A defesa incondicional de Israel pelos Estados Unidos costuma ser apresentada ao público como escolha moral. Democracia contra autoritarismo. Civilização contra barbárie. Sobrevivência contra extermínio. Essa narrativa tem força emocional e raízes históricas reais, mas ela não explica, sozinha, a intensidade, a persistência e o custo político do apoio americano a Israel. Para compreendê-lo, é preciso abandonar o conforto do discurso moral e observar a engrenagem do poder.
Os Estados Unidos não defendem Israel apenas porque acreditam em Israel. Defendem porque Israel se tornou parte da arquitetura do poder americano no Oriente Médio.
Desde a Guerra Fria, Washington buscou reduzir o custo direto de sua presença militar em regiões instáveis. Manter tropas em larga escala é caro, politicamente sensível e socialmente desgastante. Israel surgiu, nesse contexto, como um ativo raro. Um aliado militarmente eficiente, tecnologicamente avançado, disposto a lutar suas próprias guerras e alinhado estrategicamente aos interesses americanos. Um porta-aviões em terra firme, sem soldados americanos embarcados.
Essa utilidade prática moldou a relação muito mais do que qualquer afinidade ética abstrata. Israel oferece inteligência de alto nível, testa armamentos em cenários reais, desenvolve tecnologias militares e compartilha informações estratégicas sobre grupos jihadistas e regimes hostis. Boa parte da ajuda militar americana retorna à própria indústria bélica dos EUA, fechando um ciclo econômico e estratégico que reforça o vínculo.
Mas a geopolítica externa não explica tudo. O apoio a Israel também é produto da política interna americana. Nos Estados Unidos, política externa passa pelo Congresso, e o Congresso responde a eleitores. A comunidade judaica americana, altamente organizada, politicamente ativa e influente em setores-chave da sociedade, mantém Israel como tema sensível e permanente no debate público. Não é um bloco monolítico, mas é consistente o suficiente para tornar o apoio a Israel uma posição segura para a maioria dos políticos.
A isso se soma um fator menos discutido, mas numericamente decisivo: o eleitorado evangélico conservador. Para milhões de americanos, Israel não é apenas um aliado estratégico, mas um elemento central de uma narrativa religiosa. Defender Israel, nesse universo, não é política externa. É fidelidade bíblica. Esse apoio não depende de governos israelenses específicos nem de avaliações sobre direitos humanos. Ele é estrutural, emocional e eleitoral.
Há ainda a dimensão histórica. O trauma do Holocausto marcou profundamente a construção da ordem internacional do pós-guerra. Os Estados Unidos, que emergiram como potência hegemônica após 1945, incorporaram a defesa de Israel como parte de um compromisso moral implícito. Israel passou a representar a garantia de que o fracasso moral da humanidade no século XX não se repetiria. Essa memória moldou gerações de diplomatas, políticos e eleitores.
Com o tempo, esse compromisso moral se institucionalizou. Virou reflexo automático. Criticar Israel passou a ser confundido com negar sua legitimidade. Questionar ações de governos israelenses passou a ser tratado como ameaça existencial. O debate foi empobrecido, mas o alinhamento se fortaleceu.
Hoje, esse apoio encontra seu eixo mais concreto no confronto com o Irã. Para Washington, o Irã representa um desafio duplo: regional e simbólico. Regional, porque disputa influência no Oriente Médio por meio de milícias, aliados e projeção militar indireta. Simbólico, porque desafia a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Israel tornou-se a linha de contenção avançada desse confronto. Ataca, dissuade, reage e pressiona, enquanto os EUA observam, apoiam e calibram.
Romper ou enfraquecer essa aliança teria custos elevados. Enviaria sinal de instabilidade a outros aliados, abriria espaço para adversários estratégicos e exigiria maior envolvimento direto americano na região. Na lógica do poder, manter Israel forte e alinhado é mais barato do que redesenhar o tabuleiro.
Nada disso significa que o apoio seja isento de tensões. Ele não é. Dentro dos Estados Unidos, especialmente entre jovens, universidades e setores progressistas, a relação com Israel vem sendo questionada. Não a existência do Estado israelense, mas a natureza do apoio automático, a ausência de limites e o custo moral desse alinhamento. Esse questionamento cresce, mas ainda não alterou o núcleo da política americana.
A razão é simples. Alianças não sobrevivem por justiça, mas por utilidade. Enquanto Israel continuar entregando valor estratégico, político e simbólico aos Estados Unidos, o apoio persistirá, mesmo sob críticas. A política externa americana não é guiada por afetos, mas por interesses de longo prazo revestidos de linguagem moral.
A defesa ardorosa de Israel não é um desvio da lógica americana. É sua expressão mais clara. Uma combinação de poder militar terceirizado, política doméstica, memória histórica e cálculo estratégico. Quem espera que essa relação mude por indignação moral não compreendeu como impérios decidem.
Na política internacional, princípios explicam discursos. Interesses explicam comportamentos.
Analista colaborador do Resumo Política







