Quanto mais se vira o lixo, mais forte é o mau cheiro.
O caso Banco Master, a inversão institucional e o risco sistêmico brasileiro.
Crises financeiras raramente começam com um colapso visível. Elas se iniciam, quase sempre, por uma sequência silenciosa de decisões mal explicadas, pressões indevidas e inversões narrativas cuidadosamente construídas. Em movimentos clássicos de advogados de defesa que não dispõem de elementos probatórios capazes de inocentar seu cliente o “ sistema “ usa o recurso de buscar deformidades processuais para inviabilizar o processo. O caso envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, caminha perigosamente por esse roteiro clássico — não pela simples existência de uma investigação, mas pelo encadeamento dos movimentos institucionais que se seguiram a ela.
O ponto central que deveria organizar todo o debate é simples, técnico e objetivo: houve ou não captação de recursos privados por meio de instrumentos irregulares, como CDBs sem lastro adequado de liquidez ou com indícios de falsificação? Essa pergunta, que deveria ser respondida com documentos, auditorias independentes e análises prudenciais, foi progressivamente empurrada para o fundo do palco. Em seu lugar, ganhou espaço uma narrativa alternativa: a de que o verdadeiro problema não estaria no banco investigado, mas no Banco Central do Brasil, acusado de ter agido de forma precipitada, excessiva ou irregular ao decretar a intervenção.
Essa inversão não é acidental. Ela obedece a uma lógica conhecida em crises regulatórias maduras: deslocar o foco do regulado para o regulador.
O primeiro movimento relevante foi a apressada decretação de sigilo e a tentativa de promover uma acareação antecipada entre agentes diretamente envolvidos nos fatos e um diretor do Banco Central. Em investigações sérias, a acareação é um instrumento final, não inicial. Serve para confrontar versões após os fatos objetivos terem sido estabelecidos. Quando utilizada antes da consolidação técnica, perde sua função esclarecedora e assume outra: criar desde cedo um conflito institucional, sugerindo uma falsa equivalência entre quem fiscaliza e quem é fiscalizado.
Em seguida, vieram as reportagens da imprensa, especialmente da Globo, apontando pressões diretas do ministro Alexandre de Moraes sobre o Banco Central no contexto do caso. Independentemente da avaliação jurídica dessas pressões, o efeito político é inequívoco: o BC passa a ser retratado como parte do problema, não como o guardião da estabilidade financeira. O debate migra do mérito técnico da intervenção para o suposto abuso de autoridade de quem a executou.
Esse deslocamento é estratégico. Ao transformar o regulador em suspeito, ganha-se tempo, confunde-se a opinião pública e cria-se um ambiente de insegurança decisória. A pergunta central deixa de ser “o banco representava risco ao sistema?” e passa a ser “o Banco Central seguiu todos os ritos administrativos?”. Em sistemas financeiros complexos, essa troca de foco é exatamente o que um agente sob suspeita deseja.
O terceiro movimento reforça essa narrativa: a entrada do Tribunal de Contas da União, buscando possíveis irregularidades procedimentais do Banco Central na decretação da intervenção. O TCU exerce papel legítimo ao avaliar legalidade administrativa, mas é fundamental distinguir — com clareza — procedimento de prudência sistêmica. O Banco Central não é um órgão cartorial; é um regulador que atua sob o princípio da prevenção de risco. Exigir “perfeição processual” diante de sinais de iliquidez ou fraude é, muitas vezes, o caminho mais curto para um colapso maior.
Politicamente, contudo, o efeito é claro: constrói-se a imagem de um Banco Central irresponsável ou excessivo, enquanto o banco investigado passa a ocupar o papel de vítima de um Estado opressor. Trata-se de uma inversão perigosa, que fragiliza não apenas o BC, mas todo o arcabouço regulatório do sistema financeiro brasileiro.
O quarto movimento fecha o ciclo: a escolha de uma delegada da Polícia Federal para avaliar se será ou não realizada uma acareação antecipada. Mais uma vez, a lógica se inverte. A PF é chamada a arbitrar um conflito narrativo antes que a apuração técnica esteja consolidada, sob forte pressão pública e institucional. Qualquer decisão — realizar ou não a acareação — passa a ser interpretada politicamente, contaminando a investigação desde a origem.
Nesse ponto, o risco deixa de ser apenas jurídico e se torna sistêmico.
Se o precedente que se forma é o de que:
•reguladores podem ser pressionados judicialmente por agir preventivamente;
•decisões técnicas podem ser revertidas por narrativas políticas;
•o custo pessoal de intervir é maior do que o de omitir;
então o incentivo perverso está criado. O próximo regulador pensará duas vezes antes de agir. E em finanças, a hesitação do regulador é sempre paga pelo público.
Nada disso elimina a necessidade de examinar, com rigor, os atos do Banco Central. Reguladores não são infalíveis. Mas há uma ordem lógica que não pode ser subvertida sem consequências graves. Primeiro, esclarece-se o fato gerador: a regularidade da captação, o lastro, a liquidez, a veracidade dos títulos emitidos. Depois, avaliam-se os meios utilizados pelo regulador. Inverter essa ordem é uma forma sofisticada — e recorrente — de defesa.
O que está em jogo não é apenas o destino de um banco específico ou de um empresário. É o sinal enviado ao mercado, aos investidores e aos próprios fiscais do sistema: quem age corre mais risco do que quem arrisca. Nenhum país com sistema financeiro sólido protege instituições suspeitas sacrificando a autoridade de seu regulador.
A história econômica é pródiga em exemplos de crises agravadas exatamente por esse tipo de complacência institucional. Sempre começa com a relativização da regra, passa pela politização da fiscalização e culmina na transformação do árbitro em culpado. O desfecho, invariavelmente, é uma conta maior — socializada, paga pelo contribuinte e pelo poupador comum.
Transformar o Banco Central em vilão pode salvar reputações individuais no curto prazo. Pode até adiar responsabilidades. Mas corrói algo muito mais valioso: a confiança no sistema financeiro brasileiro. E quando essa confiança se rompe, não há sigilo, acareação ou narrativa capaz de contê-la.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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