
O discurso socialista sobre igualdade, justiça social e dignidade humana desmorona quando confrontado com a vida real. Não por falha de comunicação, mas por contradição estrutural. A distância entre o que se proclama e o que se vive em regimes socialistas não é detalhe de execução. É consequência lógica de um modelo que concentra poder, destrói incentivos produtivos e substitui prosperidade por controle.
Cuba e Venezuela oferecem hoje o retrato mais claro dessa realidade. Ambos os países preservam símbolos institucionais, mantêm governos estáveis e insistem na retórica da proteção aos mais pobres. No entanto, o quotidiano da população revela algo bem diferente. A maioria vive com rendas que não cobrem necessidades básicas, enquanto uma minoria ligada ao poder desfruta de privilégios incompatíveis com qualquer noção de igualdade.
Na Venezuela, o salário mínimo oficial equivale a poucos dólares por mês. Professores, enfermeiros, funcionários públicos e trabalhadores urbanos sobrevivem com rendas que variam entre vinte e quarenta dólares mensais. Esse valor não paga alimentação, não cobre transporte e não garante acesso a saúde digna. A sobrevivência depende de remessas do exterior, de atividades informais ou de favores. O Estado não protege. Ele tolera.
Enquanto isso, dirigentes políticos, altos funcionários da burocracia estatal e oficiais superiores das Forças Armadas operam em outro universo. Recebem gratificações extraordinárias, acesso privilegiado a dólares, combustível, veículos, moradia custeada e serviços exclusivos. No papel, seus salários podem parecer modestos. Na prática, sua renda real é dezenas ou centenas de vezes superior à do cidadão comum. A igualdade termina no discurso. O privilégio começa na estrutura.
Em Cuba, a situação é ainda mais brutal em sua rigidez. O salário médio estatal gira em torno de quinze a trinta dólares mensais, inclusive para médicos, professores e engenheiros. Não há carreira que compense. Não há mérito que eleve renda. A única diferença real é o acesso a moeda estrangeira. Quem não tem dólar não vive. Quem tem, sobrevive melhor. Quem controla o dólar manda.
A elite dirigente cubana, vinculada ao Partido Comunista, às Forças Armadas e aos conglomerados estatais ligados ao turismo, vive em um circuito fechado. Recebe bônus especiais, prêmios não declarados, acesso a lojas exclusivas, habitação diferenciada, transporte oficial e prioridade absoluta em serviços. Trata-se de uma aristocracia moderna, sem títulos nobiliárquicos, mas com privilégios tão sólidos quanto os das antigas cortes.
Essa dissociação não é acidente. É método. O socialismo não elimina desigualdades. Ele as reorganiza. Substitui a desigualdade baseada em produtividade por desigualdade baseada em lealdade política. A escassez é distribuída à base. O conforto é reservado ao topo. O discurso fala em povo. A prática governa para a elite do poder.
A retórica socialista insiste em culpar fatores externos. Embargos, sanções, conspirações internacionais. Esses fatores existem e agravam dificuldades, mas não explicam a estrutura do privilégio interno. Não explicam por que dirigentes vivem bem enquanto trabalhadores vivem mal. Não explicam por que o Estado controla tudo, mas não garante nada. Não explicam por que a igualdade prometida nunca chega à mesa da população.
Hospitais funcionam no limite, quando funcionam. Pacientes levam seus próprios medicamentos, seringas e materiais básicos. Escolas permanecem abertas, mas esvaziadas de propósito e perspectiva. Professores abandonam salas de aula porque não conseguem viver de seus salários. Jovens estudam sem acreditar que estudar mudará seu destino. O futuro deixa de ser promessa e passa a ser ameaça.
A política, nesse ambiente, se torna exercício de sobrevivência do regime, não de representação social. O cidadão não participa. Ele se adapta. Protestar custa caro. Questionar traz risco. O silêncio vira estratégia racional. A apatia não é concordância. É medo combinado com cansaço.
A migração surge como a resposta mais honesta ao fracasso do discurso. Milhões deixam Cuba e Venezuela não porque rejeitam teorias abstratas, mas porque não conseguem viver. Fogem da escassez, da humilhação econômica e da ausência de horizonte. O regime permanece. O país se esvazia. A diáspora sustenta quem ficou. O sistema ganha tempo.
O discurso socialista afirma governar em nome dos pobres. A realidade mostra que governa sobre pobres. Afirma combater privilégios. Cria castas. Afirma igualdade. Institucionaliza a desigualdade. Afirma justiça social. Entrega sobrevivência administrada.
A maior mentira do socialismo não está na promessa. Está na persistência do discurso diante da evidência. Décadas de fracasso material não produzem revisão. Produzem mais retórica. O problema nunca é o modelo. É sempre o mundo.
A realidade, porém, é teimosa. Ela se impõe no prato vazio, no hospital sem remédio, no salário simbólico, na fuga silenciosa. O socialismo pode controlar a narrativa por algum tempo. Não controla a vida. E é na vida cotidiana que seu discurso, repetido à exaustão, finalmente colapsa.
O que resta não é igualdade. É poder concentrado, escassez distribuída e uma população obrigada a sobreviver onde prometiam fazê-la prosperar.
Analista colaborador do Resumo Política







