o progresso humano. Sem ele, a ordem se cristaliza, vira dogma e impede o novo. Essa percepção molda outra predisposição cognitiva: a de que regras excessivas sufocam a criatividade, excluem diferenças e reproduzem desigualdades.
Daí emerge o campo tradicionalmente identificado como Esquerda: mais atento às falhas dos sistemas, às injustiças produzidas pela rigidez, à necessidade de romper estruturas quando elas deixam de servir à maioria.
Mas aqui reside um ponto frequentemente ignorado: nenhuma criação chega à sociedade sem posterior ordenamento.
O livro é editado.
A obra é curada.
A música é estruturada.
A inovação é padronizada para ser replicada.
Mesmo o caos criativo precisa, em algum momento, submeter-se à ordem para gerar valor coletivo. O conflito não é entre ordem e desordem, mas entre o momento de cada uma.
Quando a política adjetiva o método.
O erro histórico não foi a existência dessas duas visões, mas a forma como a política passou a tratá-las. Ao perceber que essas diferenças cognitivas mobilizam emoções profundas, a política deixou de discutir processos e passou a adjetivar pessoas.
Ordem virou “autoritarismo”.
Controle virou “opressão”.
Crítica virou “virtude moral”.
Disciplina virou “insensibilidade”.
A divergência funcional foi transformada em antagonismo ético. O adversário deixou de ser alguém com outro método para ser tratado como alguém com má intenção.
Esse deslocamento produziu um empobrecimento do debate público. Em vez de discutir como organizar a sociedade, passou-se a discutir quem é moralmente superior. O resultado é polarização estéril, incapaz de produzir soluções duráveis.
Pluralidade não é concessão: é condição sistêmica.
A sociedade é um sistema complexo e entrópico. Sistemas complexos só funcionam quando possuem mecanismos de ordenamento e de correção simultaneamente. Sem ordem, há colapso. Sem crítica, há apodrecimento.
Direita e Esquerda não são anomalias; são funções. Uma organiza a energia social. A outra questiona excessos dessa organização. Quando uma tenta eliminar a outra, o sistema perde equilíbrio e entra em crise — seja por estagnação, seja por explosão caótica.
Não se trata de escolher um lado como verdade absoluta, mas de reconhecer que nenhum deles, isoladamente, é suficiente.
Conclusão.
A entropia ensina uma lição incômoda:
a desordem é natural, mas improdutiva;
a ordem é artificial, mas indispensável.
A política madura não demoniza nenhum desses polos. Ela compreende sua função, administra suas tensões e impede que se transformem em ódio.
Somos plurais porque a realidade exige pluralidade. Entender isso não elimina conflitos, mas humaniza o debate. E, sobretudo, nos afasta da tentação infantil de acreditar que o outro é mau — quando, na maioria das vezes, ele apenas responde ao mundo com uma organização mental diferente.
Analista colaborador do Resumo Política







