Eleições costumam ser explicadas como disputas de pessoas, ideias e emoções. Mas, muitas vezes, elas são decididas por algo menos visível e mais determinante: o desenho da lei eleitoral. A eleição presidencial de 2022 no Brasil é um exemplo claro disso. Jair Bolsonaro não perdeu apenas para um adversário. Ele perdeu para um modelo institucional específico, que transforma concentração demográfica em vantagem decisiva e pode decidir que a região de menor expressão econômica defina com gerenciar o Brasil.
Não se trata aqui de discutir virtudes ou defeitos pessoais, nem de recontar a campanha. Trata-se de entender como um detalhe estrutural — aparentemente neutro — foi suficiente para definir o resultado.
O Brasil adota um sistema de voto direto nacional, em que todos os votos válidos são simplesmente somados. Cada eleitor pesa exatamente o mesmo, independentemente se trata-se de um prêmio Nobel, contraventor, se vive na locomotiva econômica ou no vagão da sucata. Essa escolha carrega um princípio nobre: igualdade individual do voto. Mas ela também produz efeitos políticos claros, sobretudo em um país continental, desigual e demograficamente concentrado.
Em 2022, Bolsonaro venceu em quatro das cinco regiões brasileiras: Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte. Lula venceu apenas no Nordeste, mas com uma margem muito superior à vantagem construída por Bolsonaro no restante do país. Quando se somam todos os votos, essa concentração regional foi suficiente para inverter o resultado nacional.
O ponto central é este: o Nordeste não apenas deu a vitória a Lula; ele compensou quase integralmente as derrotas da esquerda no restante do território nacional. O saldo final da eleição — cerca de 2,1 milhões de votos — é pequeno quando comparado ao tamanho da vantagem construída em uma única região.
Esse resultado não é fruto de acaso. Ele decorre diretamente do fato de que o sistema brasileiro não pondera território, federação ou dispersão geográfica do voto. Vencer muitos estados por margens médias não tem peso adicional. Perder poucos estados por margens gigantes pode ser fatal.
Em países que adotam sistemas diferentes, como os Estados Unidos, a lógica muda completamente. Lá, o presidente não é eleito pela soma direta dos votos individuais, mas por um colégio eleitoral, que combina população com representação federativa. Cada estado tem peso próprio, independentemente de ser muito ou pouco populoso. O efeito disso é reduzir o poder de regiões altamente concentradas e valorizar a vitória distribuída no território.
Se o Brasil tivesse um modelo semelhante, Bolsonaro teria sido eleito. Não porque teria mais votos individuais, mas porque venceu a maior parte do território político do país. Ganhou em mais regiões, em mais estados e em áreas economicamente mais extensas. O sistema brasileiro simplesmente ignora esse tipo de vitória.
Esse é o “detalhe da lei” que raramente entra no debate público. A legislação eleitoral brasileira foi desenhada para evitar qualquer forma de ponderação federativa no Executivo nacional. Ela trata o país como um grande distrito único. Isso favorece regiões onde o voto é mais homogêneo, mais dependente de políticas centralizadas e mais alinhado a um mesmo discurso político.
Não há ilegalidade nisso. A lei foi cumprida. Mas há uma consequência clara: o sistema escolhe vencedores antes mesmo da campanha começar, ao definir que tipo de vitória conta mais. Em 2022, contou mais vencer muito em um lugar do que vencer razoavelmente bem em quase todo o resto.
Esse modelo cria um incentivo perverso. Em vez de buscar diálogo nacional equilibrado, campanhas passam a concentrar esforços em poucos colégios eleitorais gigantescos, onde pequenas variações percentuais produzem milhões de votos. O resultado é uma política cada vez menos territorial e cada vez mais focada em bolsões específicos de eleitorado.
Para Bolsonaro, isso teve um efeito direto. Sua base era mais espalhada, mais heterogênea e mais dependente de vitórias regionais consistentes. O sistema não recompensa esse tipo de desempenho. Ele recompensa a concentração demográfica do voto, mesmo que ela venha acompanhada de derrotas amplas em outras partes do país.
É por isso que a comparação com sistemas ponderados não é mero exercício acadêmico. Ela revela que o resultado de 2022 não foi apenas uma escolha do eleitorado, mas também uma escolha institucional. O mesmo conjunto de preferências individuais, organizado sob outra regra, produziria outro presidente.
Isso não significa que o sistema brasileiro seja antidemocrático. Significa que ele adota uma concepção específica de democracia: democracia estritamente demográfica, não federativa. Já outros países preferem equilibrar população e território, indivíduos e estados, maioria e diversidade regional.
O problema surge quando essa escolha estrutural não é debatida. Muitos brasileiros acreditam que a eleição foi decidida exclusivamente por rejeição, carisma ou narrativa. Esses fatores existiram, mas operaram dentro de um tabuleiro previamente inclinado. O detalhe da lei não é neutro. Ele molda o jogo.
A eleição de 2022 mostrou um Brasil dividido não apenas politicamente, mas geograficamente. Um Brasil urbano e concentrado contra um Brasil disperso e produtivo. O sistema decidiu que o primeiro teria mais peso.
Ao final, Bolsonaro não perdeu porque foi derrotado em quase todo o país. Ele perdeu porque perdeu muito em um lugar só. A lei transformou essa derrota localizada em derrota nacional.
Compreender isso é fundamental para qualquer debate sério sobre democracia, reforma política ou estratégia eleitoral futura. Não para questionar o resultado, mas para entender que, em política, as regras importam tanto quanto os votos. Às vezes, mais.
O detalhe da lei não aparece no horário eleitoral, não sobe em palanque e não pede voto. Mas ele decide. E decidiu.
Analista colaborador do Resumo Política







